CRÔNICA. "Só não aprende a ser humano quem tem algum problema de caráter", diz Orlando Fonseca

CRÔNICA. “Só não aprende a ser humano quem tem algum problema de caráter”, diz Orlando Fonseca

CRÔNICA. "Só não aprende a ser humano quem tem algum problema de caráter", diz Orlando Fonseca - Humanismo-divulgaçãoSou mais UFSM

Por ORLANDO FONSECA*

Dentre os fundamentos da instituição universitária, aprimorados ao longo dos séculos, o que mais me agrada é o do humanismo. Embora o ensino superior tenha um rótulo que é o de encaminhar uma profissão ou de produzir pesquisa avançada, é a universidade a que tem tido o equipamento e as ferramentas mais adequados ao ensinamento ético, ou a aplicação ética da educação, fazendo com que a civilização avançasse até nossos dias. Diante de inúmeros sintomas, a impressão que temos hoje é a de voltarmos ao medievo, aos obscuros tempos da irracionalidade, do uso pouco ético da espiritualidade, aliada ao poder. Na semana passada, em nosso quintal, lemos a notícia de um grande empresário atacando a UFSM, sem considerar a importância que esta instituição tem para a cidade. E isso vem na esteira do festival de besteira que assola o Brasil, à semelhança da soberba ignorância que viceja planeta afora.

A história nos fornece informações seguras de que nossa cidade teve dois influxos econômicos que a constituíram. Julgo mesmo que, sem esses dois momentos históricos, não seríamos o que somos. O primeiro veio com a ferrovia, que transformou o centro do Estado em um grande entroncamento, gerando a riqueza e o desenvolvimento na primeira metade do século passado. Os testemunhos desta pujança estão à nossa vista, no espaço que conhecemos como Mancha Ferroviária, no mapa de Santa Maria. O segundo impulso econômico e social acontece na década de sessenta, quando a ferrovia começa a decair no país, diante das mudanças havidas com a adoção do transporte rodoviário. Primeira Universidade Federal criada no interior do país, a UFSM garantiu com seu orçamento muitas vezes maior do que o do município (sendo que mais de 80% formado por salários) o crescimento do comércio e da oferta de serviços em nossa cidade.

Na história do desenvolvimento da educação, no ensino universitário, após a Revolução Francesa, dois modelos se consolidaram: o napoleônico e o humboldtiano. O primeiro, com a finalidade de gerar quadros qualificados para a condução das ações do Estado; o segundo, alemão, com o objetivo de garantir a liberdade da pesquisa. Assim é que se estruturou no Brasil, a concepção da universidade estruturada pelo tripé: ensino – pesquisa – extensão. Mais de 90% da pesquisa de ponta em nosso país é feito nas universidades públicas. Embora a rede de escolas técnicas de ensino superior tenha se expandido nos últimos anos, ainda é a Universidade que a maioria dos egressos do Ensino Médio busca. A falta de um planejamento de longo prazo para a economia faz com que não tenhamos uma absorção dos profissionais diplomados. E agora, na esteira dos modismos importados, o anticientificismo (terraplanismo e outras bobagens), o ataque ao ensino ético e humanista (com a pecha de esquerdismo) enseja afrontas como a que vimos divulgada por este dono de uma grande rede do comércio varejista que chega arrasando (aplaudido pela galera, sequiosa em comprar quinquilharias).

À parte a contribuição para o desenvolvimento econômico da nossa cidade (a UFSM já foi responsável por 25% do PIB local), não tenho dúvida de que é o Ensino Superior a vacina contra a ignorância, que tende a assumir ares de epidemia nacional. Não porque os professores usem uma matriz pedagógica marxista ou gramsciana, mas porque o ensino universitário é humanizante.

No mínimo, ensina o comportamento ético na pesquisa, no uso do conhecimento, no exercício profissional. Tal formação pode vir da família (empiricamente), ou da religião (com os riscos de fundamentalismos), mas a universitária vem através de método e de reflexão. Ou seja, só não aprende a ser humano quem tem algum problema de caráter. Alguém que, mesmo diante de evidências, insiste em usar de sofismas para fundamentar seus argumentos. Em Santa Maria – como no Brasil ou no mundo – precisamos de gente de ação, dentro da legalidade, com vistas ao bem comum e à solidariedade, não aos métodos escusos de enriquecimento, ao lucro imediato e excludente. Mais educação e não menos. Mais ética e menos falácia.

 

*) ORLANDO FONSECA é professor titular da UFSM – aposentado, Doutor em Teoria da Literatura e Mestre em Literatura Brasileira. Foi Secretário de Cultura na Prefeitura de Santa Maria e Pró-Reitor de Graduação da UFSM. Escritor, tem vários livros publicados e prêmios literários, entre eles o Adolfo Aizen, da União Brasileira de Escritores, pela novela Da noite para o dia.

OBSERVAÇÃO: Crédito da foto: Divulgação.



1 comentário

  1. Cerlene Machado

    Como sempre, brilhante Orlando. Ética, moralidade, justiça, liberdade, e democracia. Não ao lucro à custa do incentivo ao ódio, à divisão entre os “de bem e os outros do mal”, da mentira, corrupão e exploração alheia
    Ah! Imagina se fizermos uma chamada aos funcionários, funcionárias, docentes e discentes para comprarem somente em empresário que respeita a UFSM.
    #SouUFSM

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