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Parece coisa do destino – por Amarildo Luiz Trevisan

Nem sempre é certeza. “Às vezes, chega tímido, espreita pelos cantos da vida”

A vida, às vezes, nos acena com um sorriso, como quem já sabe de algo que só mais adiante entenderemos. E então, alguém diz: “parece coisa do destino”. Dito assim, com aquela cadência de quem sabe que há fios invisíveis nos puxando para algum lugar. Mas o que é, afinal, esse tal destino?

Não sei se foi o calor, o vento ou a luz inclinada de fim de tarde, mas ao descer do avião em Natal senti que algo antigo me esperava ali. Talvez tenha sido só a brisa úmida soprando do mar, talvez tenha sido a “moira”, como diriam os gregos. A porção que cabe a cada um nesta vida.

Chegar a Natal depois da aposentadoria da UFSM foi como reencontrar um caminho que já me era íntimo, embora nunca antes tivesse sido morada. Eu já tinha me aposentado da UFSM em 2023 quando surgiu a primeira oportunidade de vir para a UFRN em Natal. Mas aí o destino se atravessou e fui trabalhar na ULBRA de Canoas. Ou seja, já tinha recusado uma primeira oferta da UFRN, ao participar de um edital, preferindo a proximidade afetiva de casa em Canoas, com a família, os amigos, os bichos. Parecia mais prudente, mais necessário. Mas aí veio a ananke ἀνάγκη — a necessidade. A ULBRA reformulou seus rumos, fechou seus programas de pós-graduação e, sem alternativas, aderimos a um Plano de Desligamento Voluntário (PDV). Ironia fina: o voluntário vem quando não se tem outra escolha.

Nesse ponto, o que chamamos de destino começa a revelar sua complexidade. Ele não é apenas aquilo que nos acontece, mas também aquilo que escolhemos diante do que nos acontece. Quando vi que o edital da UFRN se apresentou novamente, ali, quase igual, senti uma espécie de “chamado”. Não uma imposição, mas um convite. Uma tyche τύχη – sorte, acaso, oportunidade. Quase como se o destino dissesse: “vai, agora é a tua hora”. E eu fui. Cá estou, em Natal, escrevendo estas linhas no compasso doce das ondas, entre uma reunião e outra, entre um pôr do sol na Praia de Tabatinga e uma conversa no café do campus.

Os gregos tinham muitas palavras para esse jogo de forças: moira μοῖρα, a porção que se recebe da vida. Aisa αἶσα, o fado que cabe a cada um. Heimarmene εἱρμαρμένη, o entrelaçamento inevitável das coisas. Pronoia πρόνοια, o cuidado dos deuses. Mas o mais fascinante é perceber que em todas essas formas de destino, há sempre uma brecha para a escolha. Uma chance de dizer “sim” àquilo que nos chama, mesmo sem garantias. Como quem decide não remar contra a corrente, mas se deixar levar por ela porque, no fundo, confia. E quer ser feliz.

Voltar a Natal não foi apenas seguir um caminho traçado por fora. Foi também escutar uma voz por dentro. Aquela que lembra: “você se sentiu bem aqui, lembra?”.  Em 2011, a cidade já tinha me acolhido calorosamente e de braços abertos na ANPEd, nosso maior evento da área de Educação. Em 2013, outra vez no 7º SEL (Seminário de Educação e Leitura), quando a professora Marli Amarilha me convidou para falar de Filosofia ao final do evento. E agora, em 2025, tudo se alinha como se um roteiro antigo tivesse sido retomado. A cidade foi ficando em mim, como uma lembrança boa que a gente não sabe mais se viveu ou sonhou.

A música de Djavan, Se Acontecer, me ajuda a entender esse sentimento. Ele não fala diretamente de destino, mas fala de amor. E amor, quando nos arrebata, tem a mesma textura do destino: não se explica, apenas se vive. É o reencontro com aquilo que nos atravessa sem pedir licença. Quando canta “Se acontecer, serei seu até o fim! (…) Eu não largo da sua mão! Nem que caia um raio. Eu saio sem você na imaginação”, Djavan joga com a ambiguidade entre o desejo de reencontro e o medo da intensidade que ele carrega. Há ali um convite velado à entrega, mas também o reconhecimento de que certas coisas, quando acontecem, nos desestabilizam.

Nesse jogo de esconder e se deixar ver, está a delicadeza do destino: nem sempre ele se impõe como certeza. Às vezes, chega tímido, espreita pelos cantos da vida, testa nossas resistências. Mas, se estivermos atentos, percebemos que o que parece hesitação é, na verdade, o chamamento mais sincero. O reencontro não é apenas com o outro, mas com aquilo que em nós estava à espera.

Assim é o destino quando se manifesta como tyche – sorte, chance, oportunidade. Ele não força portas, mas acena com gentileza. E cabe a nós aceitar, não fugir, não esconder o olhar. Às vezes, é só isso: permitir-se ser tocado pelo que nos move.

E é por isso que, aqui em Natal, nesse lugar que um dia apenas visitei, sinto que não apenas fui conduzido, mas que aceitei caminhar ao encontro do que me esperava. Porque o destino, como o amor de Djavan, nos testa com disfarces, mas só floresce quando a gente tem coragem de não fingir que não viu.

É por isso que hoje, trabalhando na UFRN, cercado de pessoas generosas, de um ambiente acolhedor e de um sentimento profundo de pertencimento, não penso que fui simplesmente arrastado por uma força cega. Na UFRN, onde todos/as – do/a atendente da portaria a/o diretor/a – falam com gentileza e orgulho do ambiente de trabalho, percebo que mais do que uma oportunidade, foi um chamado. O colega Antônio Soares, que me antecedeu nesta travessia, já dizia: “Essa instituição é diferente.” É uma dessas raras constelações humanas onde trabalho, acolhimento e sentido se entrelaçam. Penso que escolhi, sim. Escolhi acreditar que parecia coisa do destino, mas era também coisa minha. Escolhi abraçar a moira que me coube, com seus ventos e suas brisas. Escolhi caminhar por essa aisa aberta como uma estrada diante do mar.

E isso, no fundo, é talvez o mais bonito: quando o destino deixa de ser uma sentença e se torna uma possibilidade. Quando, entre tantas dobras da vida, escolhemos aquela que tem gosto de mistura de sorte, acaso e… felicidade. Pode parecer coisa do destino. Mas é também coisa da alma, da escuta, do coração que ainda se espanta com a sorte de ter reencontrado o seu lugar no mundo.

(*) Amarildo Luiz Trevisan é licenciado em Filosofia, mestre em Filosofia (UFSM), doutor em Educação (UFRGS) e pós-doutor em Humanidades pela Universidade Carlos III de Madri. Tem formação teológica pela Diocese de Goiás. É Professor Titular aposentado da UFSM e atua como Professor Visitante no Programa de Pós-Graduação em Educação da UFRN. Publicou diversos trabalhos, entre eles o livro Terapia de Atlas: Filosofia da educação no contemporâneo (EDUCS, 2020). Ele escreve no site aos sábados.

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