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O louco com a lanterna – por Márcio Grings

marcio

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O barco está lotado. O mar azul escuro do céu sopra sua vendetta particular contra aquela nau saltitante. Algumas nuvens promovem ondas de cerca de quinze mil metros. “Ride the snake” ou “This is the end, my only friend, the end”. Nada parece o que é. Centenas de loucos viajantes a mercê das profundidades do destino. O barulho dos remos arrebentando o vapor tiquetaqueia como um relógio suíço.

“Alguém precisa segurar a lanterna”, pensa. Abre o pequeno compartilhamento, puxa o Zippo do bolso e acende um pavio encharcado de querosene. Taca fogo na bucha & o lampião pulsa uma chama vermelho-alaranjada. O lume reluz mais forte que a Estrela de Natal. A luz ilumina parte dos rostos, o que revela a total insanidade da tripulação. Olhos esbugalhados de algum barato. Tradução de algo indecifrável. Ninguém está ali, apenas o corpo da massa presencialmente ocupa espaços na embarcação.

Levanta a lanterna um pouco acima da cabeça e tenta enxergar o que ainda não vê. Porém, não visualiza nada além de mais & mais pupilas dilatadas. Fixas no nada. Olha para o lado & se depara com os restos mortais da lua de bourbon, definhando & despencando a oeste do campo de visão. O sol desapareceu faz dias. Talvez o Astro Rei tenha enchido o saco de tanto iluminar a todo esse bando de idiotas que ocupa desastrosamente o planeta. Certamente cansou dessa jogada altruísta de não receber nada em troca.

Esfrega os dedos nos olhos e mantém firme a mão estendida com aquele pequeno farol fustigando a escuridão. Minuto após minuto parece recobrar a sanidade. Apesar da total ausência de branquidões & trilhas reluzentes, a partir da sua ação tudo fica mais claro [pelo menos dentro dele]. O céu se abre aos poucos e como líder inato, ele & os seus avançam com o pequeno bote atulhado de centenas de pobres diabos. Afunda o rosto no capuz, e assim, na espreita, o barqueiro rema universo adentro.

O menos louco – ou o mais louco deles – usa a lanterna como escudo frente à negritude dos fatos. Alguém precisa ter coragem. Algum idiota vai ter que desbancar a previsibilidade daquele sonâmbulo trajeto.

Parece que vai ser o cara da lanterna.

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