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Reflexões em tempos de nascimento de um novo ano – por Luiz Carlos Nascimento da Rosa

O intrínseco caráter teleológico que está contido na atividade chamada trabalho e sua evolução para uma divisão colaborativa e partilhada foi fundamental para a gênese e evolução do homo sapiens, sua vida social e aos seus diferentes processos de comunicação e linguagem. A consolidação, avanço material e espiritual dos seres humanos em sua, necessária e inevitável, vida social foram se incorporando individual e coletivamente com o auxílio de mediadores que representam e movimenta historicamente esse ser que se tornou racional em sua prática social, isto é, em sua vida colaborativa e coletiva.

Muitos mitos e rituais foram sendo gestados pelo trabalho e pela sociabilidade para dar unidade a diversidade dos seres humanos em sua nova condição de um ser que vive, é capaz de sobreviver e se desenvolver pela construção de uma nova essência não apenas biológica, mas socialmente constituída e solidária.

Ao ler os grandes poetas gregos nos deparamos com sua fantástica mitologia. Os infindos deuses gregos representam os diferentes sentimentos humanos, seus medos, anseios, esperanças e sua concepção de mundo, esta determinada por suas condições históricas (material e espiritual).

Ao passear pelo centro de Santa Maria e deparar-me com a multiplicidade de luzinhas e adereços fui possuído de um leve e bom sentimento e dei-me conta que fazia uma bela e agradável viagem em minha memória afetiva. Tenho amigos que desgostam desse período do ano, pois se tornam taciturnos, tristes e melancólicos. Ao contrário desses amigos, nesses dias de nosso gregoriano calendário me deixam leve, alegre e, com mais intensidade, aflora minha essência amorosa, solidária e generosa.

Penso que cada um vislumbra esta fase do ano conforme o tipo de registro que tiveram quando criança ou em sua adolescência. Felizmente, eu tive registros maravilhosos nessa fase da vida e, consequentemente, sempre vivi prazerosamente as festas natalinas e a virada de ano. Nossa simples, mas aconchegante casa funcionava como um verdadeiro porto: era lugar de chegadas e de partidas.

Como meu irmão mais velho teve que se mudar para o Rio de Janeiro para ganhar a vida, avançar nos estudos acadêmicos e se profissionalizar era no natal e no ano novo que nós conseguíamos reunir toda a família. Filho de trabalhador tem que se aventurar na vida, sublima tempo e distâncias, para conseguir um lugar ao sol nesse mundo competitivo das egoístas relações sociais capitalistas.

Para nossa família, natal e ano novo era tempo de chegada. Com a nossa alma cheia de saudade do ser amado que vivia distante vivíamos ansiosos, apreensivos e felizes à espera deste desejado período do ano, pois sabíamos que, mesmo de forma provisória, a chegada do primogênito era líquida e certa.

Minha amada mãezinha coordenava a faxina na casa, a confecção dos saborosos quitutes e o novo arranjo dos quartos para que todos ficassem confortavelmente instalados. Meu amado pai, cheio de esperança, saudade e amor no coração, era o timoneiro na condução da pintura da casa e em tornar nosso quintal ainda mais impecável.

Como éramos muitos e a necessidade era igual para todos, com o passar dos anos foi só aumentando o número de partidas e, consequentemente, o número desejado de chegadas. Nesse nosso processo de partidas e chegadas, nossa casa e nossos generosos pais sempre se constituíram como um imponente e seguro porto e fomos aprendendo na e com a vida que o verdadeiro ato de amar é capaz de romper as barreiras do espaço e, as por vezes, condições adversas das barreiras do tempo.

Sou indiferente ao caráter mercantil que o capital impõe a esse período de confraternizações e de festas e, continuo a vislumbrar nas coloridas luzinhas em forma de estrelas, Papai Noel, bolas e trenós que enfeitam minha “Santinha da Boca do Monte” o sentimento de amor, solidariedade e generosidade de nossa, muitas vezes, esquecida essência humana. Minha cidade iluminada me faz lembrar o mito grego de Prometeu. Sem se importar com a ira implacável de Zeus, de forma corajosa e revolucionária, roubou o fogo sagrado e trouxe para o mundo dos mortais para salvar a sua criação: a raça humana.

É certo que em nosso mundo capitalista anda solto o egoísmo, a intolerância, o ciúme, a inveja e reina tranquila a competição. Não esqueçamos que, felizmente, na mesma mitologia, para alem desses maus sentimentos vai brotar a Esperança, do fundo da Caixinha de Pandora, para salvar a humanidade e resgatar sua essência generosa.

Que a flecha do amor, de Eros, acerte o coração de nossa gente no novo ano que vai emergir e, que a esperança que sairá da Caixinha de Pandora, que vai raiar com a aurora do novo ano, envolva nossa alma e, assim, possamos construir um tempo novo, onde o amor seja nosso elo e razão essencial da nossa vida social. Trabalhar colaborativamente é preciso!

Que as luzinhas que dão brilho a nossa cidade deixem de projetar apenas o interesse mercantil do egoísmo capitalista e passem refletir nossa alma generosa e o nosso grande amor pela humanidade. Inevitáveis são as partidas e chegadas. Navegar é preciso.

Cortar as gigantescas ondas que a vida apresenta se faz necessário, mas que cada um de nós consiga fazer com que o outro seja nosso desejado e romântico porto seguro. Viver intensamente o presente e dar-lhe o caminho desejado é uma forma de estar fazendo de nossa práxis existencial um profícuo diálogo com o almejado futuro. Que a dialética entre esperança, desejos e realizações seja uma constância na vida de nossos amigos e leitores na travessia de 2015.

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