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ARTIGO. Valdeci Oliveira, o mais recente conflito no Oriente Médio e o que está por trás das ações bélicas

Nada é mais insano do que promover a dizimação de seres humanos

Por VALDECI OLIVEIRA (*)

Seja por curiosidade política, pelos fatos ou por obrigação curricular – cheguei a cursar a faculdade de História na minha juventude -, a geopolítica mundial sempre me interessou. Aprendi que a partir dela podemos observar muitas experiências que cotidianamente somos testemunhas num universo regional ou local. Também aprendi que seus resultados irão ditar os rumos das nossas próprias vidas, queiramos ou não.

Trocam-se os atores, mas o sentido é sempre o mesmo: ações de dominação, disputas por territórios, aumento de mercados ou garantias de consumo levadas a cabo por meio de guerras. Anos atrás, li uma definição para os conflitos bélicos sustentando que estes são sempre elaborados pelos motivo nobres, como liberdade e democracia. Porém, nenhuma das alegações trazia embutida a verdadeira razão, que era roubar.

Para quem acha o verbo roubar “pesado” demais pode utilizar outro: o lucrar. Sei que na tentativa de explicar ou opinar sobre fatos complexos com exemplos pode resultar em reducionismos. Mas o fato concreto é que, analisando-se as últimas 5 ou 6 décadas – um grão de areia em se tratando de um processo histórico – as ações ou intervenções dos países ocidentais sobre o Oriente Médio não foram poucas nem pacíficas. Mas muito lucrativas.

O atual conflito entre os Estados Unidos e o Irã, envolvendo o Iraque como um terceiro ator – e outros mais, como Israel e países europeus, é um exemplo disso. E não estou aqui defendendo as políticas interna e externa iranianas, muito menos a sua teocracia implantada no país a partir de 1979, quando os aiatolás e seu fundamentalismo religioso assumiram o comando do país após derrubarem o Xá Reza Pahlevi.  O Irã é hoje o quarto maior produtor de petróleo do mundo e o segundo maior exportador do produto. Além disso, a estabilização da região depende muito do seu comportamento e posicionamento.

O outro ator nesse palco é o Iraque. O petróleo e a reconstrução da infraestrutura do Kuwait no pós-guerra do início dos anos 1990, quando os Estados Unidos, novamente com o apoio da Inglaterra, atravessaram o mundo para retirar Saddam Hussein (apoiado 10 anos antes pelo então aliado americano a promover uma guerra contra o Irã) do país que invadira, geraram lucros bilionários a empresas estadunidenses, as únicas aceitas nos editais de concorrência abertos após o conflito.

Passados menos de dez anos, o argumento para a invasão norte-americana do Iraque, no início dos anos 2000, foi porque o país possuía armas de destruição em massa, que nunca apareceram. Derrubado e morto Hussein, os EUA e a Grã-Bretanha apoiaram aliados locais, mas sem conseguir de fato dominar o poder real. As estimativas mais acanhadas calculam em 500 mil mortos, três milhões de pessoas obrigadas a sair de suas regiões e centenas de milhares que perderam vida por conta das doenças causadas pela água contaminada. E novamente a “reconstrução” do país foi entregue a diversas empresas norte-americanas. Em 20 anos, os custos financeiros se transformaram em U$ 4 trilhões segundo o Nobel de economia J. Stiglitz.

O que quero dizer é que as coisas não acontecem de forma aleatória e não se trata do bem contra o mal. É preciso que analisemos os interesses por de trás dessas ações. É um assunto complexo, com inúmeros interesses que se entrelaçam e confundem.

Na atual conjuntura, discursos antibelicistas são, até para sua desqualificação, comparados a clichês como “chover no molhado” ou “pregar no deserto”. Mas tenho a plena convicção de que as guerras – apesar dos seus defensores as classificarem como “inevitáveis” – não são o caminho para a resolução de conflitos. Nunca foram, nunca serão. Numa guerra, quem morre são jovens soldados e soldadas, são as populações civis desarmadas, são mulheres, homens, idosos e crianças. Se não perdem a vida, perdem qualquer sinal de dignidade, pois passam a viver em condições absolutamente degradantes, sem escolas, hospitais, estradas, água potável, luz elétrica e sem comida em um país falido e dominado. É sinônimo de destruição, de dor, de famílias arruinadas, sociedades dizimadas, de legião de órfãos e de mutilados.

Sim, a cultura da paz é para mim uma utopia, que carrego comigo onde for. A guerra é o antissonho. É a face mais insana do ser humano, emoldurada pela covardia e vilania em estado bruto.

(*) VALDECI OLIVEIRAque escreve sempre à sextas-feiras, é deputado estadual pelo PT e foi vereador, deputado federal e prefeito de Santa Maria.

OBSERVAÇÃO DO EDITORA imagem que ilustram esse artigo são uma reprodução da internet. Nela estão retratados o presidente dos EUA, Donald Trump, e o do Irã, Hassan Rouhani.

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