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Um anjo na máfia – por Bianca Zasso

Os filmes do gênero noir são uma incógnita dentro do cinema. Nasceram como filmes B, devido ao seu baixo orçamento e tramas protagonizadas por anti-heróis, num tempo onde Hollywood amava os rapazes e moças bem comportados. Depois, com os elogios recebidos pelos críticos da revista Cahier du cinema, que após criariam o movimento da Nouvelle Vague, conheceram a fama e passaram a ser chamados de clássicos.

O auge do cinema noir se deu nas décadas de 40 e 50, mas até os dias de hoje há quem beba na fonte das histórias de gângsters, como o americano Brian De Palma que lançou, em 2006, Dália Negra, um legítimo noir em cores, já que uma das principais características do gênero é apresentar uma fotografia em preto e branco, cheia de sombras, fumaça e becos escuros. Mas muito antes de De Palma se arriscar no gênero, o outro lado do mundo embarcava no mundo da máfia com maestria.

Em 1948, o diretor japonês Akira Kurosawa assumia sua admiração pelo cinema americano e lançava O Anjo Embriagado, um filme com embalagem noir e recheio oriental. O roteiro tem dois protagonistas de peso. De um lado, um jovem ator de nome Toshiro Mifune interpreta Matsunaga, um mafioso que descobre estar com tuberculose e mesmo assim não deixa a vida de uísque, mulheres e tiros. Este foi o primeiro de Kurosawa em que Mifune atuou, dando início a uma parceria que duraria 17 anos e só seria rompida após uma briga feia entre o diretor e o ator durante as filmagens do longa O Barba Ruiva.

O outro personagem que conduz a história é o médico interpretado por Takashi Shimura, um dos maiores atores do teatro e do cinema japonês. Com seu jeito intimista e seu olhar marcante, Shimura constrói um homem feroz, que não nega atendimento mas também não faz questão de ser dócil com seus pacientes. A bebida é sua companheira e a cada copo o doutor parece afundar mais na solidão. As frases secas que ele utiliza para dizer ao paciente mafioso que ele está tomado pela tuberculose são impactantes.

O médico parece ter uma raiva da vida, como se tivesse perdido a razão de sua existência. Já Matsunaga está na contramão, quer agarrar a vida com todos os dedos e aproveitar ao máximo o pouco tempo que lhe resta e uma das formas de fazer isso é encontrando esperança até nos detalhes mais tristes, como na cena onde ele dança freneticamente, intrigando até seus amigos. Uma dança da liberdade, que ele sabe que não tem.

O Anjo Embriagado foi o filme que lançou o nome de Kurosawa para o mundo dois anos antes de o diretor vivenciar o seu auge entre o público do ocidente com o clássico Rashomon, vencedor do Leão de Ouro no Festival de Veneza e do Oscar honorário de melhor filme estrangeiro.

O Anjo Embriagado, ao lado de Céu e Inferno, lançado em 1962, talvez seja o filme mais urbano de Kurosawa que, mesmo com a trilha jazzística e os carrões da moda não perde sua personalidade de samurai. O personagem do médico não deixa de ser um guerreiro cambaleante cansado da batalha e o mafioso nada mais é do que um jovem que quer usar suas armas freneticamente como modo de esconder o medo da morte.

Apesar do tema e de algumas cenas serem claramente inspiradas no cinema noir, O Anjo Embriagado é, antes de tudo, um filme de Akira Kurosawa, uma assinatura única e que até hoje não conseguiu um parâmetro dentro do cinema oriental.

Kurosawa é um chef que sabe dosar muito bem os ingredientes de sua receita. Capta o clima tenso dos filmes policiais americanos que tanto adorava e tempera com sua câmera perfeita, que presenteia o público com rostos tensos, suados, nervosos e, acima de tudo, humanos.

Nunca um gângster foi tão humano quanto o Matsunaga de O Anjo Embriagado. Por mais que sua arma seja barulhenta e certeira, a confusão maior é causada pelo sentimento deste homem que sabe que está perto do fim, mas quer acreditar no contrário. Já seu médico quer que o fim chegue logo, pois não há nada a perder.

Mesmo com diálogos impregnados de desesperança, O Anjo Embriagado passa longe de ser um filme triste. Os detalhes felizes que Matsunaga tenta encontrar no seu cotidiano a qualquer custo vão se mostrar os melhores amigos do médico alcóolatra no momento em que este encontra uma paciente jovem e com muita fé na vida.

Em meio aos tiros e à vida louca da máfia, surge uma luz provando que a vida é mágica e é preciso caminhar em busca de novos sonhos. Os anjos e os pecados. Os tiros e os olhares. A máfia e a medicina. A dor e o alívio. Coisas que quando conduzidas por um bom diretor são lindas de ver. Mas quando conduzidas por um gênio, são perfeitas.

O Anjo Embriagado (Yoidore tenshi)

Ano: 1948

Direção: Akira Kurosawa

Disponível em DVD

 

 

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