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Livros para colorir: modo de usar – por Atílio Alencar

atílioHá duas coisas que me intrigam nesta onda de livros adultos para colorir: a primeira, creio que mais alinhada com o ranço geral, diz respeito ao abandono da leitura como atividade recreativa (como atividade voltada para a construção de conhecimento, acho que o buraco é mais embaixo). A segunda, de viés histórico, é a própria perplexidade causada pelo desaparecimento do leitor como o conhecemos (ou idealizamos, melhor dizendo). É justamente esta relação um tanto abstrata – para não dizer transcendental – com o livro, que acho importante compreender, talvez para desconstruí-la.

Já de começo, preciso me declarar um leitor apaixonado, do tipo que mantém um hábito de leitura acima da média divulgada pelas fontes usuais das pesquisas brasileiras (o que não quer dizer grande coisa, convenhamos). Gosto de garimpar e comprar livros, embora o consumo destes seja, muitas vezes, comprometedor para meu orçamento mensal. Gosto igualmente de ouvir sobre as leituras recentes de amigos, de ler sobre novos e velhos autores, de vasculhar blogs atrás de novidades. Dito isso, a título de estabelecermos um ponto de partida mais ou menos nítido, é necessário que eu diga também que não me parece certo buscar definir um leitor contemporâneo baseado em pressupostos particulares, promovidos arbitrariamente ao patamar de índices totalizantes.

Sinceramente, não acho possível encarar a realidade atual de leitura no Brasil (e no mundo) fazendo as mesmas perguntas que fazíamos há duas décadas. A Internet, que já não pode ser classificada como um fenômeno exatamente novo, bagunçou completamente as nossas velhas convicções e categorias. Num cenário em que a informação circula por múltiplos canais (ok, os oligopólios midiáticos, embora sob novos arranjos, operam com intensidade na rede e abduzem milhões de usuários para os onipresentes Google, Facebook etc), é cada vez mais evidente que a imagem predomina sobre a palavra na superfície deste universo. Se o suporte do texto muda, nada mais lógico supor que a relação – ou seja, a prática da leitura – com o conteúdo mudará também.

Mas não é só isso. Há muito mais tempo que a Internet, a publicidade globalizada, a teledramaturgia, Hollywood, a MTV e a cultura pop (quase) como um todo estimulam outras formas de relação com o conteúdo e a informação, ofertando prazeres mais imediatos por muito menos esforço cognitivo. E que não pareça que eu alimento algum ressentimento com a cultura pop: fui alfabetizado com gibis; aprecio, é claro, a música popular do século XX, e não compactuo com preconceitos contra a estigmatizada “baixa cultura”. Sou cria desse universo; um leitor formado pela combinação de diálogos curtos e figuras coloridas, que só mais tarde se interessou pelos clássicos da literatura.

Ao citar minha própria experiência com a leitura, quero apenas deixar claro que não acredito que nossas particularidades como leitores possam servir de índice para as formas contemporâneas que assume um leitor (ou um não-leitor). Ao me declarar apaixonado por livros, pretendo também evitar a sacralização do objeto-livro e do próprio ato de ler: qualquer pesquisa histórica rápida pode revelar que, ao longo da trajetória das civilizações sobre a Terra, as pessoas capacitadas para manusear a palavra escrita foram sempre uma minoria em suas sociedades. Não por nenhuma aptidão especial ou inspiração divina: é que a escrita e a leitura também estão, como tudo mais neste mundo, condicionadas pelos contextos sociais, e logo, sujeitas aos estímulos e impedimentos de cada época e lugar.

Então, não posso me declarar perplexo com a onda dos tais livros adultos para colorir. O mundo ocidental vem achatando o tempo livre, e o ócio, criativo ou não, perde espaço para atividades mais funcionais, automáticas, complementares à neurose produtiva: é preciso sempre estar fazendo alguma coisa. Nas redes sociais em que nos conectamos até enquanto comemos (às vezes, especialmente enquanto comemos), estamos sempre mantendo uma atividade aparente, conversando ou flertando com alguém, julgando a intimidade pública dos outros, compartilhando textos que não lemos até o fim, nos indignando com a notícia compreendida pela metade ou raivosamente exigindo menos intolerância.

Ler um livro requer um mergulho diferente, uma licença a si mesmo para esquecer da opinião alheia por alguns momentos. É um ato silencioso, individual, hermético – num mundo em que o silêncio é quase uma declaração de desajuste às regras do jogo. Se o outro não sabe o que eu estou pensando, se minha atividade mental não pode ser catalogada para melhor orientar o tipo de produto ou discurso que vão me oferecer, então eu me torno dispensável. Quase uma anomalia imprestável para o consumo durante as longas horas em que me distraio das ofertas.

Se penso em tudo isso, se olho para o mundo em que vivemos, não consigo ficar perplexo com os livros para colorir. São, por certo, mais um efeito da cultura hipster e seu apego tolo ao caricato e ao demodê. Mas são, no fim das contas, o tipo de livro mais coerente para uma sociedade que precisa consumir, ostentar e descartar. E parecem fofos. Tenho certeza que vão vender horrores.

OBSERVAÇÃO DO EDITOR: a imagem que ilustra este artigo é uma reprodução obtida na internet.

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Um Comentário

  1. Gostei muito, achei que este texto resume vários aspectos sobre a leitura (ou os leitores) hoje: o desapego à leitura é muito anterior à febre de livros para colorir; o "tempo" de alguns leitores contemporâneos é outro; a imagem há muito tempo toma espaço para acelerar, facilitar ou substituir o esforço cognitivo. Acrescento que, talvez, a necessidade de buscar formas de "desestressar" que não estejam ligadas tão diretamente às tecnologias, mesmo que não revelem um esforço cognitivo mais enriquecedor como a leitura, evidencie uma necessidade de se buscar formas de abstrair que contestem, de certa forma, o abarrotamento de imagens (completas e autoexplicativas do mundo) e de informações vazias. Nossa mente precisa desse tempo em que nada parece se impor, em que apenas o fluxo dos pensamentos bastem, enquanto as páginas tomam cores. Ou talvez esteja vendo o fenômeno de um ponto de vista otimista demais.

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