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Em nome do ódio – por Atílio Alencar

É justo que comemoremos o fracasso miserável, em termos de mobilização, das tais marchas com deus pela família (que me perdoem os devotos, mas não vejo motivo para utilizar nenhuma letra maiúscula aqui). Afinal, depois de tanto alarde feito nas redes sociais e estranhamente ecoado por parte da mídia – em pleno ano do cinquentenário do golpe de Estado que subjugou o país ao poder dos militares -, não deixa de ser um alento constatar que a histeria extremista da direita está mais para um fogo de palha do que para as bombas com as quais gostariam de calar os divergentes.

Mas comemorar o fracasso de um espetáculo ridículo que não chegou a reunir, nas capitais onde ocorreu, mais do que poucas centenas de pessoas (em algumas cidades, o número de ‘manifestantes’ não completou uma mão cheia), não pode significar que ignoramos o fato de que há sim uma aceitação social alarmante para ideias de orientação fascista no Brasil – principalmente entre setores médios da população, apegados ao pouco que tem em termos de privilégios e ainda assim ressentidos com o fantasma de uma ‘escalada comunista’ que precisaria da intervenção militar para ser barrada.

São os ‘cidadãos de bem’, que tendem a naturalizar as diferenças sociais e econômicas e personalizar a corrupção (de quem? com quem? para quem?) como o mal maior a ser combatido. Irascíveis quando o alvo são os genéricos políticos mas evasivos quando confrontados com dados que demonstram o quanto a corrupção grassa apenas por conivência de um sistema submetido aos interesses empresariais, essas são as mesmas pessoas que desdenham do discurso das minorias, reduzindo a homofobia, o racismo e o machismo à miragens causadas pela paranoia coletiva dos comunistas (e aqui entenda o ‘comunista’ como adjetivo cabível a qualquer um que defenda a liberdade de expressão, a erradicação da miséria, os serviços básicos gratuitos e de qualidade etc).

Se há uma convicção que os une, é a de que a meritocracia rege de forma justa a sociedade. O pobre só é pobre porque quer, os negros só foram escravizados porque eram um povo propenso à escravidão e os índios merecem comer a poeira do progresso por conta da inaptidão para o trabalho.

O discurso é de uma argumentação pífia, quase infantil, mas repetido com veemência por gente que nunca se perguntou sobre as origens das desigualdades sociais. Condenam os ativistas da reforma agrária por vagabundagem e ‘inveja de quem tem alguma coisa’ (um bom exemplo de argumento risível), mas convenientemente omitem-se do debate sobre, afinal, quais seriam os desígnios sagrados que garantiram o direito de invadir, matar e expulsar milhões de indígenas de suas terras de origem.

O mais triste é que há jovens que repercutem essa visão de mundo medonha, tão frágil de substância que só pode apelar para a violência como recurso de legitimação. Eis aí o fenômeno tétrico das organizações neonazistas num país de mestiços, onde os imigrantes europeus que cá desembarcaram praticamente deportados de suas nações deliram com apego a brasões e sobrenomes improvisados para maquiar a ausência da nobreza.

Uma vez, em Curitiba, vi um jovem skinhead desfilando orgulhoso seus coturnos pela noite da cidade. Procurava briga, era visível. Tinha a pele da cor da minha – sou pardo – e ostentava uma suástica tatuada na altura do bíceps. Naquele momento, tenho certeza que fui mais cristão que um fascista poderia esperar de alguém como eu: senti compaixão ao imaginar aquele guri tentando ingressar nas fileiras do exército nazi. Seria trucidado, o pequeno imbecil.

Aliás, a simples associação das tais marchas pelo direito ao ódio (porque era esse, enfim, o mote essencial dessas marchas) com uma entidade transcendental que, em tese, encarna a bondade e a generosidade, é um contrassenso gritante. O Cristo que nas páginas bíblicas impediu o apedrejamento de uma prostituta, propagou uma religião de minorias, repartiu o pão,  vagou com marginais e desafiou o poderio imperial por seu direito de livre manifestação não se reconheceria nas bandeiras dessa gente. E provavelmente, também não ficaria dependurado numa cruz por elas.

Alguém precisa explicar pra esses que marcharam que a Dilma não é comunista e que Cristo apanhava dos milicos. Quem sabe assim, um pouco menos de burrice a amparar o ódio.

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Um Comentário

  1. É salutar e digno de menção, ver que existem interlocutores com esse perfil, em meio à nossa sociedade. Alguém com claríssima motivação humanista, engajado em causas minoritárias, que prega o bom senso, a auto-crítica antes da critica à terceiros, e que busca o consenso para as divergências sem apelar para a violência, e conseqüentemente combate o escárnio e o ódio.

    Que bom seria se todos fossem assim. Porém, neste ponto eu mesmo me contradigo, com uma certa quantia de hipocrisia, pois não possuo todas essas qualidades e assumo que “ainda” não faço parte desse grupo que gostaria de ver crescendo (não que isso me envergonhe, mas acho que uma conversa sincera é o que há de melhor).

    Quero contribuir para o debate sobre o tema em destaque ressaltando a insustentável leveza do moralismo que assombra nossa população, em outras palavras, o moralismo das cuecas fascistas.
    Em recente artigo, que enviei para centenas de periódicos dentro do país (incluindo o site do Claudemir Pereira), propus uma sutil inversão do discurso moralista, ou seja, fiz algo semelhante ao que se lê no texto “Em nome do ódio”, coloquei os moralistas como alvo de seu próprio moralismo. Então constatei, já não se fazem moralistas como antigamente – moralistas que sustentam na prática o seu discurso. Entretanto, não resisti e, na minha própria redação, acabei por colocar um pouco de veneno na tinta da minha caneta – e isso fica evidente no emprego intencional de um recurso da linguagem (poética ou retórica) para personificar ou materializar um fenômeno tão complexo como a corrupção “colocada no banco dos réus”.
    https://claudemirpereira.com.br/2014/03/mensalao-2-as-imensas-responsabilidades-do-supremo-tibunal-federal-na-opiniao-de-leitor-do-sitio/#axzz2x4qYJNUF
    Isso mostra o quanto todos somos diferentes quanto aos meios que usamos para atingir nossos objetivos (e digo nossos pois sou um altruísta e humanista declarado que luta por respeito às diferenças). No meu caso em particular, por vezes faço sim um uso calculado da minha força – até mesmo física – sempre com as melhores das intenções e justificativas. Na condição de enxadrista, busco estudar bem o movimento das peças durante um jogo, e busco prever com o máximo de antecipação o possível lance final. Sei que por vezes, para capturar uma grande fera à solta, é preciso sacrificar um ou dois cordeiros. E não é por ódio que quero ver preso o deputado renunciante Eduardo Azeredo (PSDB-MG), é para que sirva de exemplo.

    Quando o tema é corrupção no Brasil, dentro de um jogo político complexo, de resultados incertos, posso apenas oferecer certezas que conheço meus objetivos, sendo o principal a reforma política – para preservar as instituições democráticas e promover mais desenvolvimento humano com justiça social para a população.

    Sempre tentarei corroborar com posições que combatam a moral de cuecas, combatendo principalmente o discurso fascista. Mas não são raras as vezes que adoto posições “moralistas”, tanto como artifício de propaganda e, até mesmo para ver se isso desperta o debate e a reflexão. Sim, isso tem um custo.

    Contudo, gostaria de saber de você Atílio, em termos práticos, quando o assunto é corrupção, na tua visão, qual seria a solução, ou possíveis caminhos para o fim da corrupção, se é que isso é desejável?

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