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Um dia, será o último dia de sua vida – e pode começar como um dia comum de trabalho – por Rosito Zepenfeld Borges

“Sem cuidado, sem cultura sólida de segurança, o improvável se torna possível”

Ele acordou como em qualquer outra manhã. O despertador tocou no mesmo horário, o café tinha o mesmo cheiro, e o ritual de sair de casa seguiu o roteiro habitual. Um beijo apressado, uma promessa de retorno no fim do dia, talvez um “até mais tarde” dito sem muita atenção – afinal, haveria muitas outras tardes. Sempre há, até o dia em que não há mais.

No caminho para o trabalho, nada parecia diferente. O trânsito, as conversas triviais, os pensamentos dispersos sobre contas, planos e pequenas preocupações. Era apenas mais um dia comum. No trabalho, cumprimentos rápidos, tarefas já conhecidas, uma rotina que se repete tantas vezes que se torna quase automática. E é justamente nessa familiaridade que, muitas vezes, o risco se esconde – silencioso, ignorado, subestimado.

O acidente aconteceu em segundos. Um instante que rompeu o fluxo do cotidiano e transformou tudo. Aquilo que parecia sob controle revelou sua fragilidade. Não houve tempo para despedidas, nem para revisões, nem para segundas chances. O que era apenas mais um dia de trabalho tornou-se, de forma abrupta e irreversível, o último dia de sua vida.

A notícia chegou à família como chegam todas as notícias que ninguém está preparado para receber: de forma brusca, quase inacreditável. O telefone que toca fora de hora, o silêncio pesado antes das palavras, a tentativa desesperada de negar o que já é fato. Em casa, o lugar à mesa ficou vazio. O quarto permaneceu intacto, como se a qualquer momento ele pudesse voltar e retomar sua rotina. Mas não voltou. E não voltará.

Entre os colegas de trabalho, o impacto também ecoa. Alguns revivem o momento, outros evitam falar. Há quem se culpe, quem busque explicações, quem tente seguir em frente rapidamente. Mas a ausência é concreta. Ela se manifesta no posto vazio, nas tarefas interrompidas, nas conversas que não acontecerão mais. E, pouco a pouco, o que era presença se transforma em memória.

Histórias como essa não são exceção. Elas acontecem todos os dias, muitas vezes em cenários onde o risco era conhecido, onde sinais foram ignorados, onde a pressa, a rotina ou a falta de atenção falaram mais alto. Cada acidente fatal carrega não apenas uma vida interrompida, mas uma rede inteira de impactos: famílias desestruturadas, colegas marcados, comunidades afetadas.

É preciso encarar uma verdade desconfortável: todo trabalhador que sai de casa pela manhã pode não voltar. Não porque isso seja inevitável, mas porque, sem prevenção, sem cuidado, sem uma cultura sólida de segurança, o improvável se torna possível – e o possível, infelizmente, acontece.

Por isso, falar de segurança do trabalho não é falar apenas de normas, procedimentos ou obrigações legais. É falar de vidas. De pessoas que têm histórias, sonhos, vínculos. É reconhecer que por trás de cada capacete, uniforme ou crachá, existe alguém que precisa voltar para casa.

Porque um dia será, de fato, o último dia de cada um de nós. Mas que nunca seja por negligência, por descuido ou por falta de prevenção. Que, ao final de cada jornada, o retorno para casa continue sendo a regra – e não uma incerteza.

(*) Rosito Zepenfeld Borges é Engenheiro de Segurança do Trabalho. Ele escreve no site às segundas-feiras.

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