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O judiciário e suas palestras – por Giorgio Forgiarini

“Práticas que minam a credibilidade e podem levar a revezes”. Quem perde?

Em 2018 um grupo de estudantes de direito de Santa Maria contatou uma magistrada para ministrar uma palestra na cidade. Frustraram-se. A pedida financeira se mostrou incompatível com a condição econômica daqueles jovens. O desalento surgiu, não da impossibilidade de contar com o prestígio e o conhecimento daquela profissional, mas do duro choque de realidade.

Em sua ingenuidade de neófitos, sabiam aqueles acadêmicos que a possibilidade de o convite ser infrutífero em função de conflitos de agenda seriam grandes. Só não imaginavam que a questão financeira seria o entrave. Para eles, agentes públicos, notadamente aqueles ocupantes de cargos de relevo junto à organização do Estado, responsáveis por decisões que impactam a coletividade, não exigiriam remuneração extraordinária para falar sobre assuntos relativos à função pública que exerciam.

Certos estavam os acadêmicos, pelo menos em tese. Divulgar seus entendimentos e colocá-los ao público para o escrutínio da sociedade civil deveria ser prática inerente ao ofício de magistrados e membros do Ministério Público, ou pelo menos uma forma de prestação pública de contas do trabalho para o qual já são muito bem remunerados.

Porém, a realidade é muito distante dessa. A realização de palestras virou fonte de renda extraordinária para quem já é muito bem remunerado pelos cofres públicos. Segundo levantamento do jornal O Estado de São Paulo, Ministros do STF chegam a cobrar R$ 60 mil por uma palestra de uma hora. Membros do STJ e TST pouco menos do que isso. Deltan Dallagnol, Procurador da moda na década de 2010, chegou a cobrar R$ 33 mil por uma palestra contratada por empresa envolvida em escândalo de corrupção. Ao ser indagado a respeito, bradou que “palestras remuneradas são prática comum no meio jurídico por parte de autoridades públicas e em outras profissões”.

De fato, a realização de palestras não é ilícita a juízes a procuradores, pelo menos de acordo com a criativa interpretação dada pelo CNJ à questão. A Constituição Federal permite que magistrados acumulem sua judicatura com funções de magistério e, segundo aquele órgão de controle do Judiciário, palestras podem ser equiparadas à função de magistério.

Alguns magistrados até constituíram empresas para intermediar as palestras que oferecem, o que é vedado pela legislação aplicável à magistratura, mas… quem se importa?

Pior do que isso: a normatização do CNJ não obriga juízes e magistrados sequer a informar os valores recebidos por suas palestras. Por isso não se tem como saber com precisão quanto ganha cada magistrado por cada evento que participa. A opacidade é total e a fiscalização é quase impossível.

Neste contexto, fica difícil saber com exatidão se o alto valor pago por cada uma dessas palestras se justifica pelo brilhantismo da fala, ou pelo que é conversado ao pé do ouvido nos convescotes e banquetes que invariavelmente fazem parte desses eventos. Não sou capaz de apontar corrupção aí. Mas também não posso afirmar que não há.

Ultimamente o Judiciário tem tido fortes embates com o Congresso Nacional e tem vencido, não tanto por seus méritos próprios, mas mais pela tibieza moral de seu oponente. No entanto, práticas como essa minam a credibilidade da magistratura e podem levar a revezes logo mais adiante. Quem perde é o Judiciário. E nós.

(*) Giorgio Forgiarini é advogado, com curso de Direito pela Universidade Franciscana, é Mestre em Ciências Sociais e Doutor em História pela Universidade Federal de Santa Maria. Ele escreve nas madrugadas de sábado

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4 Comentários

  1. Resumo da opera II. Moral e direito tem uma relação complicada. Parafreseando alguém, não sabemos o que não sabemos sobre BSB. O Sistema é pho#@.

  2. Resumo da opera. De BSB só se fica sabendo 1%. Maior parte são narrativas, boatos, fofocas e versões. Semana que passou foi atipica. Muitas lacunas. Até no caso Trump e lei Magiclic. Obviamente os ‘especialistas’ ‘sabem tudo’.

  3. Teori morreu num acidente de avião que pertencia a um amigo. O suposto ‘amigo do amigo do meu pai’ gosta de utilizar aviões de gente no minimo estranha. GM voltou atras numa decisão aburda e ninguém sabe o motivo. Sigilo no caso do Banco Master. Inunda-se o noticiario com Zambelli e tudo some.

  4. Problema do judiciario não são as palestras. Diferente da Ianquelandia. Por lá a propina entra no diferido. Gestor publico faz um ‘favor’ e depois que vai para o setor privado é contratado a peso de ouro para dar palestras. Obama foi criticado poucos anos atras, não há indicios de corrupção, mas ganhou 400 mil dolares por uma palestra. Para um banco. Por la acusa-se os politicos de usarem informações privilegiadas para se darem bem na Bolsa. Que por lá funciona.

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