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Do Uber à Universidade – por Amarildo Luiz Trevisan

“Quem indica vale mais do que quem estuda”, disse o motorista. E então...

Outro dia chamei um carro por aplicativo para ir à universidade aqui em Natal. Como costuma acontecer nessas viagens, a conversa surgiu naturalmente. O motorista, um senhor de 57 anos, contou que tinha três filhas. Duas haviam concluído o ensino superior e a mais nova ainda estava decidindo o que fazer da vida.

Ao ouvir isso, imaginei que viria algum comentário sobre a importância da formação universitária. Mas fui surpreendido.

Ele disse que já não acreditava tanto assim no diploma. Explicou que as duas filhas formadas estavam trabalhando em empregos muito aquém das expectativas que haviam criado durante os anos de estudo. Em seguida, resumiu sua percepção da realidade local em uma frase que parecia carregada de experiência:

– Aqui em Natal, vale mais a lei do QI, do que o QE – sentenciou ele. Perguntei o que ele queria dizer: “Quem indica vale mais do que quem estuda” – me respondeu. E ilustrou a sua tese com exemplos de cargos políticos locais onde o apadrinhamento asfixia a competência.

Identifiquei-me como professor e pedi licença para discordar, ainda que timidamente. Argumentei que a universidade ultrapassa a mera preparação para o mercado de trabalho. Estudamos para exercer a cidadania, humanizar o olhar, cultivar a urbanidade e moldar valores. O senhor ouviu-me, mas contrapôs com a sua vivência em São Paulo, terra onde morou antes de se reformar. Segundo ele, na metrópole paulista o diploma ainda guardava um peso real, sobrepondo-se às relações de cumplicidades e amarras políticas tão comuns na nossa região.

Foi quando ele mencionou a palavra “relações” que a discussão ganhou profundidade. Percebi que as nossas visões, na verdade, não eram contraditórias. Expliquei-lhe que costumo dar um conselho aos meus alunos: na sala de aula, não olhem apenas para a frente, para o quadro-verde ou branco; olhem também para os lados, para os colegas.

O conhecimento continua sendo indispensável, mas ninguém constrói uma trajetória sozinho. A vida profissional é feita também de encontros, parcerias, confiança e colaboração. Por isso é importante não apenas passar de semestre ou de ano, mas também viver a universidade.

Antes que pudéssemos fechar o raciocínio, a realidade econômica bateu à porta. O motorista desabafou sobre a inflação, o custo de vida sufocante e a subida de preços nos supermercados.

– Sorte a minha ser dono da própria casa. Se dependesse de pagar aluguel com o que tiro daqui, já estava falido – desabafou.

Para não soar falsamente moralista perante as dificuldades concretas daquele homem, cedi. Dei-lhe razão. O modelo tradicional de ensino, focado na memorização já faliu perante o mundo hiperconectado. Hoje, o mercado exige aquilo que o jargão corporativo chama de networking.  Prefiro traduzir o termo por sensibilidade social.

Além de estudar com obstinação, o jovem precisa de aprender a construir pontes, cultivar afetos e estabelecer uma rede de contatos sólida. Criar laços legítimos também é uma forma de competência; afinal, ninguém cresce sozinho.

O destino final surgiu no horizonte e a viagem terminou, mas a reflexão persistiu. O fenômeno da uberização da economia não é apenas um modelo de trabalho, é um sintoma dos nossos tempos. Ficou claro que a formação técnico-profissional precisa de uma urgente metamorfose. Não podemos continuar presos aos mesmos paradigmas, formando indivíduos apenas para ocupar vagas mecânicas em uma engrenagem que muitas vezes os descarta logo adiante. É importante aprender a conhecer, aprender a ser, mas também aprender a conviver e a se relacionar.

O mundo mudou. A educação também está mudando. A questão é saber se a velocidade dessas transformações acompanha aquilo que a sociedade espera e necessita: formar pessoas capazes de compreender as mudanças do mundo, criar vínculos, exercer solidariedade e participar criticamente da vida coletiva. Na verdade, me pergunto se estamos construindo uma sociedade em que a educação continua sendo um caminho de emancipação ou uma sociedade em que o diploma, sozinho, já não basta para garantir reconhecimento e oportunidades?

Talvez a maior lição daquela viagem tenha sido justamente esta: entre o Uber e a universidade existe uma extensão muito pequena no mapa da cidade. Trata-se apenas de um trajeto urbano comum, percorrido em poucos minutos. Mas uma enorme distância entre os caminhos que estamos construindo para o futuro da sociedade.

(*) Amarildo Luiz Trevisan é licenciado em Filosofia, mestre em Filosofia (UFSM), doutor em Educação (UFRGS) e pós-doutor em Humanidades pela Universidade Carlos III de Madri. Tem formação teológica pela Diocese de Goiás. É Professor Titular aposentado da UFSM e atua como Professor Visitante no Programa de Pós-Graduação em Educação da UFRN. Publicou diversos trabalhos, entre eles o livro Terapia de Atlas: Filosofia da educação no contemporâneo (EDUCS, 2020). Ele escreve no site aos sábados.

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9 Comentários

  1. ‘Além de estudar com obstinação, o jovem precisa de aprender a construir pontes, cultivar afetos e estabelecer uma rede de contatos sólida.’ Pollyana vive num mundo onde não existe competição.

  2. ‘Hoje, o mercado exige aquilo que o jargão corporativo chama de networking.’ Importante de gerente para cima. Peão com diploma universitario é peão igual aos outros.

  3. ‘O motorista desabafou sobre a inflação, o custo de vida sufocante e a subida de preços nos supermercados.’ Já comentado aqui. Quem faz supermercado nota. Sem falar na reduflação.

  4. ‘Segundo ele, na metrópole paulista o diploma ainda guardava um peso real, sobrepondo-se às relações de cumplicidades e amarras políticas tão comuns na nossa região.’ Cidade maior. Igual a Natal, ele não tinha acesso, só isto. Cidades até 150 mil habitantes são controladas por meia duzia de familias. Maiores o controle afrouxa. Vide Patotinhas, vivem numa bolha porque existe uma transição. Mudou e não deram por conta.

  5. ‘ Argumentei que a universidade ultrapassa a mera preparação para o mercado de trabalho. Estudamos para exercer a cidadania, humanizar o olhar, cultivar a urbanidade e moldar valores.’ Visão de servidor publico professor de humanas. O resto tem que batalhar para pagar boletos. Se Platão filosofava era porque fazia parte da aristocracia, recebeu herança e tinha escravos para trabalhar por ele.

  6. ‘E ilustrou a sua tese com exemplos de cargos políticos locais onde o apadrinhamento asfixia a competência.’ Cargos publicos.

  7. ‘Explicou que as duas filhas formadas estavam trabalhando em empregos muito aquém das expectativas que haviam criado durante os anos de estudo.’ Porque as universidades formam para um mercado de trabalho que não existe mais.

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