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A esquerda brasileira precisa mudar antes que seja tarde – por Marionaldo Ferreira

Há uma verdade que precisa ser dita, mesmo que desagrade alguns companheiros: parte da esquerda brasileira envelheceu. Não pela idade de seus dirigentes, mas pelas ideias, pelos métodos e pela incapacidade de perceber que o mundo mudou.

Continuamos defendendo igualdade, justiça social, distribuição de renda e um Estado forte para proteger quem mais precisa. Nada disso está em discussão. O problema é que, em muitos momentos, passamos a defender também um Estado lento, burocrático, centralizador e incapaz de responder às necessidades de quem trabalha, empreende e paga impostos.

E isso não é ser progressista. É ser conservador.

O maior patrimônio da esquerda sempre foi acreditar que mudar era possível. Hoje, paradoxalmente, muitas vezes somos nós que resistimos à mudança. Criamos regras, exigências, controles e carimbos que transformam a vida do cidadão em uma verdadeira maratona. Parece que esquecemos que o Estado existe para servir as pessoas, e não para que as pessoas sirvam ao Estado.

Basta olhar para a saúde pública. É aceitável uma pessoa esperar dois ou três anos por uma consulta especializada ou por uma cirurgia? Não. Isso não é falta de humanidade, é falta de governança. E, muitas vezes, também não é falta de dinheiro. Recursos existem. O que falta é gestão, integração, descentralização, tecnologia e coragem para romper com modelos que já não funcionam.

O mesmo vale para quem decide abrir um pequeno negócio. O cidadão quer trabalhar, gerar renda, contratar pessoas e movimentar a economia. Em troca, recebe uma avalanche de burocracia, taxas, licenças e exigências que atrasam, desanimam e, muitas vezes, inviabilizam seus sonhos. Um Estado criado para promover desenvolvimento acaba se transformando em um obstáculo ao desenvolvimento.

Precisamos compreender que eficiência não é uma bandeira da direita. Boa gestão não tem ideologia. Governança não é privatização. Desburocratizar não significa retirar direitos. Ao contrário, significa garantir que os direitos cheguem às pessoas com rapidez, qualidade e respeito.

Ser de esquerda é colocar o ser humano no centro de todas as decisões. É aliviar o sofrimento de quem depende do SUS. É facilitar a vida de quem quer empreender. É garantir que um agricultor, um trabalhador, um estudante ou um aposentado não percam dias enfrentando filas e repartições para resolver problemas que poderiam ser solucionados em poucos minutos.

Está na hora de substituir a cultura do processo pela cultura do resultado.

A esquerda nasceu para transformar. Não para administrar a lentidão. Não para proteger estruturas envelhecidas. Não para justificar a ineficiência.

O mundo mudou. A sociedade mudou. As pessoas mudaram. Quem não mudar ficará falando sozinho.

A esquerda do futuro será profundamente humanista ou perderá sua razão de existir. Será capaz de descentralizar decisões, confiar mais nos municípios, investir em inovação, simplificar procedimentos e medir seu sucesso pela felicidade e pela qualidade de vida das pessoas, e não pelo tamanho da máquina pública.

Governança é isso: fazer o Estado funcionar para quem mais precisa dele.

Chegou a hora de recuperar a ousadia de transformar. Menos burocracia, mais soluções. Menos discursos, mais resultados. Menos Estado para complicar e mais Estado para cuidar.

Porque ser de esquerda nunca foi defender papéis, repartições ou carimbos.

Ser de esquerda é, acima de tudo, defender pessoas.

(*) Marionaldo Ferreira é especialista em governança pública, mentor de líderes e consultor em gestão e captação de recursos para municípios. Atua na formação de servidores e agentes públicos e é autor do livro Governança Pública e Suas Possibilidades.

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