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Inocência – por Bianca Zasso

biancaOs tempos de escola talvez sejam uma das fases mais complicadas da vida. Isso porque, além de ler e contar, aprendemos a lidar com o outro, com as diferenças e conhecemos realidades bem diferentes da nossa. É também tempo de perder aquela inocência de que o mundo é belo e as pessoas são sinceras e bondosas. A tentadora e malvada mentira surge em nossas vidas. Sejam inocentes, como fingir estar doente para faltar aula, ou mais sérias, elas estão presentes por toda a parte. Mas e quando uma história falsa sai de uma boca infantil, dessas que todo mundo pensa só dizer a verdade? Trauma talvez seja a resposta mais leve.

A caça, produção dinamarquesa de 2012, tem sua trama centrada numa mentira contada dentro de uma creche. A pequena Klara tem uma paixonite por Lucas, um dos funcionários da escola infantil onde ela estuda. Quando resolve presenteá-lo com um coração de plástico multicolorido, Klara sofre o que podemos chamar de sua primeira decepção amorosa, já que Lucas explica para a menina que não pode aceitar o presente. Como forma de extravasar sua raiva por ter sido “rejeitada”, Klara diz a diretora da escola que Lucas lhe mostrou suas partes íntimas. Sem se valer de mais nenhuma prova ou procurar saber da veracidade da história, a diretora denuncia Lucas e informa os pais dos alunos sobre o caso.

Lucas, que já vivia uma situação complicada por ter perdido a guarda do filho depois de uma separação litigiosa, tem sua realidade colocada de cabeça para baixo. Sem chance para se defender, ele tem que lidar com a desconfiança de uma cidade inteira. O lado mais selvagem do ser humano vem à tona e o que pareciam ser pacatos habitantes tornam-se pessoas que não se contentam em apenas hostilizar Lucas, mas agredi-lo e colocar em risco a vida de seu filho. Klara, por ter apenas cinco anos, não entende a situação que a cerca. Sua mentira pareceu inocente, uma vingança boba. Mas até mesmo a pequena loirinha começa a notar o estrago que fez, já que seu pai era o melhor amigo de Lucas.

Com uma direção de atores firme e cenas potentes, A caça é um dos melhores exemplares sobre o tema, já que não se atém à fazer denúncia ou questionar até onde vai a inocência infantil. O principal objetivo do diretor Thomas Vinterberg é contar a história de um homem comum que sofre as consequências de uma mentira e que de boa-praça torna-se uma pessoa assustada e reservada.

Se tivéssemos que limitar quem é o vilão de A caça, o nome de Klara estaria no topo da lista. Afinal, foi da sua cabecinha criativa que saiu a mentira que mudou o destino de Lucas. Mas para além da imaginação infantil, quem acaba destruindo os valores e os sonhos do protagonista são os adultos da cidade onde ele vive, que não pensam duas vezes para se vingarem. Ninguém corre atrás de provas, ninguém desconfia. Partem para o ataque porque “tudo indica” que Lucas é um pedófilo. Mais selvagem que isso, só se voltássemos a morar em cavernas.

Sem se valer de cenas apelativas ou de tornar o roteiro politicamente correto, Vinterberg consegue com A caça dar um passo adiante em sua carreira. O diretor dinamarquês foi um dos fundadores do movimento Dogma 95, juntamente com o polêmico conterrâneo Lars Von Trier. A ideia era fazer um cinema mais realista e menos comercial, seguindo regras como só usar luz natural durante as filmagens. Essa crueza que prezava o Dogma 95 pode ser sentida lapidada em A caça. Nada no filme tem clima de conto de fadas, mesmo as cenas de romance. Tudo é prático, livre, quase banal. Uma história mais próxima do que é a vida real. E as crianças reais e suas histórias maravilhosas e nada inocentes.

A caça (The hunt)

Direção: Thomas Vinterberg

Ano: 2012

Disponível em DVD e Blu-Ray

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