Eu não sou suave – por Márcio Grings

Eu sou rascante e turbulento. Quebro e derrubo coisas. Esqueço o que fiz há pouco, e persisto no erro algumas vezes. Parece estupidez, mas não é. Talvez seja algum tipo de resiliência que precisa ser burilada. Gosto de novos brinquedos e sou fascinado por engenhocas. Geralmente desmonto-as e monto-as várias vezes, juntando as peças até aprender como tudo funciona. E então, quando descubro [quase] todos os segredos – me desinteresso por elas.  É como se tivesse tocado algum tipo de alma sintética.

Nunca desvende totalmente um mistério.

Eu não gosto de dinheiro. Junte a essa relação defeituosa uma facilidade extrema para gastá-lo. Ah, e nada de reservas para alguma emergência. Convivo com contas bancárias no negativo e vivo sem grana debaixo do colchão. Ganho muito menos do que deveria ganhar, mas faço mágica todos os dias. Mesmo como milagreiro, sofro quando não consigo escalar uma ou outra montanha. Na maioria das vezes meu olhar é obstruído por estupidez pura. Vejo passagens secretas onde existe apenas um espelho. Visualizo campos de centeio em asfalto e cimento. Tenho facilidade em me enganar com as pessoas. Esse traço de ingenuidade faz com que eu aposte minhas fichas em quem algum dia vai me dar às costas. E com isso, muitas vezes desabono quem sempre esteve ao meu lado.

Nunca abandone os seus.

É. A comédia humana é uma epopeia repleta de ondulações. Sou ansioso em estreitar caminhos e encontrar atalhos. Gosto de ir direto ao ponto. Só que isso me causa uma série de transtornos. Não há nada pior do que ser mal interpretado. Talvez por que eu tenha sérios problemas em passar corretamente as informações. Não que haja algum receio em me comunicar, bem pelo contrário, falo pelos cotovelos. Ainda mais quando me empolgo com objetos do desejo. Misturo tudo, sonho & realidade. É que detesto essa história de dar uma de professor e ficar ensinando como se faz isso ou aquilo. Pura aporrinhação de saco.

Nunca se aborreça demais.

Tem vezes que acordo mal humorado. É como se o mundo todo estivesse dopado e não reagisse da forma que imagino. Um sonambulismo doentio que parece levar a lugar nenhum. Lembro-me daquela frase de Paul Newman em “Butch Cassidy”:

“Eu tenho visão perfeita. Já o mundo usa óculos”.

Eu sei, eu sei.

“Contradigo-me? Eu sei, contradigo-me. Sou amplo, contenho multidões”.

É que tenho a cisma de nadar contra a correnteza. Se me deram como missão singrar mares revoltos, dá-lhe braçada rumo ao centro do oceano profundo. Todos os meus defeitos, rabugentisses e desvios de conduta não cabem numa folha de papel. Este sou eu. Um mestre em recomeços, utopias e o cara que não tem medo de virar bala de canhão. Minha carne não estraçalha com facilidade. Bato e volto.

Nunca desista de suas convicções.

Lembre-se: eu não sou suave. Eu trepido, sou rascante, turbulento. Não que não saiba lidar com suavidade. Claro que sim! Eventualmente transito com leveza entre uma via ou outra.  É que apenas gosto de ouvir o som dos meus passos. Assim, continuo enganando a vida, protagonizando uma farsa burlesca qualquer com certo tipo de importância. Quando ando por aí e não ouço o barulho das correntes, enquanto troco os meus passos, permaneço convencido de que não sou um fantasma. Esse é o lance.

Sempre engane a si mesmo.



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