Águas de março – por Orlando Fonseca

São as águas de março fechando o verão – todo Brasileiro que se preze e não precisa estar no tom, consegue lembrar dos versos e da melodia oficial para o início do outono. Pois começo esta crônica de número 200 no site – segundo me informa o editor – com as notas do refrão famoso da nossa MPB, porque, em verdade, creio que só assim para enfrentar a estação que começa, porque um inverno se anuncia mais tenebroso ali na frente. O clima de que falo não está na natureza apenas, mas em nosso íntimo, assim como o delineou o nosso Antonio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim. E o ano de 2021 que mal começou, mal segue em diante e já olhamos esperançosos para o seu final.
Quando o Tom Jobim escreveu esta canção, letra e melodia, em 1972, não poderia ter em mente o que vivemos hoje, sequer poderia imaginar que os eventos daquela época pudessem ensejar o que vivenciamos nos dias atuais. Olha só, no ano anterior, ele foi enquadrado pela Lei de Segurança Nacional – esta mesma, gestada pela ditadura civil militar daqueles tempos difíceis, que é invocada agora para fazer calar os que se manifestam contra o governo federal. Junto com outros artistas, como Chico Buarque e Edu Lobo, assinou um manifesto e se retiraram de um Festival de Música. Isso serviu para instigar os aparelhos de repressão e levá-los para interrogatórios na temida polícia do regime. Hoje a gente pode cantar com as mesmas alegorias: “É o pau, é a pedra”, e eu acrescento, é o fim da picada. A não ser que, em paródia, usemos a polissemia do termo para aplicar uma injeção de ânimo na galera, com a possibilidade da vacina.
Estamos, é bem verdade, “um pouco sozinhos”, efeito colateral do isolamento social. Mas como disse, as águas de março, pela melodia de Tom Jobim nos une, e pudemos ler como tema ou ilustração de muitos artigos, matérias e comentários, como o da poeta Selma Feltrin, numa rede social. Serve de alento, porque se o tempo adverso que inspirou o compositor passou, podemos acalentar a expectativa de que este também vai passar. Tudo bem, assim como aquele tempo de “tombo na ribanceira”, o qual deixou marcas profundas na gente brasileira, este também deixará sequelas não apenas neste país tropical, mas ao redor do planeta – que alguns querem vê-lo plano. E talvez esta seja uma das coisas que pioraram: a ignorância, assim como o negacionismo, a mitificação do medíocre, a banalização do mal.
“É o fundo do poço, é o fim do caminho/ No rosto um desgosto, é um pouco sozinho”. Em dueto com a Elis Regina, este quadro daquela história compartilhada pelos dois é uma obra de arte. E como tal, figura na parede da nossa memória – como cantaria outro bardo – tal qual um quadro que dói mais. Hoje, “o corpo na cama” apresenta os sintomas da Covid, e sobre Brasília e adjacências, o que se ouve “é a lama, é a lama”. A “febre terçã” deu lugar ao tenebroso quadro que explode em números nas estatísticas dos noticiários. Espiamos o mundo nos intervalos do espanto, e a poesia vem nos embalar na magia de suas formas ancestrais. “Hoje, as águas de março fecham o verão no Brasil, principalmente, mas as mortes de março não se fecham, nem cessam. E tudo isso sem nenhuma ‘promessa de vida’ para um sem-número de milhares de corações que se ausentaram, em definitivo, da vida de seus amores e afetos.” Roubei (“arte é furto”, me sopra o Picasso) da poeta Selma Feltrin, que também lembrou, com sua sensibilidade natural, e postou em sua rede social a impressão geral de que “este fim do caminho” supõe, sem “promessa de vida” aparente, a não ser as cultivadas nas filas de vacinação. “É o pau, é a pedra, é a vida, é a morte”, enfim, tudo segue sem novidade debaixo do sol, como nos afirma o sábio Salomão, desde antanho, desde priscas eras. O que não nos consola, mas se nos faz pensar, se nos faz sentir, é porque ainda estamos vivos – ainda que, com Caetano, venhamos a nos perguntar, diante da Cajuína (e não da cloroquina): a que será que se destina?
*Orlando Fonseca é professor titular da UFSM – aposentado, Doutor em Teoria da Literatura e Mestre em Literatura Brasileira. Foi Secretário de Cultura na Prefeitura de Santa Maria e Pró-Reitor de Graduação da UFSM. Escritor, tem vários livros publicados e prêmios literários, entre eles o Adolfo Aizen, da União Brasileira de Escritores, pela novela Da noite para o dia.
Crédito da foto: Pixabay / Divulgação.





Sábio Salomão seria hoje um homicida porque sugeriu cortar uma criança ao meio. Crime é falar alguma coisa, conduta anti-social é culpa da sociedade e/ou tem que ser discutida por décadas na burocracia judiciária até dar em nada.
Resumo da ópera é que confundem um sintoma com a doença. Como não é tratada, outros sintomas virão.
Elis Regina segundo alguns foi um grande cantora, cantava bem é certo, mas críticos(as) gringos com formação na área ao fazerem a critica falam da emoção e muito pouco da técnica (disponível no youtube, óbvio). Cantante que afirmou que tinha ido para o RJ cantar e não fundar um CTG nunca foi conhecida pela humildade, característica que parte da prole herdou.
Aconteceu uma dessensibilização da população. Mais do que óbvio. Como prognosticado as mortes viraram estatística. Na teoria muita coisa está fechada em SP e região Sul, casos continuam aumentando, conclusão é que algo está errado. Uns querem fechar mais, outros defendem que fechar não adianta. Enquanto isto na Florida as restrições são desrespeitadas e em Madrid a policia termina com 480 festas clandestinas.
LSN em vigor, até prova em contrário, é do governo Figueiredo. No inicio da década de 70 era outra. Alás, o AI5 estava em vigor, só caiu no governo Geisel. Alás, havia uma guerrilha maoísta no Araguaia, contexto era completamente diferente, Guerra Fria (que só era fria para as grandes potencias) em pleno curso.
Não dá para esquecer que o mágico que tirou o coelho da cartola ‘trabalha’ no STF. Como o ‘cancelamento’ começou num lado e foi para o outro. Apesar de alguns acharem que só eles têm direito a falar o que bem entenderem por conta de uma superioridade moral auto-atribuída, legislação é para todos. Ou pelo menos era para ser. Pau que dá em Chico tem que dar em Francisco.
Casos mais visíveis são manifestantes com uma faixa (se chamar alguém de alguma coisa é bom ter provas substanciais) e um youtuber. Influenciador digital ganha algo como 300 mil dólares por mês segundo estimativas. Tem coleção de desafetos, já usou a turba que o segue para cancelar e atacar digitalmente outras pessoas. Detalhes não são muito comentados, há uma certa intimidação. O que mostra outro problema. Como tempos atrás pessoal na parte de baixo da pirâmide queria virar jogador de futebol, coisa que persiste de certa forma, agora o sonho é virar influenciador digital e ganhar muita grana supostamente sem muito esforço.
Tom Jobim junto com Sepultura e talvez outros em menor grau são reconhecidos no exterior. Anitistas obviamente não concordarão, mas o marketing utilizado pela ‘cantora’ (esta mais para uma entertainer) é uma mistura de Madonna e Miley Cyrus e, como tal, tem data para acabar.
Tom Jobim, também influenciado por Villa-Lobos, foi um gênio. Chico Buarque, Gil e Caetano estavam no auge mais ou menos na mesma época (entraram em decadência depois e viraram nicho). Depois o rock dos anos 80 e a descida morro abaixo.
Coisa de velho, semana passada filho de um cantor sertanejo compareceu no Panico da Jovem Pam. Falava um português cristalino, lembrando o cristal que caiu do décimo andar de um prédio. Duvido que o vocabulário da criatura tenha muito mais que 100 palavras. Seguido por muita gente, óbvio.