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O futuro da escola na prateleira – por Amarildo Luiz Trevisan

“...Fala-se em futuro, mas o orçamento revela o verdadeiro idioma do poder”

Todas as manhãs, antes mesmo de o café esfriar, o mundo já nos chega mastigado em manchetes, vídeos curtos, notificações insistentes e opiniões de cinco segundos. O dedo sobe a tela, os olhos correm, a cabeça cansa. Tudo é urgente, tudo é novo, tudo envelhece em minutos. A tecnologia, que prometia abrir horizontes, muitas vezes nos condena a um corredor sem janelas, onde só circulam informações com prazo de validade vencendo no instante mesmo em que aparecem. Vive-se sob o império do imediato, como se pensar fosse apenas reagir, como se conhecer fosse apenas consumir.

A universidade, por sua vez, que deveria ser um dos poucos lugares capazes de interromper essa correnteza, parece muitas vezes aprisionada a um outro tipo de problema. Não raro, dedica-se com rigor ao que faz, disseca o passado, comenta autores, interpreta ruínas, recompõe arquivos, mas perde o fôlego quando precisa imaginar o que ainda não existe. Estuda-se tanto o que passou, que quase não sobra tempo para projetar cenários, ensaiar saídas, inventar respostas para os gravíssimos problemas que já batem à porta. Assim, de um lado a avalanche do presente, de outro a solenidade do passado. E no meio disso, nós, órfãos do futuro.

Enquanto isso, do lado de fora das salas climatizadas e dos gabinetes bem iluminados, a realidade segue sua pedagogia cruel. A soja tem pesquisa, o petróleo tem pesquisa, os mercados têm planejamento, projeção, investimento, especialistas, tecnologia de ponta e defesa política cerrada. Para eles há futuro, estratégia e cuidado. Já as crianças das escolas públicas, sobretudo as crianças pobres, são deixadas ao léu, como se bastasse mantê-las respirando, como se educação pública pudesse reduzir-se a uma política de sobrevivência. Dá-se a elas quase uma esmola institucional, um mínimo para que não desabem de vez, mas nunca o necessário para florescer. É o mesmo olhar enviesado que transforma direitos em favor e dignidade em gasto excessivo.

O mais espantoso é que isso já quase não escandaliza. Acostumamo-nos a ver governos tratarem a escola como depósito humano, lugar de contenção social, nunca como oficina de mundos possíveis. Fala-se em inovação, mas não se investe em imaginação. Fala-se em qualidade, mas se entrega precariedade. Os dados internacionais confirmam que isso não é mera impressão.

No PISA 2022, os estudantes brasileiros tiveram desempenho abaixo da média da OCDE em matemática, leitura e ciências. Em matemática, apenas 27% atingiram ao menos o nível 2, considerado o patamar básico de proficiência, contra 69% na média da OCDE. Em leitura, 50% dos estudantes brasileiros alcançaram o nível mínimo, enquanto a média da OCDE foi de 74%. Além disso, o Inep resumiu que as médias brasileiras de 2022 ficaram praticamente no mesmo patamar de 2018, ou seja, persistência da estagnação. Há ainda um dado muito expressivo sobre aprendizagem de base.

O Banco Mundial, no relatório Brazil Learning Poverty Brief 2024, estimou que 47% das crianças brasileiras em idade final dos anos iniciais não conseguem ler e compreender um texto simples adequado à idade. No Saeb 2023, o próprio Inep registrou que houve tendência de estabilidade entre 2019 e 2023 no 9º ano do ensino fundamental e no 3º ano do ensino médio, isto é, sem melhora estrutural relevante nesses segmentos.

Em outras palavras, o sistema não está conseguindo acelerar a aprendizagem onde mais precisaria. As avaliações nacionais e internacionais mostram que o Brasil expandiu escolarização, mas não conseguiu garantir aprendizagem de qualidade em escala; o resultado é uma escola que muitas vezes assegura sobrevivência institucional, porém ainda falha em garantir domínio consistente de leitura e matemática para grande parte dos estudantes. Essa formulação fica bem amparada pelos dados.

Ou seja, fala-se em futuro, mas o orçamento revela o verdadeiro idioma do poder. E esse idioma, frio e objetivo, diz com todas as letras que um barril de petróleo ou uma saca de soja valem mais do que o destino de milhares de crianças. Nelas não se investe para melhorar a qualidade da vida, da aprendizagem, da esperança. Nelas apenas se administra a carência.

Talvez o drama do nosso tempo seja exatamente este: estamos cercados de informação, mas deserdados de visão. Sabemos demais sobre o agora e quase nada sobre o amanhã. Tornamo-nos consumidores de notícias mortas, repetidores de diagnósticos, comentadores de catástrofes. Perdemos a coragem de perguntar que escola ainda precisa nascer, que universidade ainda precisa despertar, que país ainda poderia ser construído se o futuro das crianças valesse mais do que as commodities. E, no entanto, é dessa pergunta esquecida que depende tudo.

Afinal, em um país que valoriza mais o que se extrai do chão do que o que se cultiva na mente, o futuro corre o risco de ser apenas um presente repetido, mas com a validade cada vez mais vencida.

(*) Amarildo Luiz Trevisan é licenciado em Filosofia, mestre em Filosofia (UFSM), doutor em Educação (UFRGS) e pós-doutor em Humanidades pela Universidade Carlos III de Madri. Tem formação teológica pela Diocese de Goiás. É Professor Titular aposentado da UFSM e atua como Professor Visitante no Programa de Pós-Graduação em Educação da UFRN. Publicou diversos trabalhos, entre eles o livro Terapia de Atlas: Filosofia da educação no contemporâneo (EDUCS, 2020). Ele escreve no site aos sábados.

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11 Comentários

  1. Resumo da opera. Foi dito repetidamente na epoca que antes de expandir a educação era necessario melhorar a qualidade. Porque era mais rapido, mais ‘facil’ e mais barato. Veio a conversinha de luta de classes de sempre. Deu no que deu. Agora, na minha perra opinião, politicos diem que vão implantar uma ‘politica publica’. Um canetaço sem ‘penso’. Minha posição é a la Capitão Nascimento, ‘Então senta o dedo nessa p#%%@!!!!!!!’.

  2. ‘[…] o futuro corre o risco de ser apenas um presente repetido, […]’. Pode piorar. E bastante. Curva demografica. Preço do saco de soja já passou de 180 reais em determinada epoca. Esta em 113 reais. Economia chinesa não anda como antes. Planejam diminuir importações do grão para ‘diminuir a dependencia externa’. Não compram dos ianques, mas como a oferta mundial aumentou os preços tendem a cair mais.

  3. ‘[…] se o futuro das crianças valesse mais do que as commodities.’ As commodities é que pagam o que ai esta, sem elas seria muito pior. Conversinha mole. Pelé no milésimo gol disse algo semelhante. 1969. “Pensem nas criancinhas!”.

  4. ‘E esse idioma, frio e objetivo, diz com todas as letras que um barril de petróleo ou uma saca de soja valem mais do que o destino de milhares de crianças.’ Questão não é esta. A vida é finita. Alguns escolhem tocar a vida. Outros escolhem virar o Grilo Falante, fazer p#rr@ nenhuma e criticar os outro porque não trabalham para ‘construir o mundo’ que os/as jenios(as) imaginam.

  5. ‘[…] mostram que o Brasil expandiu escolarização, mas não conseguiu garantir aprendizagem de qualidade em escala; […]’. ‘O Brasil’ uma ova. O governo petista de Molusco com L., abstemio, honesto e famigerado dirigente petista. Desde pelo menos 2003. Dilma, a humilde e capaz, assina o PNE de 2014 até 2024. O novo é desde governo. Existem responsaveis, têm nome e CPF. Não só expansão, inclusão a moda miguelão também aconteceu.

  6. ‘O Banco Mundial, no relatório Brazil Learning Poverty Brief 2024,[…]’. Politicas de ‘salvar todo mundo’ ferrando a maioria. Troca de problemas de lugar. Aprovação automatica. Prazo para alfabetização até o 3º ano do fundamental. ‘Vamos diminuir a evasão’.

  7. ‘No PISA 2022, os estudantes brasileiros tiveram desempenho abaixo da média da OCDE em matemática, leitura e ciências.[…]’. Brasil no PISA. 2006. Posição 50 em matematica, 49 em ciencias e 47 em leitura. Brasil no PISA 2018. Posição 71 em matematica, 65 em ciencias e 58 em leitura. O ‘investimento’ aumentou, a qualidade caiu. Taxad ministro da educação. Discurso não sobrevive a realidade.

  8. ‘ Acostumamo-nos a ver governos tratarem a escola como depósito humano, lugar de contenção social,[…]’. Já dizia Michel Foucault. Filosofia adotada pela religião Vermelha.

  9. ‘Já as crianças das escolas públicas, sobretudo as crianças pobres, são deixadas ao léu, como se bastasse mantê-las respirando, como se educação pública pudesse reduzir-se a uma política de sobrevivência.’ Como se não houvessem verbas carimbadas para educação desde 88 e as outras mazelas sociais não afetassem os estudos.

  10. ‘[…] os mercados têm planejamento, […]’. Não tem. O que se vê são os que sobreviveram. Tempo do videocassete. Betamax proporcionava melhor qualidade de imagem que o VHS e melhor som. General Electric foi fundada por Thomas Edison. Modelo de gestão. Depois de 132 anos o conglomerado dividiu-se. Dois CEO’s ruins. Hewlett-Packard. Carly Fiorina. Primeira mulher a ser CEO de uma empresa listada no Down Jones. Todo mundo correndo para o software. Ela foi para o hardware. Quase quebrou a empresa. Foi demitida.

  11. ‘Estuda-se tanto o que passou, que quase não sobra tempo para projetar cenários, ensaiar saídas, inventar respostas para os gravíssimos problemas que já batem à porta.’ Universidade não consegue interpretar o presente. Conversinha do ‘futuro que queremos’ é da religião Vermelha. Ou alguém acha que Lenin planejou o fim do Império Soviético? Ou Mao planejou um pais com dinamica economica capitalista?

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