Coluna

A pele que habitamos – por Bianca Zasso

Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é. Na poesia parece fácil, mas a sociedade cheia de defeitos em que vivemos vive insistindo para que nos encaixemos em determinados padrões. Não apenas as pessoas, mas os filmes também. E se não cabemos em caixinhas com rótulos, porque o cinema caberia? Algumas obras são capazes de falar de tantas coisas e tocar por meio da arte em tantas feridas que não conseguimos defini-las dentro de um gênero. Peles, primeiro longa-metragem do diretor espanhol Eduardo Casanova é desses exemplares que não possuem regras e, por isso mesmo, sua forma não permite encaixes perfeitos.

Seguindo o estilo visual kitsch, que já havia chamado a atenção da crítica em seus ótimos curtas-metragens como Fumando espero e La hora del baño, Peles reúne histórias de vários personagens que têm em comum o fato de terem alguma deformidade física. Já na escolha da temática o fantástico se faz presente, pois há uma mistura de situações reais com criações vindas da criativa mente de Casanova. A ótima atriz Macarena Gómez, uma das atrizes-fetiche do diretor, interpreta Laura, uma mulher que nasceu com uma pele sobre os olhos e trabalha como prostituta em um bordel que tem como “diferencial” oferecer homens e mulheres com algum problema físico. O choque fica por conta de Laura ser mostrada no início do filme como uma menina de 11 anos e já “funcionária” do estabelecimento. Casanova não está preocupado em causar desconforto em seu espectador. E é por isso que merece ser visto e discutido.

Diferente do clássico Freaks, de Tod Browning, onde pessoas com nanismo ou que não possuem algum membro eram colocadas como atrações de um circo, Peles traz estes personagens para o cotidiano, vivendo suas vidas como qualquer outra pessoa. Não há uma preocupação em explorar situações que inspirem piedade. Samantha, interpretada por Ana Polvorosa, outra colaboradora constante de Casanova, possui um ânus no lugar da boca e tenta ser uma adolescente como outra qualquer. Se realizar algumas coisas comuns do dia-a-dia geram situações estranhas, o diretor traz humor para estes momentos. Mas é um riso nervoso e ele sabe disso. Somos convocados a pensar sobre algumas piadas que ouvimos todos os dias e que sabemos que não deveríamos achar graça. O insólito nos diverte, mas por trás dele existe alguém que sente como nós. Casanova os colocou em um filme e elevou na décima potência para nos tirar o sono.

Inteiramente em tons de rosa e lavanda e com uma trilha sonora composta por canções bregas espanholas, Peles cria um mundo próprio para suas pequenas histórias, mundos que contém elementos presentes na dita vida real, mas que são mostrado com ares de fantasia. Seria uma forma de amenizar as coisas? Creio que é o contrário. Diante de um cenário lírico tudo se torna mais intenso. Ana, vivida por Candela Peña, entra em crise ao perceber que seu namorado está com ela por sua aparência e não por quem ela realmente é. Seu rosto possui deformações e ela parece não se importar com isso. Mas vamos descobrindo que ela também tem as suas grades. Num dos momentos mais tocantes de Peles, ela escreve sobre a liberdade de andar na rua sem medo dos olhares alheios. Não é de cirurgia plástica que ela precisa, mas de autoconfiança.

Sereias, pedófilos, desejos insólitos, exploração e descobertas. Peles tem tudo isso de um jeito único e merecia uma atenção melhor do público e da crítica. Por encontrar-se disponível em uma plataforma de streaming atualmente, talvez o boca a boca faça o seu trabalho. Sabemos que as imagens de divulgação podem não serem as mais atraentes para olhos acostumados ao simétrico e ao comum, mas fica a sugestão: assista Peles e se reconheça. Talvez não seja o melhor ângulo, mas é seu e não se pode fugir disso.

Peles (Pieles)
Ano: 2017
Diretor: Eduardo Casanova
Disponível na plataforma Netflix

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