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O Paralelepípedo Verbal: da ameaça no pátio à piada no tribunal – por Marcelo Arigony

“O desafio está em achar a medida certa, sem trocar o diálogo pelo silêncio”

A pedra estava lá. Em cima da mesa. Um paralelepípedo de uns cinco quilos, bem no meio da sala de aula, numa manhã qualquer no Colégio Olavo Bilac, anos 80. Não vou mentir: deu medo.

O dono da pedra era um colega conhecido como “Disritimia” – apelido que corria solto, sem bilhete para os pais, sem reunião pedagógica. Naquele recreio, discutimos. Ele não gostou. Voltou para a sala, encostou o paralelepípedo sobre a carteira e avisou:
– Vou te dimulir.

Assim mesmo, com “i”. Ele vinha de Porto Alegre e falava “dimulir”, “difunto”, “testimuha”… tudo com “i”. Passou a aula inteira com a pedra ao alcance da mão, me encarando, como quem mede distância e força. Acho que até a professora teve receio.

Naqueles tempos, ninguém falava em bullying ou protocolos contra violência escolar. O pátio era território de disputas, apelidos e códigos próprios. Pequenos confrontos – até com certa violência tolerada, principalmente entre meninos – faziam parte do crescer. Não eram tempos melhores; eram outros tempos. Abusos existiam, sim, mas eram lidos por lentes diferentes.

É preciso reconhecer: o bullying deixou marcas profundas em muita gente. Houve quem carregasse cicatrizes invisíveis para a vida toda. Há agressões, físicas ou verbais, que ultrapassam qualquer limite e precisam, sim, de resposta firme. A questão é não permitir que o justo combate aos abusos se transforme numa blindagem contra qualquer desconforto ou contrariedade.

Quarenta anos depois, a pedra não sumiu, mas assumiu outras formas. Saiu do chão do pátio e foi parar no palco. Em junho de 2025, o humorista Léo Lins foi condenado a oito anos e três meses de prisão por piadas registradas em vídeo – para alguns, exageros inofensivos; para outros, ataques diretos à dignidade.

Se, no pátio, o paralelepípedo era concreto, no palco o projétil é verbal. A diferença é que, agora, não é só o alvo que reage: todo um sistema se move. Proteger contra abusos é necessário; confundir ofensa com qualquer provocação, arriscado.

Quando qualquer palavra pode parar no banco dos réus, o humor se retrai – e a sociedade corre o risco de perder algo essencial: a capacidade de enfrentar o incômodo sem transformar tudo em processo.

O paralelepípedo de pedra ficou no passado. O verbal, não. Ele continua pesando – às vezes com razão, às vezes além da conta. O desafio está em achar a medida certa, sem trocar o diálogo pelo silêncio.

(*) Marcelo Arigony é Advogado, ex-Delegado da Polícia Civil e atual Diretor da ULBRA Santa Maria. Ele escreve no site às quartas-feiras.

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7 Comentários

  1. Resumo da opera. Sociedade não vai ‘melhorar’ por conta do politicamente correto. Vai se adaptar. As nutrias da classe media alta bunda mole vai olhar para a propria bolha e afirmar ‘está funconando!’.

  2. Outra distorção. Equiparação de agressão verbal, suposta ou não, e agressão fisica. Não deve ser dificil encontrar condenação por agressão fisica com pena bem menor do que a condenação do humorista.

  3. Fica a questão, autoridades estão com a vida mansa, tem tempo para correr atras de humoristas? De novo Caso Felca. Ele fez a denuncia. Instagram derruba a conta do influenciador sob suspeita. Depois vem a ordem judicial para derrubarem a conta que já tinha caido. Descobre-se que o MP já investigava o suspeito desde 2024. Se não der midia não tem pressa?

  4. Existem pessoas mais sensiveis do que as outras. Problema é que são utilizadas como ferramenta politica. Viram argumento de terceiros, o ‘ninguém pode fazer tais e tais coisas porque possivelmente alguém (indeterminado(a)) pode se sentir ofendido’. Puritanismo ideologico do politicamente correto. E o macarthismo do cancelamento.

  5. De onde vem o caso Felca. Existe o ECA. A barbaridade não é de hoje. Mas não foi a policia que ‘pegou’, nem o MP, nem Conselho Tutelar e nem ‘jornalistas’. Foi um ‘influencer’ da internet. Presidente da Camara resolveu abraçar para ‘mudar a pauta’ (presidente fraco, etc.) e vermelhos desengavetaram a censura velada (não se dão bem nas redes sociais logo tem que acabar). Midia tradicional cumpanhera abraçou a causa. Tudo ‘pelo bem das criancinhas’.

  6. ‘Em junho de 2025, o humorista Léo Lins foi condenado a oito anos e três meses de prisão por piadas registradas em vídeo – para alguns, exageros inofensivos; para outros, ataques diretos à dignidade.’ O humor virou coisa de ‘speakeasy’ do tipo que existia durante a Lei Seca ianque. Stand-up não é uma pratica que se adapte bem a lingua portuguesa. O humorista não foi condenado por falar num estabelecimento fechado e sim porque foi filmado e jogado no Youtube. Incitação ao crime tem pena de tres a seis meses. Cestas basicas. Jogaram na betoneira direitos difusos e politicamente correto e resolveram fazer ‘exemplo’.

  7. Lendo um livro sobre uso de smartphones e redes sociais. O autor, ianque, ressalta que a grande maioria não é viciada em uso de celular. Também que as pesquisas que embasam a tese se referem a dados obtidos no Reino Unido e Ianquelandia. O que aconteceu no Brasil? Generalização e ‘o mundo vai acabar’.

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