Guerra Civil. Governo paulista negociou com bandidos antes e durante o banho de sangue
Não foi apenas quando já estava em curso a matança que amedrontou São Paulo na segunda semana de maio. Mas mesmo antes. Sim, antes. A comprovação da negociação envolvendo as forças de segurança do governo paulista e os comandantes do crime organizado está no depoimento do líder do Primeiro Comando da Capital (PCC) aos integrantes da CPI do Tráfico de Armas, inclusive seu relator, o deputado santa-mariense Paulo Pimenta.
A conversa entre Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola, e os deputados aconteceu na própria prisão em que o criminoso está confinado. E dela participou, também, o presidente da CPI, deputado (e delegado licenciado da Polícia Federal) Moroni Torgan.
Quem está divulgado o teor da conversa é o jornalista da Folha de São Paulo, Josias de Souza, em sua página na internet, na madrugada deste domingo. Pelo relato se percebe muito facilmente como o Estado dobra os joelhos diante da bandidagem. É simplesmente deprimente. Confira:
Polícia negociou com PCC antes e depois de ataques
A cúpula da polícia de São Paulo não negociou com criminosos só depois de deflagrada a onda de ataques que aterrorizou São Paulo no início de maio. Sentou-se com líderes do PCC (Primeiro Comando da Capital) também antes do agravamento da crise.
Detalhes das duas tentativas de entendimento constam de depoimento que Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola, prestou a deputados da CPI do Tráfico de Armas. Acusado de ter ordenado os ataques, Marcola foi ouvido em sessão reservada, no dia 8 de julho, na penitenciária de Presidente Bernardes (SP).
A inquirição foi gravada. Durou quatro horas e 13 minutos. A transcrição ocupa 205 páginas. Marcola contou que, em 12 de maio, dia em que começaram os ataques do PCC, foi levado à presença de Godofredo Bittencourt, diretor do Deic (Departamento de Investigações sobre Crime Organizado).
Em encontro testemunhado por cerca de 15 autoridades policiais, Godofredo perguntou a Marcola o que poderia ser feito para estancar as rebeliões em presídios e os assassinatos em série de policiais. Àquela altura, só havia duas cadeias rebeladas – Iaras e Araraquara; contavam-se quatro policiais mortos.
Marcola diz ter pedido comida, cobertores e direito a banho de sol para 765 presos que haviam sido transferidos na véspera para uma cadeia de Presidente Vesceslau. Pediu também que fosse mantida a visita do Dia das Mães. Seria no domingo seguinte. E fora cancelada. Atendidas às reivindicações, prometeu interceder pelo fim da violência.
Conforme o relato de Marcola à CPI, o diretor do Deic concordou com as exigências. O dr. (Godofredo) Bittencourt falou pra mim: Concordo com você e vou passar isso pro Nagashi (Furukawa, então secretário de Administração Penitenciária de São Paulo). Aí ele ligou pro Nagashi, e o Nagashi falou simplesmente que não iria fazer concessão nenhuma, que não tava ali pra negociar.
Marcola disse aos deputados que sempre se entendera com Nagashi. Estranhou a intransigência. Disse que a transferência dos presos foi interpretada nas cadeias como um gesto político do secretário de Administração Penitenciária.
A gente tem noção política, somos politizados, disse o líder do PCC. Então a gente sabe, em determinado momento, se faz uma situação (…) que nem essa transferência do Nagashi. A gente sabia que ali era uma forma de ele dar uma resposta pra sociedade, dizendo ó, tranquei toda uma liderança, isolei todos e tal, e pronto.
O relator da CPI, deputado Paulo Pimenta (PT-RS), perguntou a Marcola se o objetivo do governo paulista teria sido o de dar uma demonstração de força. E o criminoso: Pra promover o (Geraldo) Alckmin (candidato do PSDB à presidência). Certo que o tiro saiu pela culatra. E como! A gente é usado. Ou não é usado? Marcola não foi contestado por nenhum dos inquiridores.
Dois dias depois da negociação malograda do Deic, a cúpula da polícia paulista dobrou os joelhos. Autoridades policiais voaram, em avião do Estado, da capital paulista para Presidente Bernardes, para onde Marcola fora levado. Estava também a bordo a advogada Iracema Vasciaveo. Reuniram-se com Marcola à noite, na sala da direção do presídio. Àquela altura, havia 52 pessoas mortas e 57 cadeias rebeladas…
SE DESEJAR ler a íntegra do relato, pode fazê-lo acessando a página do jornalista na internet, no endereço http://josiasdesouza.folha.blog.uol.com.br/





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