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Elaine Sanceau e as mulheres que estiveram nas naus de Vasco da Gama – por Elen Biguelini

Ao longo de grande parte da história, a participação feminina nos acontecimentos ficou excluída. Se não fossem rainhas ou amantes, elas eram inexistentes para a historiografia.

A história das mulheres veio a encontrar muitos nomes perdidos de senhoras que tiveram uma participação relevante na história de diversos países.

Esta área da História é recente, tem cerca de quarenta anos. Começada majoritariamente por mulheres que entraram nas faculdades de história e percebiam esta lacuna, este novo campo historiográfico é hoje muito importante, por demonstrar pontos de vista que eram até então ignorados como um todo.

Elaine Sanceau é um exemplo destas mulheres que iniciaram sua carreira acadêmica e sentiram esta falta. Nascida em Croydon, Inglaterra, 1896, morou na Suíça a partir de seus 12 anos e entre 1916 e 1918 no Brasil. Em 1930 mudou para Portugal, onde faleceu em 1978.

Sua estada em terras lusas lhe conferiu um grande interesse pela história daquele país. Foi então que dedicou suas pesquisas aos nomes femininos que encontram-se presentes nas navegações portuguesas. Em sua obra Mulheres Portuguesas no Ultramar, publicada postumamente em 1979, a historiadora fez uma descrição no feminino de um povo português corajoso.

Sanceau escreveu a história de mulheres portuguesas, brancas e católicas, boas esposas que acompanhavam seus maridos de forma exemplar e, assim, mantinham sua posição social em regiões longínquas apesar da guerra, da distância do esposo ou da necessidade.

Ela apresenta alguns nomes interessantes, que ao serem conhecidos podem modificar a forma como a feminilidade é vista como passiva na história.

A viagem não era considerada um local próprio para o sexo feminino, sendo que na primeira década da expansão não lhes era permitida passagem. Àquelas que eram descobertas poderiam ser punidas com açoites, o que não as impedia de desejarem viajar e até mesmo de fazer a travessia.

Iria Pereira, que pode ter sido a primeira portuguesa a desembarcar na Índia, foi levada como clandestina por seu amante em 1505. Esta mulher foi mãe solo de Diogo Botelho Pereira, piloto de Vasco da Gama.

Isto não impediu, no entanto, que o viajante não fosse a favor da presença feminina em suas naus. As circunstâncias, apesar disso, obrigou-o a carregá-las. Não levou mulheres em sua primeira viagem em 1497. Mas quando partiu pela segunda vez, em 1502, se viu arrebatado por acontecimentos imprevistos: Muçulmanas de Quiloa (atual Tanzania) fugiram de sua casa para suas naus e foram bem recebidas pelos marinheiros.

Vasco da Gama tentou impedir que elas viajassem, tratando com os locais sua estada no local, mas as quarenta senhoras partiram na nau S. Jerônimo em direção à Índia.
Na viagem seguinte, em 1524, Vasco da Gama encontrou mulheres clandestinas nas embarcações que comandava. As puniu firmemente: as três jovens solteiras foram açoitadas em Goa, ainda que contra os desejos de frades e fidalgos que as defenderam. Quando morreu, Vasco da Gama sentiu remorso pela forma como as havia punido e deixou a cada uma delas cem mil réis.

Lembramos que as naus utilizadas nas navegações modernas não eram construídas com o objetivo de carregar mulheres. O conforto era inexistente. Quando faziam a travessia não lhes era permitido muito espaço e eram confinadas a locais fechados, sendo proibidas de andar pelas naus com o objetivo de as proteger dos muitos homens que ali trabalhavam.

A viagem era tediosa e cansativa e, segundo a autora portuguesa Fina D. Armada, não poderiam nem mesmo carregar livros consigo, pois os padres que acompanhavam a viagem podiam lhes retirar (ARMADA, 216).

Quando era a esposa de um fidalgo a acompanhar a viagem, o luxo esperado era mantido em parte, mas ainda assim, a vida não era fácil – ainda que estas tivessem levado consigo suas escravas e criadas. Órfãs eram também encaminhadas para as colônias portuguesas, visto que era objetivo do Império português casar seus homens com mulheres brancas.

Assim, algumas também fizeram esta viagem, sendo que até mesmo alguns casamentos foram celebrados em alto mar. A Nau S. Vicente teve dois casamentos em 1562. E algumas mulheres partiam grávidas, sendo que uma delas chegou a dar à luz junto ao Cabo da Boa Esperança.

A obra de Elaine Sanceau traz ainda muitas outras figuras interessantes que marcam a história das navegações; senhoras que defenderam cidades sitiadas, fidalgas que comandaram governos enquanto seus maridos viajavam e uma rainha africana que deixava os portugueses com medo (a rainha Nzinga), por exemplo.

As descobertas desta estrangeira, que tanto se interessou pela história das mulheres portuguesas quando este ramo da historiografia ainda era principiante, demonstrou um papel importante das mulheres na sociedade daquele império.

Os nomes por ela descobertos e estudados demonstram que as mulheres figuram, sim, na história daquele país (e do mundo) e que com um pouco mais de tempo, podem ser encontrados muitos momentos no qual as mulheres (das mais diferentes raças, cores, religiões e credos) foram fortes e presentes em acontecimentos importantes.

Deixo aqui um gostinho de quero mais, pois a obra desta autora é muito interessante, e são muitos os nomes de mulheres inovadoras, lutadoras, guerreiras e marcantes da história, que pretendemos trazer em ocasiões futuras.

Fontes e bibliografia:
Alves, Luisa. A mulher na obra de Elaine Sanceau. in. O rosto feminino da expansão portuguesa. Congresso Internacional realizado em Lisboa, Portugal, 21-25 de Novembro de 1994: actas. vol2. 223-233.
Armada, Fina D. As mulheres nas naus da Índia (séc. XVI). in. O rosto feminino da expansão portuguesa. Congresso Internacional realizado em Lisboa, Portugal, 21-25 de Novembro de 1994: actas. vol1. 197-230.
Sanceau, Elaine. Mulheres Portuguesas no Ultramar. Editora Livraria Civilização. Porto. 1979.

*Elen Biguelini é Doutora em História (Universidade de Coimbra, 2017) e Mestre em Estudos Feministas (Universidade de Coimbra, 2012), tendo como foco a pesquisa na história das mulheres e da autoria feminina durante o século XIX. Ela escreve semanalmente aos domingos, no site.

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