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ARTIGO. Leonardo da Rocha Botega, a situação mais que triste da Menina “A” e o que há de pior no Brasil

Quem irá acolher A?

Por LEONARDO DA ROCHA BOTEGA (*)

Não sei quem é A! Nunca a vi! Não sei qual a cor do seu cabelo ou dos olhos. Não sei dos seus gostos. Não sei quem são seus amigos, seu sobrenome ou sua brincadeira preferida. Não sei como é o seu sorriso e nem mesmo o seu nome verdadeiro. Na falta de um, preferi chamá-la apenas de A. A de amor, de afeto, de acolhimento. De tudo aquilo que nesse momento ela mais precisa.

A vida de A já era cheia de dramas. Órfã de mãe, o pai preso, uma vida em um lar que não era aquele idealizado por qualquer criança. Diante da ausência do lar “ideal”, A acabou ficando no lar possível. Porém, o possível nem sempre nos permite construir sonhos, mas muitas vezes pode nos gerar dramas. No caso de A, aprofundar os dramas já existentes e gerar novos dramas.

Aos 6 anos de idade, A começou a ser violentada pelo Tio. Aquele homem, que juntamente com a sua Tia, era a sua fonte de proteção e afeto, transformou o seu pequeno corpo em objeto de seus monstruosos prazeres. Por longos 4 anos, ela resistiu em silêncio. Talvez sem saber ao certo o que aquele homem estaria fazendo, afinal não existe um botão automático que ative em uma criança o entendimento do que é o sexo e a sexualidade. A única coisa certa que sabemos é que o silêncio de A tinha um motivo: o medo.

O medo, essa reação de nosso corpo despertada pelo instinto de sobrevivência, nos deixa em estado de alerta e, muitas vezes, produz a paralisia. Todos nós temos medo. Alguns têm medo da morte, outro da vida. A provavelmente tinha medo dos dois. Não sei qual o teor das ameaças feitas pelo Tio, porém podemos imaginar muito bem o que uma menina de 10 anos, sem pai nem mãe, pode sentir diante da possibilidade de ter mais uma perda: a do lar ou a da própria vida.

O que já era drama se tornou ainda pior. Após se sentir mal, A foi levada ao hospital pela sua tia. Ao perceberem sua barriga estufada, os enfermeiros solicitaram exames que detectaram uma gravidez de 3 meses. Aos 10 anos de idade A, rompeu o silêncio. Relatou aos médicos e a tia os horrores que vinha sofrendo. Segundo uma profissional que a atendeu, a menina “apertava contra o peito um urso de pelúcia e só de tocar no assunto da gestação entrava em profundo sofrimento, gritava, chorava e negava a todo instante, apenas reafirmando não querer”.

Tal relato consta na decisão judicial que autorizou a realização do aborto nos termos da lei que autoriza que esse seja feito em caso de estupro e/ou risco de vida para a mãe. No Brasil, entre 2008 e julho de 2020, foram registrados 32 mil abortos envolvendo garotas de 10 a 14 anos nessa mesma situação, uma média de 6 por dia. Nem todos são publicizados. O caso de A foi.

Não bastasse o drama em si, a publicização do caso de A tornou-se mais um espetáculo da barbárie brasileira. Nas Redes Sociais, espaço que deu voz a muitos imbecis (nas palavras de Umberto Eco), ecoaram as vozes que sempre procuram justificativas para culparem as vítimas pelo estupro. Um deleite odioso com ares do que há de pior em termos de perversidade saiu das redes para as ruas. A monstruosidade ultraconservadora mais uma vez demonstrou não ter limites, pudores e ética. Os dados de A foram vazados e expostos criminosamente por uma “lupem-liderança” do ódio emergente.

Manifestações inquisitoriais foram realizadas em frente ao Hospital onde a menina realizou o procedimento, cerca de 2 mil km longe de sua cidade. A era chamada de assassina! Adjetivada por quem pensa que a imposição moral tem mais valor do que a compaixão.

O drama de A sempre esteve longe de ser uma questão moral, de “ausência” de princípios religiosos ou de predisposição para um ato que alguns consideram desumano (muitos que, na maioria das vezes, só lembram da condição humana do outro quando esta lhes permite reafirmar suas “verdades”). O drama de A trouxe à tona o que há de pior no Brasil: a violência patriarcal, o machismo, a intolerância, a lerdeza das instituições, as falhas da Rede de Proteção às crianças e aos adolescentes e, sobretudo, a triste solidão das crianças vulneráveis.

A violência individual de um monstro expôs a nossa falência coletiva. A subjetividade da vítima ficou em segundo plano diante da tentativa de, mais uma vez, impor um domínio sobre o seu corpo, sobre a sua vida. Por tudo isso, A precisa de afeto, não de julgamento. Precisa redescobrir o mundo que até agora só lhe foi hostil. Precisa sonhar como as outras crianças sonham. Precisa de um futuro de esperança que lhe desvie de um passado de sofrimentos. A precisa ser acolhida. Porém, em meio a tanta barbárie, a pergunta que fica no ar é: quem de fato está disposto a acolher A?

(*) Leonardo da Rocha Botega, que escreve no site às quintas-feiras, é formado em História e mestre em Integração Latino-Americana pela UFSM, Doutor em História pela UFRGS e Professor do Colégio Politécnico da UFSM. É também autor do livro “Quando a independência faz a união: Brasil, Argentina e a Questão Cubana (1959-1964).

Observação do editor: a imagem é uma reprodução do logotipo da campanha ‘Faça Bonito’, de Combate ao Abuso e a exploração sexual de crinaças e adolescents, promovida pelo Ministério Público.

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