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“(Des)controle”: a culpa do dia seguinte – por Roselâine Casanova Corrêa

“Um filme apropriado e franco, dispensando ser rasteiro”, define a articulista

O uso de bebidas alcóolicas é narrado em todos os períodos históricos. Está atrelado a comemorações em diversas festividades, atos religiosos, comerciais ou complementos culinários.

Contudo, o uso inapropriado/excessivo – o que tem aumentado progressivamente – ocasiona questões de saúde pública. Tratado como droga lícita, o álcool é um dos principais responsáveis pelas causas de óbitos por abuso de drogas, no Brasil. A percentagem de dependentes tem aumentado substancialmente, afetando as relações no meio social e profissional, mas o mais grave ocorre em âmbito familiar.

É sobre isso que trata “(Des)controle” (2025), longa dirigido por Rosane Svartman e
Carol Minêm, contracenando nos papeis principais: Carolina Dieckmmann (Kátia Klein, a escritora), Caco Ciocler (Zeca, o marido), Daniel Filho (Levi, o pai) e Irene Ravache (Esther, a mãe). Está disponível no Globoplay e baseia-se em fatos reais (ver link abaixo).

Kátia é uma escritora bem-sucedida, porém enfrenta um bloqueio criativo. Atarefada com os afazeres da casa e o cuidado com os filhos e os pais, está passando por uma crise em seu casamento com Zeca. Correndo de um lado para outro – para dar conta de tudo – enquanto o marido pratica ioga, em meio ao caos. E sugere à esposa que ela precisa desestressar!

Dieckmmann encarna com maestria essa personagem tanto dedicada, quanto trágica. Em determinado momento, confessa à mãe que desde criança gostava de cheirar as taças de vinho, pelo aroma adocicado que inalava. Mas é diante do acúmulo de demandas, que retorna ao uso do álcool, o que nega, o habitual nesses casos. Na real, seu alcoolismo vem da adolescência, sendo uma válvula de escape e alívio na fase adulta.

Em princípio, parece clichê esse tipo de abordagem, no cinema. Contudo, as diretoras o trataram com sensibilidade e delicadeza, contrapondo a dependência dos pais da protagonista, com a autonomia e acolhimento dos filhos, diante daquela mãe esforçada, porém imperfeita.

Tendo o Rio de Janeiro como pano de fundo para a crise familiar e profissional de Kátia Klein (de origem judia), as locações são reais, em diversos bairros cariocas, incluindo Jardim Botânico, Botafogo, Tijuca, Grajaú e Grumari. Isso confere um ponto de equilíbrio entre a ensolarada cidade do Rio e a tensão com os “apagões” alcoólicos constantes da protagonista.

Jogar a bebida na pia, esconder as garrafas pela casa, crises de abstinência, convivem com a luta pelo equilíbrio e a sobriedade, difíceis de alcançar. Na corda bamba entre o adoecimento e a recuperação, Klein conta como principal rede de apoio, sua agente Léo (Júlia Rabello). E com os filhos Duda (Stéfano Agostini) e Bernardo (Rafael Fuchs Müeller).

Em síntese, a trama expõe a sobrecarga imposta a Klein – tanto no trabalho, quanto na família – o gerenciamento dos compromissos lembrados a ela o tempo todo, por um celular que apita sem parar. É uma pincelada e um alerta – embora não desenvolvida na trama – da toxicidade da dependência eletrônica. É a vida moderna, justificariam alguns. É muito mais que isso! É a busca pela aceitação (dos filhos, do marido, dos pais). Um desejo de família feliz, em uma casa ensolarada, envolta num figurino colorido e acessórios idem.

“(Des)controle” é um filme apropriado e franco, dispensando ser rasteiro!

Para saber mais:

https://veja.abril.com.br/cultura/o-drama-real-por-tras-do-filme-descontrole-com-carolina-dieckmmann

(*) Roselâine Casanova Corrêa é Professora de História. Graduada em História (UFN), com especialização em História do Brasil (UFSM); Museologia (UFN) e mestrado em História (PUC/RS). Foi membro do COMPHIC (2012-2022). Também é, com o jornalista Bebeto Badke, idealizadora do “Projeto Amnésia: descubra Santa Maria”. Rose escreve sobre cinema, às quintas-feiras, no site.

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