ARTIGO. Ricardo Ritzel e os sangrentos confrontos da revolução de 1893, até “com direito” a degolas em SM

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Mais antiga foto da cidade. Rua do Acampamento, 1890. Santa Maria era praticamente assim quando maragatos a invadiram, 4 anos após

1893 – Perseguição, luta e degola na Boca do Monte

Por RICARDO RITZEL (*)

No final de século XIX, a próspera Santa Maria da Boca do Monte já se consolidara como centro comercial da região, havia se tornado rapidamente o mais importante polo ferroviário gaúcho, oferecia serviço de telégrafos e estava localizada exatamente no centro do Estado.

E, por isto mesmo, a cidade foi guarnecida, armada, invadida e disputada. Era ponto vital para dominar militarmente o Rio Grande do Sul. Era local estratégico em caso de qualquer guerra ou revolução.

E revolução todo rio-grandense sabia que viria, desde a Proclamação da República. A transição de poder não havia sido amistosa e muito sangue foi derramado na Boca do Monte até o último maragato se render ou morrer.

Perseguições políticas começaram logo após a queda da Monarquia. Demissões de cargos governamentais aconteceram de roldão e as substituições por nomes fortemente ligados a causa republicana, uma exigência.

Uma verdadeira “caça as bruxas” foi instituída e com uma também consequente radicalização política estabelecida no seio de sua, até então, pacata comunidade.

Nesse contexto, milícias castilhistas foram criadas em todo Estado e incentivadas a perseguir todo e qualquer crítico do positivismo, doutrina política adotada pelos republicanos radicais organizados em torno do advogado e jornalista Julio de Castilhos, já um forte postulante ao poder por estas bandas.

Em Santa Maria não foi diferente, com vários relatos de surras homéricas em opositores do Partido Republicano Rio-Grandense. A maioria abafada pela censura à imprensa local ou pelo “simples e corriqueiro” empastelamento de jornais da oposição.

Porém, um assassinato rompeu este cerco e causou grande repercussão na sociedade santa-mariense. Foi, em agosto de 1890, quando o juiz Felipe Alves de Oliveira foi baleado em plena Rua do Acampamento por um matador de aluguel ,por reprimir judicialmente a milícia positivista do coronel Martin Hoehrer  (ver A Degola do Coronel Hoeher PUBLICADA aqui no dia 15 de março de 2020).

A situação se agrava mais ainda durante o “Governicho” e suas dezesseis trocas do comando máximo do Rio Grande do Sul. Em cada governo que caia, era demitido também todo o funcionalismo empossado pelo então presidente do Estado e assim sucessivamente. Alguns com violência, a maioria com constrangimentos e humilhações de lado a lado.

Em dezembro de 1891, a Câmara santa-mariense não reconhece as ordens do governo federalista e a cidade se declara reduto castilhista. A situação estava tão tensa que uma simples crítica política em qualquer café da cidade era motivo para agressões e pugilato. Foram muitas.

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Transformada em centro militar durante a Revolução de 1893, Santa Maria recebeu a visita quase habitual do senador e general Pinheiro Machado

Em janeiro de 1892, uma comitiva oficial vinda de Porto Alegre, e comandada por Assis Brasil, inaugura politicamente o trecho Santa Maria – Cruz Alta da ferrovia. No mesmo dia, à tardinha, durante um banquete oferecido a comitiva, um aparte a um orador que atacava Julio de Castilhos acaba se tornando um briga generalizada com muitos pratos quebrados, socos, facadas e tiros.

Com a recondução de Julio de Castilhos à presidência estadual, em junho de 1892, a cidade se torna um verdadeiro “ninho de pica-paus”, com forte presença militar para qualquer “eventualidade política”. Foram muitas também.

Uma de grande repercussão, tanto na imprensa como na sociedade, envolveu o delegado José de Souza Vinhas e o farmacêutico João Daudt Filho. Além de perseguir o farmacêutico com constantes “visitas” e inspeções em seu estabelecimento, ameaçava-o com a suspensão de sua licença de trabalho.

Depois que o delegado também passou a ameaçá-lo de morte. Daudt partiu para o exílio na cidade argentina de Santo Tomé. O farmacêutico se tornara opositor ao governo castilhista depois do assassinato de seu cunhado, o juiz Luís Alves de Oliveira.

E serviço é que não faltou para a repreensão castilhista. No dia 30 de outubro de 1892, o mesmo delegado Vinhas prende em um quarto de hotel o capitão reformado Felisberto Pereira Barcelos, com cartas de ligação entre políticos federalistas que revelavam os preparativos para uma iminente revolução.

Como consequência, o dia seguinte foi sangrento em Porto Alegre, com a prisão do irmão do então líder da conspiração estadual, o general federalista Joca Tavares.

Em sua própria casa na Cidade Baixa, Facundo Tavares resiste à bala a ordem policial e só se entrega bastante ferido e depois da morte de dois de seus filhos, quando é amarrado, arrastado e humilhado semi-nu pelas ruas de Porto Alegre.

Explode a revolução!

Em 5 de fevereiro de 1893, Gumersindo Saraiva invade o Estado por Aceguá e dá o inicio oficial ao mais sangrento dos conflitos revolucionários do Rio Grande do Sul. Santa Maria se transforma, então, em uma das mais importantes bases governistas, com grande concentração de tropas, e frequentada habitualmente por nomes como o do senador Pinheiro Machado, general Rodrigues, general Maneco Vargas, coronel Pillar, coronel Bento Porto e coronel Filinto de Paula, entre outros menos famosos.

Em seu livro, “Apontamentos para História da Revolução de 93”, Wenceslau Escobar cita o nome de pelo menos um federalista degolado neste período na cidade: Manuel Alves da Silva, embora acredite em muito mais atrocidades não relatadas devido a censura castilhista.

A suspeita é compartilhada pelo historiador Romeu Beltrão em sua “Cronologia Histórica de Santa Maria e o Extinto Município de São Martinho”.

Mas as vinganças federalistas não estavam sob a censura legalista. Estas foram contadas aos quatro ventos e publicadas em todos os jornais. A primeira delas aconteceu no dia 4 de julho quando foi encontrado, no Passo da Ferreira, o corpo degolado do capitão Belisário Rodrigues Moraes. Dias antes, ele havia se envolvido em uma briga por política em um café da cidade.

Poucos dias depois, outros dois corpos de milicianos castilhistas foram encontrados junto à ponte do Passo do Tigre. Os dois estavam em péssimo estado e degolados.

Em dezembro daquele mesmo ano, os jornais da Boca do Monte relataram a morte de um tenente legalista, à bala, enquanto trabalhava em sua roça no Campestre. O maragato Laurindo Trindade assumiu a autoria dos tiros.

Em janeiro de 1894, um grupo organizado e fortemente armado assalta a cadeia municipal e resgata do cárcere o coronel Martin Hoeher, condenado a 30 anos de prisão pela morte do juiz santa-mariense. O coronel toma o rumo da fronteira e passa a viver livremente no Paraguai.

Todos em Santa Maria acreditam que a fuga foi facilitada, ou proporcionada, por membros do governo de Julio de Castilhos.

A invasão de Santa Maria

No dia 7 de março de 1894, uma coluna federalista com 800 homens comandados por Marcelino Pina d’Albuquerque, vinda de São Sepé, destroça um piquete legalista no Passo do Verde e toma o rumo da Boca do Monte.

A defesa da cidade estava a cargo de um corpo do Exército comandado pelo tenente coronel Tito Escobar e um contingente civil liderado por Ernesto Beck, totalizando 600 guerreiros.

Ao clarear do dia 8, a coluna rebelde atinge o Passo da Cancela e entra em Santa Maria pelo antigo cemitério, vencendo a fraca resistência dos majores Felisbino Beck e Fidêncio de Oliveira, que se retiram para o Passo do Raimundo.

No transcorrer da manhã, o que sobrou dos defensores da cidade retrocede até a estação férrea e para os matos do Itararé, mantendo daí um forte tiroteio com as tropas revolucionárias, já senhoras da cidade.

Exatamente às 14 daquele mesmo dia, as forças rebeldes enviam um “ultimatum” ao comandante legalista santa-mariense: “(…) Encarai de frente a imagem da Pátria angustiada, da República brasileira, e concorrei para completa pacificação do heroico Rio Grande do Sul, está terra de bravos, bafejada sempre pelo sopro vivificante da liberdade. Sede razoável, entregai as armas ao Exército Libertador e praticareis, assim, um ato que o ufanará vossa consciência. Saudações. Ao cidadão Ernesto Beck, comandante da guarnição ou a quem o substitua”.  Assina, comandante Marcelino Pina d’Albuquerque.

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Se tivesse sobrevivido e vencido no Carovi, Gumersindo já havia avisado que iria invadir Santa Maria para destruir o telégrafo e interromper a estrada de ferro

No mesmo instante que termina de ler a carta com o pedido de sua  rendição pelos revolucionários maragatos, Beck surge atrás das trincheiras legalistas e, literalmente, de peito aberto grita para seus inimigos: -“ Perca suas esperanças. Não iremos nos render nunca. Nem depois do último cartucho!”

E uma forte fuzilaria voltou a ser ouvida por toda cidade vinda das cercanias da gare ferroviária. Fuzilaria, tiroteio e muito “gritedo”. Gritos daqueles que sabem que vão matar ou morrer. E assim passou o resto daquele dia e toda a noite, sem alterar um centímetro as posições de maragatos e pica-paus. Sempre abaixo de bala.

Armadilha e degola em São Martinho

Na manhã do dia seguinte, um traiçoeiro ardil e degolas. Uma força de vanguarda legalista liderada por Alfredo Mesquita chega a Vila de São Martinho, troca o lenço branco pelo colorado e bate na porta do fazendeiro Balbino Manoel Francisco de Souza.

Lá, pede que Souza, que também era um conhecido líder federalista da região, intercedesse junto aos rebeldes para evitar mais combates e mortes em Santa Maria.

Acreditando no ardil e caindo na armadilha armada pelos legalistas, Souza aceita a missão e, junto com o cidadão inglês Carlos Alfredo Seymor, parte junto com o suposto piquete maragato em direção a Boca do Monte. Seymor era professor na Estância de Souza e, por amizade, decidiu acompanhá-lo.

Já na estrada que desce a serra, o piquete se revela castilhista, os lenços brancos voltam aos pescoços dos milicianos e os dois amigos são barbaramente torturados e, depois, sumariamente degolados.

Em Santa Maria, durante todo o dia 9, continua o tiroteio e escaramuças entre castilhistas e federalistas sem haver nenhuma mudança nas posições e trincheiras. O mesmo acontece em todo o dia 10 de março.

Na madrugada do dia 11, os maragatos se retiram da cidade em direção ao Passo do Arenal, depois de saquearem a estação férrea, casas comerciais e residências particulares. Eles contabilizavam também três mortos (entre eles um capitão) e 12 feridos.

As forças defensoras da cidade tiveram um soldado morto, seis feridos e 16 feitos prisioneiros pelas forças inimigas. Entre eles, dois oficiais.

Um filho de 14 anos do advogado Sebastião Schleinger foi atingido por uma bala perdida enquanto assistia aos combates em frente ao antigo Banco do Comércio, no Centro da cidade. Foi a única baixa civil do confronto.

Em junho, uma força federalista da coluna do general Dinarte Dorneles, invade São Martinho, permanece por um dia e, como era de costume da guerra de movimentos, deixa a vila no final do dia em direção às Missões. Deixou morto também por degola o major legalista Batista Dorneles.

No dia 10 de agosto de 1894, no Carovi, o general Gumersindo Saraiva é ferido e morto por forças vindas de Santa Maria comandadas pelo Coronel Fabricio Pillar e Bento Porto. Se não tivesse sido atingido pelos tiros que o mataram e vencido a batalha marcada para o dia seguinte, Gumersindo já tinha expressado ao seu Estado-Maior que sua coluna tomaria a direção de Santa Maria e invadido a cidade, cortaria as comunicações e transportes rápidos com Porto Alegre. O objetivo era voltar ao Uruguai com toda tranquilidade possível.

Porém, não foi isto que aconteceu. A morte de Saraiva deixou a revolução praticamente agonizante por mais um ano. Viva, mas fraca e sem nenhuma esperança para os rebeldes.

Quase um ano depois, no dia 24 de junho, pai e filho maragatos com sobrenome Rosa são degolados no Passo do Tigre, na estrada de Boca do Monte à picada de São Martinho. Foram as duas últimas mortes da revolução na região.

No dia 23 de agosto, toda Santa Maria festeja a noticia da pacificação do Estado e uma grande massa desfila pela cidade puxada pelas bandas do 11º Regimento de Cavalaria e do 3º de Infantaria. No outro dia, o armistício é celebrado com bailes, foguetes, discursos e desfiles.

(*) RICARDO RITZEL é jornalista e cineasta. Apaixonado pela história gaúcha é roteirista e diretor do curta-metragem “Gumersindo Saraiva – A última Batalha”. Também é diretor de duas outras obras audiovisuais históricas: “5665 –Destino Phillipson”, e “Bozzano – Tempos de Guerrra”. Ricardo Ritzel escreve neste site aos sábados.

Bibliografia:

– Cronologia Histórica de Santa Maria e o Extinto Município de São Martinho, de Romeu Beltrão, Livraria Palotti, 1958.

– História do Município de Santa Maria, de João Belém, Editora UFSM, 2000.

Nota do Editor. As fotos publicadas aqui são reproduções dos arquivos, de cima para baixo, do arquivo de José Antonio Brenner e dos museus Júlio de Castilhos (Porto Alegre) e de Bagé

 



1 comentário

  1. O Brando

    Em 1891 havia crise econômica, Deodoro da Fonseca fechou o Congresso e decretou estado de sítio. Era época de agitação.
    A estrada que desce de São Martinho é o que chamam hoje de Perau Velho, existe um marco onde ocorreu as degolas. Se lembro bem na estrada que faz a ligação com a BR158 também ocorreu um combate, mas não existe nada marcando o local.
    Santa Maria e região sempre foi um reduto de chimangos. Não tem avenidas com nomes de Borges e Getúlio, ruas com nome de Bozzano de graça. São Martinho deixou de ser município para que o distrito onde nasceu Júlio de Castilhos se tornasse um. ‘Homenagem’ depois da morte.
    Ferrovia ainda estava muito no começo na época desta revolução, se lembro bem o ramal que ligava a Cruz Alta já funcionava, mas a ligação com POA e Uruguaiana ainda não. Alás, a sacanagem já começou nesta época, governos conseguiam financiamento e entregavam para a iniciativa privada, quando estava tudo pronto inventavam desculpas e estatizavam o empreendimento. Uma das desculpas foi o atraso dos trens na época do Borges.
    Muito bom o artigo.

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