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Sobre conhecimento – por Orlando Fonseca

Em tempos de perfil falso nas redes sociais e de fake news no mundo da política, precisamos voltar ao antigo aforismo grego “conhece-te a ti mesmo”. E nesta proposta de retomar o passado, a meu juízo, está a chave para se entender – e enfrentar, como humanos – o futuro. O conhecido provérbio tem uma origem desconhecida, o que não vem ao caso, mas o que se sabe é que se tratava de uma máxima inscrita na entrada do Templo de Apolo, em Delfos. Sabiamente associada à celebração do sol, a fonte da iluminação que dá beleza a tudo. É atribuída a antigos sábios gregos, sendo que Platão se refere à sentença como de uso comum na prática do filósofo Sócrates. A frase completa é “Conhece-te a ti mesmo e conhecerás os deuses e o universo”, podendo significar algo como “vê se te enxerga” (traduzida para o popular, nos dias atuais), ou ainda, uma recomendação para que não se entre de cabeça no senso comum.

O mais importante a se destacar na expressão é a sua relação com o autoconhecimento. O que nos diferencia dos demais seres vivos no planeta é justamente a consciência e a intersubjetividade. Ou seja, pela autoconsciência, obtemos o conhecimento de nosso lugar no mundo, o que nos capacita, entre outros seres com o mesmo dispositivo intelectual, construir o que somos na condição de humanos. Entre elevações e quedas, nos afastamos da barbárie e construímos a civilização, o modo racional de silenciar os instintos e conviver em termos mais elevados do que os animais. Por aí chegamos ao “penso, logo existo”, a razão a serviço do avanço científico para o bem da humanidade, as revoluções industriais e culturais que chegaram aos nossos dias de um mundo conectado pela máquina. Aquela que, inclusive, nos permite criar perfis falsos e disseminar notícias falsas a respeito dos “deuses e do universo”.

Máquina não tem autoconsciência, portanto, não haverá de ter sonhos, esperança, medo, afeto. Grandes computadores podem ser felizes ou tristes? Podem se comover, agir por impulso, ter raiva? Entretanto, há quem acredite que em breve poderão tomar decisões que modificarão as vidas dos seres humanos que, em vez de conhecerem a si mesmos, estão cada vez mais delegando às máquinas a tarefa de administrar o seu cotidiano. Estamos convivendo hoje com uma geração que tem uma fé inabalável na inteligência artificial. E não tem culpa disso, pois já nasceu em um mundo cibernético, e os seus pais colocaram em suas mãos, de imediato, um tablet ou um smartphone.

Uma das grandes crises do mundo atual persiste na capacidade que o ser humano alcançou em sua trajetória de autoconhecimento, desde Sócrates e seus pares, de ensinar aos demais o valor de conhecer a si mesmo. Ouso dizer que todos os professores em sala de aula hoje foram formados no antigo sistema da plataforma impressa, da leitura e da pesquisa individual através do uso da inteligência natural. Dentre as profissões que vão desaparecer nas próximas décadas estaria a do professor? Há máquinas que estão sendo programadas para aprender e assim a ensinar outras máquinas. Mas se não têm consciência de si mesmas, como terão conhecimento sobre o significado do que realizam, e por que realizam, e o que isso tem a ver com os deuses e o universo, ou seja, a realidade do mundo onde nós, os seres humanos, temos de existir? Ou por outra, seriam elas capazes de entender o que precisamos, ou ainda, poderiam sonegar o que precisamos e assim nos submeter? Esta é uma preocupação de fundamento: o que será quando as máquinas nos ensinarem a desconhecermos a nós mesmos. E aí está uma das razões para que a escola e as famílias entendam o papel do ensino humanizado, para retomarmos o sentido de dignidade na nossa existência, que elimine a banalidade da despersonalização – o perfil falso – e retome a ética na política na qual fake news não sustentem o prestígio e o poder de líderes mal intencionados.

OBSERVAÇÃO DO EDITOR: a imagem que ilustra esta crônica é reprodução da internet.

LIVRO QUE ESTOU LENDO

Minha opção por comprar este livro de uma autora italiana e lê-lo deve-se a uma conversa com um dos meus parceiros preferidos para indicações de livros, o professor Escobar Nogueira. Foi através de uma de suas indicações que, anteriormente, havia chegado ao mexicano David Toscana e seu intrigante romance As pontes de Königsberg. Dessa vez, falávamos sobre as discussões sobre “literatura-disso-literatura-daquilo”, como se fosse possível identificar, para além da arte literária, um trabalho peculiar sendo o autor homem, mulher, afrodescendente, homossexual ou o que valha. Para nós, ao menos em tese, uma vez obra, uma vez texto ficcional ou poético, haveria apenas a escrita como testemunha do humano por trás do projeto literário.

Não há dúvida de que há sutilezas de visão de mundo e de estilo, de acordo com a personalidade do autor. Também não se discute a respeito da validade do engajamento, da militância conduzida por representantes de um ou de outro grupo. No entanto, para a arte, isso é irrelevante. Havia lido, há poucos dias, o excelente romance Valsa negra, da brasileira Patrícia Melo, e eu havia comentado com meus amigos que, se não tivesse o nome da autora na capa, pelo fato de não existir indícios de sua “feminilidade” no texto, seria capaz de afirmar que poderia ser a escrita de um autor masculino – e não há mérito ou demérito algum nesta constatação. Algo como a surpresa dos que escutaram Joe Cocker, pela primeira vez, e descobriram depois que não se tratava de um cantor negro.

Foi com isso na mente que entrei ali na Livraria Athena e me deparei com a capa deste A amiga genial e resolvi conferir para tirar a prova dos nove. Não foi o mistério em torno da verdadeira identidade da autora que se esconde por trás do pseudônimo Elena Ferrante o que me moveu. Até porque, segundo investigação de uma universidade italiana, os algoritmos usados para identificar o estilo levaram ao escritor Domenico Starmone. Esse, não por acaso talvez, é o marido de Anita Raja, a qual, segundo investigação de um jornalista enxerido, Claudio Gatti, seria a verdadeira autora das obras escritas por Ferrante. Mas uma coisa posso dizer, sem dúvida: a sensibilidade do olhar que conduz a narrativa é feminina – se é composta por uma mulher ou um homem é irrelevante.

As venturas e desventuras de Elena Greco, desde a infância até a adolescência, em uma pequena comunidade nas imediações de Nápoles, na década de 1950, são conduzidas com um humanismo tocante, em ações instigantes. Sua ligação com a amiga Lina, as controvérsias familiares, as dificuldades pela miséria e a redenção pela educação, as descobertas do amor e do erotismo, tudo conduzem o leitor com interesse. Fiquei curioso em ler as outras obras que compõem esta tetralogia, pois a leitura é prazerosa, o que coloca em segundo plano os fatos a respeito de sua real autora.

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