ARTIGO (2). Sandra Feltrin, o festival de balonismo e a (falta de) política municipal para o esporte

Recebi, e publico na íntegra, interessante reflexão da advogada e presidente do PSOL em Santa Maria, Sandra Feltrin. Ela se refere ao Festival de Balonismo, recentemente encerrado, e o trata como mote para discutir a política municipal para o esporte.

Atenção: se trata de artigo de opinião e, como tal, comporta várias análises. Com as quais se pode ou não concordar. Leia você mesmo e tire tua própria conclusão. A seguir:

Festival de Balonismo: e o vento levou…

Há dois modelos antagônicos de esportes: o de competição, de espetáculo e o de lazer, de participação. O primeiro almeja o máximo de resultados, poucos têm acesso, e o envolvimento vincula-se às idéias de premiação e de prestígio pessoal, reproduzindo a sociedade de consumo. Já o esporte de lazer traz a marca do prazer pela prática da atividade em si, a inclusão das pessoas, sem distinção de qualquer tipo e a possibilidade de expressão pela diversidade de formas, por isso vincula-se aos princípios da sociedade solidária.

O poder público municipal pode e deve colocar à disposição a sua capacidade de intervenção política e de relação com as forças produtivas e institucionais para carrear recursos aos eventos esportivos, desde que com critérios claros.

Os recursos públicos, escassos, precisam ser direcionados para aqueles esportes que historicamente foram ignorados – esportes de lazer, de participação – pois não exigem infra-estrutura sofisticada, promovem o surgimento de novos agentes sociais e estabelecem um processo dinâmico de reterritorialização.

No Brasil, o maior aporte de recursos públicos vai para o patrocínio de eventos esportivos “de espetáculo” e para atletas, individualmente, quando o correto seria patrocinar o conjunto da população, por meio do “esporte de lazer”, deixando para a iniciativa privada o patrocínio dos primeiros.

Em Santa Maria não tem sido diferente, como  no Circuito de Vôlei de Praia, no Campeonato de futebol sub-20 e, agora, no Festival de Balonismo, organizados pela  administração municipal.

Quanto dinheiro público foi gasto para a realização de tais eventos? O poder público municipal, em alguns, diz ter “custo zero”. Mas quem pagou os funcionários municipais que trabalharam no evento? E as equipes de limpeza que trabalharam durante toda semana? E as máquinas que prepararam a infra-estrutura? Por óbvio houve recursos do governo federal, o que  também é dinheiro público. Qual o valor da  verba e em que foi  gasto?

Consta que a CORSAN também foi promotora do Festival de Balonismo. Qual o valor investido? Logo a CORSAN, que tanto tem deixado a desejar no serviço que presta em Santa Maria !

Enquanto não tivermos a prestação de contas, podemos fazer qualquer tipo de juízo, inclusive que os únicos que tiveram “custo zero” foram os praticantes do balonismo. Se isto for verdade, trata-se de uma grande injustiça. Primeiro, porque quem pratica este esporte caro pode prescindir de recursos públicos, inexistentes para a saúde, educação, segurança, etc. Segundo, porque nas proximidades de onde se realizou o Festival não existe um único espaço público para prática de qualquer esporte. Quem quiser jogar futebol, só nos espaços privados e aí o custo não é zero.

Por fim, causa estranheza que o Festival de Balonismo tenha ocorrido em março e não em maio, como deveria, em face do aniversário de Santa Maria. Consta que o evento foi antecipado para que o Secretário Municipal Tubias Calil pudesse “aparecer”, já que o mesmo deverá deixar o cargo até 3 de abril, por conta das eleições. Se verdadeiro, tal evento se prestou à  promoção pessoal  e aí o vento se encarregou de tirar o brilho. Perde Santa Maria, perde a política e perdemos todos nós. Uma pena!            

Sandra Feltrin – Advogada e Presidente do PSOL/SM

SIGA O SITÍO NO TWITTER



0 comentários

  1. Aguinaldo Duarte

    Parabéns a articulista. Esse festival de balonismo é um descalabro de gasto de dinheiro público que traz resultado zero para a melhoria do esporte local. Quantos balonistas santa-marienses foram revelados a partir desse festival? Nenhum.

  2. Rogério Ferraz

    Só para constar:
    Como sindicalista dos funcionários da Corsan, enviei dois ofícios, um no ano passado e outro agora à direção da Empresa sobre o valor, e principalmente em que conta é depositado esta verba da Corsan. Desnecessário dizer que até agora não temos resposta. O estranho é que a Corsan é uma empresa pública e a gestão de Marco Alba e Yeda deveria primar pela transparência. Portanto, como diz a Sandra, nos é permitido fazer qualquer juízo. Eles fazem questão de sigilo no trato do dinheiro público.
    Agora falando como cidadão e não como sindicalista: Quanto a antecipação do festival de balonismo. Vejam a data de desincompatibilização e a data do final do festival. Alguma dúvida que trata-se da mais deslavada campanha antecipada com dinheiro público?
    Volto a dizer: Nossos vereadores têm o dever de fiscalizar isto, nem que seja encaminhar ao MP para que este faça a averiguação necessária. Enquanto apenas reclamarmos, este tipo de político vai se proliferando.

  3. claudio

    É isso aí, Sandra, concordo plenamente….o município não tem política PÚBLICA de esporte e lazer e se resume à espetacularização com fins de promoção pessoal e elitoral. Nada contra eventos marcantes, mas por favor, vamos levar o esporte e o lazer a sério nesta cidade CULTURA!

  4. Fabrício Ramos

    Parabéns Sandra pelo excelente texto. É impressionate como o poder público é usado para o proveito pessoal. Este secretário está pensando apenas em se eleger deputado e para isso tras a Santa Maria mega eventos, utilizando-se de verbas públicas para tal. O problema que vejo nisso são muitos, mas o que me salta aos olhos é a visão que o tal secretário tem sobre esporte e lazer. Qual a real participação do povo nestes espetáculos? São apenas espectadores e como tal não se apropriam diretamente de seu verdadeiro significado. Essa administração relegou os espaços públicos de esporte e lazer. Nossas praças, principalmente na periferia, estão tomados de mato e se não fosse a boa vontade dos próprios moradores em tomarem a iniciativa de cortar a grama, não se poderia transitar por esses espaços. Essa administração fez essa opção e enquanto isso nossas escolas municipais estão carentes de materias e espaços, pois dizem não existir recursos para tal. É vergonhoso saber que o povo é simplismente mero espectador e que sua participação nesses eventos é meramente visual.

  5. Rose Pereira

    O mais assombroso em tudo isso é o que temos lido e sobretudo ouvido em “programas de rádio” onde assodadamente em defesa da farra do balonismo, dizem: “ah! os recursos são oriundos da lei de incentivo ao esporte”. Perlamordedeus, vão pesquisar a origem dos recursos da referida lei e verão o tamanho da besteira que estão dizendo.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *