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Mortos vivos – por Pylla Kroth

Essas notícias fakes que rolam na internet com divulgações mentirosas sobre a morte de alguém hoje em dia já é algo corriqueiro. “Matam” por qualquer motivo. Mas felizmente logo de uma forma ou outra se descobre a não-veracidade.

Há duas décadas, porém, quando esses boatos rolavam de boca em boca,  pra se saber se era verdade ou não, às vezes somente as pessoas se deparando com as vítimas, pois a coisa era mais lenta e complicada.

Um fato interessante que os antigos diziam é que se te “mataram” através de um boato significava vida longa. Há outros que dizem que homens podem matar homens em boatos a hora que bem entendem e não acontece nada.

A questão é que atualmente o boato pode chegar pequeno, em grupos de whatsapp, por ironias. Mas às vezes pode ser traumático para o falso morto. A maioria das vítimas dá até risadas, leva na brincadeira.

Na minha opinião, contar pequenas mentiras não é crime grave, uma vez que não envolva mais ninguém além do próprio mentiroso, mas escrever e espalhar mentiras sobre alguma pessoa, sim. O chamado crime que afeta a honra, a calúnia e difamação, é previsto em lei e resulta até detenção e multa aos protagonistas da falsa noticia. Há que se tomar cuidado, especialmente nas redes sociais, por que quando você curte e compartilha uma notícia que você não tem certeza, é como se estivesse assinando embaixo.

Eu mesmo já fui “morto” por inúmeras vezes e até hoje chego em lugares distantes e me deparo com pessoas perplexas ao me verem e se depararem com o Pylla vivo. Dizem ter recebido a notícia de que eu já teria morrido há muito tempo. E aí é aquela gargalhada e abraços de ambos no reencontro “pós morte” (risos)

A notícia de minha “primeira morte” aconteceu já tem umas boas décadas. Seria daí que me chamam de “lenda”? Há bem pouco tempo, num projeto feito por amigos chamado “Tá na boca do Monte”, que consistia de um vídeo retratando de maneira cômica fatos e personagens do cotidiano santa-mariense, num dos trechos um dos personagens questiona: “cara! O Pylla já morreu?”, e isso reascendeu o papo me rendendo até belos contratos por cidades da região central que até o então não me contatavam mais por pensarem, em decorrência das últimas notícias que tiveram da minha pessoa, que eu não já não estava mais entre os vivos. Neste caso só tive prazer, lucrei e muito.

Acontece que na minha última crônica publicada neste espaço, na semana passada, chamada “Despedida”, devido a um erro crasso de interpretação, a coisa foi um pouco além. Foram recebidas ligações de pessoas bem distantes da nossa aldeia pedindo que respondesse se eu ainda estava vivo ou se seria mais um boato. Num dos casos chamaram até de mentiroso o responsável por este site. (risos) Pois as pessoas entram na internet, nem bem lêem o título de um conteúdo compartilhado, ou a manchete da notícia ou apenas o início da chamada e já tratam de começar a divulgação! E assim o que era apenas “ Despedida, por Pylla Kroth”, foi lido sei lá de que maneira e interpretado como “A despedida de Pylla Kroth”, vejam bem!

Neste último episódio estou aguardando os lucros do falso boato ainda. Em uma mensagem de um amigo distante até me emocionei com o texto carregado de emoção tamanha era minha importância na vida do sujeito! Em todo caso fico feliz em ser tão querido, sou muito grato!

Eu confesso que também já encomendei e “matei” uns amigos meus. Uma destas ocasiões que me recordo com carinho ocorreu logo na virada do século. Morava eu na rua Dr. Pantaleão esquina com a Ângelo Uglione e vizinhava com o “Bar Balalayka” do famoso Farias, como era carinhosamente chamado por todos, vizinho também do “Panacéia Bar” – quem não lembra?

Certa manhã passo na esquina “cedito” e o bar estava fechado. Isso me causou estranheza, e logo comentei com um cliente que também dera com as portas fechadas e que era funcionário da Prefeitura situada outro lado da rua: “Uai! Fechado essas horas?”, pois o Seu Farias era um sujeito que podia faltar em qualquer situação, menos no horário de abrir o bar! Foi aí que me veio a maldade na cabeça, pois o Farias andava muito ranzinza ultimamente, fechando antes do horário e nos enxotando do bar mais cedo que o costume. Pensei em investir e pregar uma peça no velho. Voltei para casa e sentei-me diante do meu computador recém- adquirido, com impressora, o que era um luxo para poucos nesta época, o início ainda tímido da ascensão da era da informática por aqui, e eu havia adquirido, por razões de trabalho, aquele aparato todo em um consórcio de 48 meses! Entrei em um programa de texto e compus o seguinte cartaz: “LUTO – Fechado. Motivo: MORTE DO PROPRIETÁRIO”. Imprimi uma cópia e colei na porta do bar sem que ninguém visse. Minha Nossa Senhora! A notícia correu pelos arredores como um relâmpago. Logo, logo me fiz de desinformado e me aproximei do bar, pois ali já estava agrupada uma dúzia de pessoas da vizinhança, com cara de desconsolados, já consternados pela morte do Farias, uns até emocionados. Pois… para encurtar o relato aquilo não acabou bem não!  Não tardou muito e apareceu o Farias, que na verdade apenas tivera um contratempo que lhe impedira de vir abrir o estabelecimento no horário costumeiro, desembarcou de seu Escort vermelho e contam que o primeiro que lhe avistou até chorou abraçado no dito falecido. Não demorou muito pro Farias suspeitar quem era o autor da façanha.  Resultou que fiquei um ano sem poder entrar no bar, quando tentei a primeira vez ele pegou um facão que guardava embaixo do balcão e correu atrás de mim até a porta da minha casa enfurecido.  Apenas depois de passarem dois anos é que “fizemos as pazes”, como dizem. Antes de sua morte real, ainda lhe visitei no hospital e lhe desejei boa recuperação, mas não fui ouvido pelo “velhinho lá de cima”. Em seu velório até me questionei se não se tratava de uma represália de Deus ao meu pecado de ter “matado” o velho antes de sua hora.

O castigo do homem quase sempre é leve, mas dizem que o de Deus é mais pesado.  Eu não acredito, mas por via de fatos, John Lennon morreu depois que disse que era mais famoso que Cristo, Tancredo Neves também dizem que foi castigado pela lei divina após ter dito que nem Deus o tiraria da Presidência. Brizola disse que aceitaria até a ajuda do demônio pra se eleger e não apareceu nem em terceiro na disputa. Cazuza com seu “cigarrinho do capeta” não obteve sucesso quando em um show no Rio deu uma tragada e soltou a fumaça pra cima e disse “Deus, essa é pra você!”, e outra muito famosa na história é a do construtor do Titanic que afirmara categoricamente que nem Deus afundaria seu navio, permitindo que pichassem na proa do mesmo a frase “nem Deus, nem o Papa”, e, bem… sabemos o que aconteceu. Portanto fica aqui a dica do cronista escriba: a matança está liberada, mas nunca esqueçamos de antes olhar pra cima e avisar o velhinho de cima que não passa de uma brincadeira de mau gosto. Do contrário poderá nos custar caro.

A propósito, segundo noticiado por um órgão de imprensa local, o Pylla – reza lenda que ainda vive! – “vai mostrar a trajetória musical de 35 anos de Rock em um show na cidade dia 25 de novembro”, porém não é bem isso:  trata-se de uma homenagem que irei receber de vários músicos da minha querida Santa Maria, os quais irão interpretar releituras de músicas que cantei desde os tempos da saudosa Fuga até as canções de meu último trabalho solo. Tenho todos motivos para estar vivo – e quem vive sem viver? Como sempre digo, depois de morto, tanto faz, homenagens já não têm o mesmo sentido que as recebidas em vida. Fico feliz em poder ver isso tudo. E quando afinal acontecer de eu passar desta para a melhor, o que espero que seja somente daqui a uns 50 anos, o Claudemir vai tratar de noticiar com toda veracidade. Assim espero. Não vão me pregar!!!! Olha!!!! Deus tá vendo!!!!

OBSERVAÇÃO DO EDITOR: a imagem que ilustra esta crônica é uma reprodução da internet.

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