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Fim da história – por Orlando Fonseca

Já que está cada vez mais difícil falar em indignação – quanto mais em se indignar -, vou falar ao menos de suspeitar. O sujeito que se indigna – a forma correta do Português culto é elegante, e representa pouco o que se pretende; melhor, nesse caso é a forma oral popular: “indiguina” – coloca-se acima da situação. Em alguns casos, sem muita dificuldade, tal a baixeza do que o provoca. Em outros, faz um esforço de colocar a dignidade humana que lhe resta em um nível superior ao da bestialidade reinante. Já o sujeito que suspeita tem uma atitude precípua da qual não arreda pé: parte das suas convicções alimentadas por anos de experiência como observador. Fica na sua, diante de mais uma lição aprendida, a de que é comum nos dias atuais descer tanto, mas tanto que não é possível enxergar a saída, a luz no final do túnel, ou o fundo do poço. O sujeito que suspeita aprende quando se detém às sutilezas. Sofre porque ao apontá-las aos demais é incapaz de fazê-los ver o que ainda não é evidência, mas que há de se consolidar em breve, para surpresa e espanto geral da galera.

Foi tomando injeção na região glútea, ainda antes dos 7 anos de vida, que aprendi a suspeitar de quem diz “não vai doer nada”. Normalmente quem diz isso tem salvo-conduto para usar ferramentas pontiagudas ou cortantes, ao largo de nosso desespero e a despeito de nossos protestos – especialmente quando ainda somos crianças, sem responsabilidade sobre nossos atos, totalmente dependentes da conivência de nossos pais com tal violência. Aprendi a suspeitar de quem, em um debate com tempo cronometrado, anuncia, no início de sua fala, que vai ser breve, que nem vai usar todos os minutos disponíveis. Esse é justamente o que vai se alongar além do tempo convencionado, e ainda pedir alguns minutos mais. Simples: quem quer ser breve é, especialmente eliminando do discurso palavras dispensáveis, como dizer que vai dizer, ou que fazer o que faz.

Na atualidade, de tanto suspeitar, fui aprendendo as sutilezas por trás do que passa nos noticiários, nas telenovelas, nos comentários esportivos. Aprendi a suspeitar, em termos de política, do sujeito que anuncia querer fazer História. Por si só, esta afirmação é uma falácia descarada, até porque quando um político, um herói pátrio, um esportista faz o que tem de fazer, a História se faz sem que o indivíduo – virtuoso ou cafajeste – possa intervir nela. Ficará o seu ato para os anais ou para o lixo, na mesma proporção. Quando vem um presidente, no alto de sua ilegitimidade – chegado ao poder por um golpe, e não pelos votos na urna eletrônica – e anuncia que pretende deixar seu nome na História, cuidado.

Especialmente, muito cuidado! Não é por outra que o referido já tentou suplantar a Princesa Isabel, revogando nada mais nada menos que a Lei Áurea, aquela que libertou os escravos no Brasil, há 130 anos. O que há de vir nesta ordem e retrocesso histórico? Vai revogar o grito do Ipiranga, para botar o D. Pedro I no chinelo? Talvez não nos entregue a Portugal, mas com a venda das reservas do pré-sal a multinacionais petrolíferas, dá pinta de que nos pretende tornar colônia dos EUA. Daqui a pouco, de tão perdidos que vamos estar, vai dizer que é preciso nos descobrir de novo, e aí vai dar uma de Cabral, engambelando a indiada com umas benessezinhas aqui, outras ali.

Agora, quando um prefeito – este eleito – vem anunciar que encontrou a salvação da raça humana (ao menos aquela em sua porção de abandonados nas ruas de São Paulo e periferia), para o que usará uma ração feita de produtos com data de validade próxima do vencimento, minha suspeita é de que a data de validade da humanidade se aproxima perigosamente do seu limite.

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