CRÔNICA. Pylla Kroth pira com o seu supermoderno automóvel. E até responde a robô de estacionamento

CRÔNICA. Pylla Kroth pira com o seu supermoderno automóvel. E até responde a robô de estacionamento

Maleta de ferramentas

Por PYLLA KROTH (*)

CRÔNICA. Pylla Kroth pira com o seu supermoderno automóvel. E até responde a robô de estacionamento - pylla-crônica“Antes de dirigir, tu vais ser obrigado saber de mecânica e como funciona o motor!” Palavras de meu saudoso pai. E assim foi. Aprendi desde cedo e sempre tive dentro do carro em algum lugar uma caixinha de ferramentas para qualquer emergência ou necessidade que surgisse na rua. Junto carregava uma bobina, um jogo de velas e um relé.

Nunca fiquei “empenhado” na estrada quando estava ao meu alcance resolver algum problema mecânico ou elétrico. A não ser quando quebrou o eixo e depois fundiu o motor da “neura”, história que já contei em um texto passado aqui sobre uma Kombi que tinha este nome.

Mas bem, hoje estamos em uma nova era e tenho saudades dos verdadeiros carros. Sim, porque agora andamos em robôs automotivos. Se “der um pau” no sistema, queda de bateria, ou uma simples troca de pneus for necessária na estrada, longe de uma oficina especializada na nossa marca e modelo de carro, estaremos enrascados e melhor é já ir acionando o guincho e a assistência técnica autorizada.

Os motores mais modernos vêm lacrados e não existe a menor possibilidade em tentar “fuçar” em alguma coisa para tentar resolver a parada à moda antiga, pois além de não resolver ainda irá comprometer os direitos assegurados pela garantia, se ainda estiver vigente, por mão-de-obra não especializada nem autorizada ter sido aplicada, e por esse motivo também melhor nem pensar em ir até a oficina mecânica “de beira de estrada” mais próxima.

E mais, vocês sabiam que: o extintor de incêndio não é mais obrigatório? Isso mesmo, uma lei federal liberou geral as construtoras de veículos. Portanto, carro comprado “zero” vem sem extintor. O macaco é ilustrativo, ou seja, se o carro não estiver em um local plano, nem adianta tentar usá-lo, e mesmo assim, o danado “entorta as perninhas”. O pneu estepe vem tão escondido e de tão difícil acesso que pra trocar o danado,o sujeito vai ter de ser um cara de muita habilidade.

Caso contrário, fica a dica: 1. Chame o guincho\assistência até para trocar o pneu furado 2. Se sair fumaça ou labareda, ou sentir cheiro de queimado, salte fora do veiculo, é melhor prevenir que remediar. Chame o guincho\assistência e bombeiros. E isso não é culpa das concessionárias nem das montadoras, não. Faz parte da política administrativa do Brasil, que segundo seu presidente deve servir de exemplo pra países Europeus. Rsrsr.

Hoje você precisa saber, e muito, sobre informática, sistemas, aplicativos e programações relacionadas a um computador de bordo. Por que é isso que seu carro zero é: um sistema informatizado que deve ser programado, atualizado e otimizado para que você possa utilizar-se do que ele tem de melhor para oferecer. E você deve saber utilizar todas suas aplicações, estudá-las, decorá-las, saber para que serve cada uma, o que deve fazer e o que não deve fazer para não correr o risco de apertar algum botão de auto-destruição que você nem sabia que existia, ou então desprogramá-lo de algum jeito que não vai adiantar virar a chave na ignição até quebrar por que não vai conseguir ligá-lo.

Aliás… que chave? Já estão sendo substituídas por cartões e leitores de digitais, logo logo serão uma relíquia do passado. Assim como a caixinha de ferramentas, que se você ainda carrega de teimoso sabe muito bem que só serve para fazer volume nas bagagens. Ou para arrumar  “a rebimboca das parafusetas”, se é que me entendem.

Dias atrás, durante uma viagem, acenderam umas luzes amarelas no painel do meu carro que eu não conseguia entender do que se tratava e comecei me preocupar que pudesse ser um alerta para algo grave, pois parecia indicar problemas no sistema de frenagem. Parei num posto e não conseguia dar jeito de fazer sumir as tais luzes do painel por mais botões que apertasse e ligasse e desligasse.

Minha mulher, que nunca entendeu de mecânica automotiva e nem sequer tem habilitação para ou aprendeu conduzir o “robô”-carro, me sugeriu então o que disse ser o procedimento óbvio da computação quando se trata de uma “bugada” no sistema.

“Vamos desligar por um instante, sair, chavear como se estivesse estacionando, daqui a pouco entramos e religamos, talvez tenha sido uma queda de energia na bateria e o sistema precise se desligar e reiniciar!”. Pimba! Voltamos pra estrada tranqüilos, poucos minutos depois, com tudo certo.

Ocorre que as luzinhas voltaram acender um dia depois, indicando o mesmo e mais outros sistemas “indisponíveis”, sendo que o carro continuava funcionando aparentemente dentro da normalidade. Resolvi levar logo na concessionária para descobrirem o que estava acontecendo.

Para encurtar o relato, ocorre que o sistema “bugou” de vez. Diagnóstico e solução? “Ah, agora só trocando a memória completa do sistema!” O preço? Nem falo. Quase valia mais a pena trocar de carro, se a época não estivesse tão de “vacas magras”, como está no atual cenário econômico do país.

Nesta chamada “evolução da industria automobilística”, o próximo passo ao que tudo indica é eliminar o motorista. Estamos a um passo de entregar nossas vidas nas mão de condutores automáticos. Já existem os carros autônomos e estão se espalhando, já, já serão arroz de festa. É o adeus a boléia vindo à.. cavalo, não, a jato!

Espero não estar mais por aqui, pois brigar com robôs iria me enlouquecer. Embora eu já faça isso com as ligações gravadas para companhias telefônicas, bancos, concessionária de energia elétrica, cartão de crédito… Ontem mesmo fui ao mercado, passei na cancela do estacionamento e uma voz feminina vindo do totem de entrada me falou. “Boa tarde, seja bem vindo e tenha boas compras!”, e eu sem me dar conta respondi com um forte “agradecido!” Acho que já estou locão mesmo.

Definitivamente isso não  é o fim dos tempos e nem de longe o início de uma nova era: já estamos pra lá da metade, pelos meus cálculos. Como dizia a música: “pare o mundo, que eu quero descer!”,e  desconfio que logo, logo é capaz que até isso dê para fazer mesmo. Se der, desembarco no primeiro planetinha habitável livre de tecnologias avançadas para levar uma vida mais sossegada e à moda antiga. Mas levo junto minha maleta de ferramentas, por que o prevenido vale por dois!

(*) PYLLA KROTH é considerado dinossauro do Rock de Santa Maria e um ícone local do gênero no qual está há mais de 35anos, desde a Banda Thanos, que foi a primeira do gênero heavy metal na cidade, no início dos anos 80. O grande marco da carreira de Pylla foi sua atuação como vocalista da Banda Fuga, de 1987 a 1996. Atualmente, sua banda é a Pylla C14. Pylla Kroth escreve às quartas feiras no site.

OBSERVAÇÃO DO EDITOR: A ilustração que você vê aqui é uma reprodução de internet.



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