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Grandiosidade – por Bianca Zasso

foto biancaCerta vez, na saída de uma sessão de cinema, escutei a conversa de duas senhoras. Uma delas disse: “eu gosto desses filmes que enchem os olhos, com cenários grandes, bonitos.” Ela não está sozinha. O público que vivenciou os primeiros anos do Cinemascope, onde a tela passou de quadrada a retangular, permitindo uma vista e tanto, costuma procurar nas estreias da semana produções com castelos, grandes lagos e épicos que, hoje, têm mais gastos com efeitos especiais do que com a construção de cenários físicos.

Durante os meus primeiros anos de cinéfila, tinha certa aversão aos tais “filmes que enchem os olhos”. Talvez a culpa fosse do conflito de gerações, já que meu pai sempre gostou de épicos grandiosos e eu estava descobrindo um cinema mais intimista, com mais história e menos fartura imagética. Passado esse tempo, aprendi a gostar de encher os olhos por culpa de Bernardo Bertolucci. O diretor italiano, conhecido por obras dotadas de um erotismo poético como O último tango em Paris, seguiu a tradição de seu país em criar bons épicos. E foi longe para isso.

O último imperador, lançado em 1987, é uma cinebiografia de Puyi. Último governante da China Imperial, em 1945 ele é capturado pelas tropas soviéticas e acaba preso até 1949, ano em que é entregue de volta a sua terra natal. A China, por si só, daria um filme grandioso, já que suas construções imperiais são de uma beleza ímpar. Mas Bertolucci viu no personagem algo tão grandioso quanto o país mais populoso do mundo. Seu norte foi encontrado e O último imperador, que poderia ser mais um filme sobre a vida de um homem importante, tornou-se um dos filmes mais importantes da década de 80.

Ao invés de seguir a linha cronológica, Bertolucci optou por narrar a vida de Puyi por meio de suas lembranças. Na prisão, ele relembra seus anos de glória como um pequeno imperador que estava mais interessado em brincar do que em governar, sua juventude cercada de luxo e poder e a queda de seu mundo mágico com a vitória do partido comunista.

Tudo isso é mostrado com delicadeza por meio de flashbacks, ou seja, é um mundo em transformação visto sob o olhar de Puyi. O último imperador passa longe de ser didático. Não é essa a sua função. O objetivo é mostrar quem é o homem por trás do manto bordado de ouro, quais são seus dramas, seus amores, suas verdadeiras vontades. É esse o pulo do gato, o que conquista o espectador. As fortalezas imponentes da China ficam como detalhe, uma pressão extra na vida de Puyi.

Claro que não se pode negar a grandiosidade do filme. A direção de arte, o som e a fotografia são um primor. Metros de tecido, automóveis antigos, filmagens em locais antes proibidos. Na cerimônia do Oscar de 1988, O último imperador levou para casa nove estatuetas, incluindo melhor filme. Quem acompanha os prêmios sabe que não é de hoje que a Academia gosta de dar o homenzinho dourado para filmes que prezam a boa reconstituição de época. Os tais grandiosos.

Tenho certeza que a senhora que estava naquela sessão de cinema junto comigo deve ter gostado de O último imperador. A China é um país de encher os olhos mesmo quando não está em frente às câmeras. Mas espero, com toda a sinceridade, que ela tenha saído da sessão com o coração cheio de boas histórias.

O último imperador ( The Last Emperor)

Ano: 1987

Direção: Bernardo Bertolucci

Disponível em DVD e Blu-Ray

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