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Sem novidades no front – por Bianca Zasso

Todo ano é a mesma coisa. Munida de bloco de anotações, canetas e muita água, lá vou eu assistir ao Oscar. Não tenho mais o mesmo nervosismo típico do início da cinefilia, quando a indignação por um prêmio toma conta do resto da semana. Agora, no máximo, solto algumas palavras de protesto e tudo volta ao normal. Mas não é sobre isso que esta coluna vai tratar. Vamos ao que interessa. Senhoras e senhores, com vocês, a 85ª cerimônia de entrega do Oscar:

– Foi uma das entregas mais chatas que já presenciei. O apresentador deste ano, o ator, diretor e roteirista Seth Macfarlane disparou uma quantidade sem fim de piadas de gosto duvidoso e comentários dispensáveis. Confesso que houve momentos em que o tédio tomou conta desta que vos escreve, em especial na primeira meia hora de premiação. Porém, certos detalhes garantiram alguns sorrisos bem sinceros.

– A homenagem aos 50 anos do agente James Bond no cinema, apesar de não contar com a presença dos atores que deram vida à 007, encantou há todos com a talentosa Shirley Bassey interpretando a canção Goldfinger, um clássico absoluto das trilhas de Bond. Não se pode esquecer também da apresentação magnífica da cantora Adele, interpretando Skyfall. Aliás, ela voltou para casa com uma estatueta por sua música única. 007- Operação Skyfall ainda protagonizou um empate, coisa que há um bom tempo não ocorria no Oscar, dividindo o prêmio de melhor edição de som com A hora mais escura, de Kathryn Bigelow.

Amor, filme do diretor Michael Haneke, levou a estatueta de melhor filme estrangeiro com orgulho. Entre os concorrentes, não havia páreo para a linda e sofrida história de dois idosos que precisam lidar com dívidas, doenças e outras faltas. Infelizmente, Emanuelle Riva, a eterna protagonista de Hiroshima, Mon Amour, de Alan Resnais, ficou sem o seu homenzinho dourado. Mais uma vez a Academia demonstrou sua relutância com atrizes estrangeiras. Lembram quando Fernanda Montenegro perdeu o prêmio para Gwyneth Paltrow? Quem levou a melhor na categoria de atriz coadjuvante foi a talentosa Anne Hathaway. Merecido, já que o único momento que vale a pena em Os miseráveis é protagonizado por ela.

– E por falar em Os miseráveis, meu grande medo era que o filme levasse o troféu de melhor figurino. Seria uma injustiça e tanto, já que as roupas, por mais que sigam uma rigorosa reconstituição de época, só colaboram para o visual “sujo moderno” do filme, que não agrada em nada os olhos do público. Porém, a Academia premiou o belíssimo Anna Karenina, do diretor Joe Wright, uma adaptação de Tolstói como há muito não se via no cinema inglês.

– Agora peço licença para declarar a categoria que mais me emocionou. Ver Tarantino segurando a estatueta de melhor roteiro original por Django Livre foi o melhor momento da noite. Isso porque Tarantino é muito celebrado pela nova leva de cinéfilos que, muitas vezes, não sabem do conhecimento que o diretor tem sobre filmes obscuros da história do cinema. Tarantino foi buscar em clássicos do spaghetti western como Uma bala para o general , de Damiano Damiani e Dia da desforra, de Sergio Sollima a luz para criar um dos melhores filmes do ano. Django Livre é um Tarantino maduro, mas sem perder a ternura violenta. Ver a Academia, que sempre fez cara feia para os filmes de Sergio Leone e toda turma que fez spaghetti nas décadas de 60 e 70, premiar uma história que transpira faroeste europeu tem gostinho de vingança. E das boas.

– Seguindo a tradição de que o filme que leva o prêmio de melhor montagem acaba sendo consagrado como melhor produção do ano, Bem Affleck subiu ao palco por conta do seu Argo. Muitos espectadores que se deixaram levar pelo sono devem ter adormecido achando que Lincoln, de Steven Spielberg, ia levar a melhor. Mas o dia amanheceu com um thriller inteligente e bem conduzido carregando a estatueta. Ao contrário do que pode parecer, Argo exalta muito mais o povo americano que Lincoln. Por mais que a produção de Spielberg narre a trajetória de um dos maiores nomes da história americana, é no filme de Affleck que o patriotismo aparece intensamente. E a Academia, como boa patriota, não podia deixar esse detalhe passar em branco.

A batalha do Oscar veio sem novidades no front. Agora é esperar 2014.

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