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Educador e o profissional do conhecimento – por Marionaldo Ferreira

A superação da crise e responsabilidades da família, da sociedade e do Estado

A figura do professor encontra-se no centro de um debate complexo e multifacetado na sociedade contemporânea. A questão fundamental que se impõe é: qual é, afinal, o seu verdadeiro papel? Seria ele um educador em sentido lato, responsável por toda a formação do indivíduo, ou um profissional especializado, detentor de um conhecimento técnico e pedagógico específico? Esta reflexão torna-se particularmente urgente diante de um fenômeno crescente: a transferência, por parte de muitas famílias, de responsabilidades

formativas primárias para a escola, transformando o professor numa espécie de “educador babá”. Este artigo defende a tese de que a superação desta crise passa, impreterivelmente, pela valorização da docência como uma carreira de Estado, que reconhece o professor como um profissional do conhecimento e lhe assegura uma remuneração condizente com a sua importância estratégica.

O Dilema do “Educador-Babá”: A Terceirização da Educação Familiar é cada vez mais comum observar uma dinâmica em que a escola é vista não como uma parceira da família, mas como uma substituta. Muitas famílias, por diversas razões que vão da falta de tempo à dificuldade em impor limites, delegam à instituição de ensino a tarefa de educar os seus filhos nos aspectos mais básicos do comportamento e da ética.

Esta delegação de responsabilidades cria uma sobrecarga insustentável para os docentes e desvirtua a sua função primordial. O professor vê-se compelido a gerir problemas de disciplina e de comportamento que deveriam ser tratados no seio familiar, restando-lhe menos tempo e energia para aquilo que constitui o cerne da sua profissão: a construção do conhecimento.

Esta situação, em que o professor aceita, por vezes passivamente, o papel de “educador babá”, é prejudicial para todos os envolvidos. O professor sente-se desvalorizado e esgotado, a criança não desenvolve o sentido de responsabilidade e autonomia, e a própria sociedade vê a qualidade do seu sistema de ensino ser comprometida. A conclusão de muitos profissionais é desoladora.

Para resgatar o prestígio e a eficácia da profissão, é crucial reafirmar o professor como um profissional do conhecimento.  Este conhecimento não se resume ao domínio de uma disciplina acadêmica, mas engloba um conjunto de saberes pedagógicos, experienciais e coletivos que são únicos da profissão.

Nesta perspectiva, o professor não é um mero transmissor de informações, nem um substituto dos pais. Ele é um especialista que domina as complexas ferramentas da aprendizagem, capaz de criar ambientes educativos que estimulem a curiosidade, o pensamento crítico e a construção autônoma do saber. A sua função educadora não reside em ensinar boas maneiras – uma responsabilidade primariamente familiar -, mas em formar cidadãos capazes de pensar, questionar e intervir no mundo de forma informada e consciente.

Para isso acontecer, é imperativo que os próprios professores e a sociedade em geral reconheçam e valorizem este corpo de conhecimento específico, libertando o docente da função assistencialista que lhe tem sido imposta.

O reconhecimento do professor como um profissional do conhecimento não pode ser apenas um exercício retórico. Deve materializar-se em políticas públicas concretas, nomeadamente na instituição de uma carreira de Estado para a docência e na garantia de uma remuneração adequada. Uma carreira de Estado oferece a estabilidade, a progressão e a valorização contínua essenciais para atrair e reter os melhores talentos, transformando a docência numa profissão atrativa e de elevado prestígio social.

Infelizmente, a realidade salarial em muitos países, como o Brasil, demonstra uma profunda desvalorização da profissão. Um estudo já apontava em  que “o rendimento do trabalho docente é menor que o de outros profissionais com nível de formação equivalente ou mesmo inferior”. Esta disparidade não só desmotiva os profissionais

atuais, como desencoraja jovens talentosos a ingressarem na carreira, criando um ciclo vicioso de precarização. Investir em salários dignos e numa carreira estruturada não é um custo, mas um

investimento estratégico no futuro. Um professor bem remunerado, respeitado e com condições de trabalho adequadas é um profissional mais motivado, mais dedicado à sua formação contínua e, consequentemente, mais eficaz na sua missão de formar as novas gerações.

O debate sobre o papel do professor – educador ou profissional do conhecimento – é, em essência, um falso dilema. O professor é um educador precisamente porque é um profissional do conhecimento. A sua capacidade de educar emana da sua mestria sobre os processos de ensino e aprendizagem, e não de uma suposta obrigação de suprir as lacunas da educação familiar.

A superação da crise que afeta a profissão docente exige uma clarificação de papéis e um compromisso coletivo. Às famílias cabe a responsabilidade primária pela formação ética e comportamental dos seus filhos. À sociedade e ao Estado, cabe a tarefa de garantir que o professor seja tratado com a dignidade que a sua função exige, através da implementação de uma carreira de Estado robusta e de uma política salarial justa. Só assim poderemos garantir que a escola cumpra a sua verdadeira missão: ser um espaço de excelência para a construção do conhecimento e a formação de cidadãos plenos.

(*) Marionaldo Ferreira é especialista em governança pública, mentor de líderes e consultor em gestão e captação de recursos para municípios. Atua na formação de servidores e agentes públicos e é autor do livro Governança Pública e Suas Possibilidades.

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7 Comentários

  1. Resumo da opera IV. Não pergunto o que posso fazer pelo coletivo, pergunto o que o coletivo pode fazer por mim. Horrorizaria até Marx.

  2. Resumo da opera III. Conhecimento, ainda mais em epoca de AI, não é valorizado. Ao contrario do diploma, pensamento burocratico, ‘um papel que diz que a pessoa esta habilitada a …’. Com o acrescimo do ‘tenho direitos’ e ‘o governo proverá’.

  3. Resumo da opera II. Falta ambição e falta curiosidade. Desde há muito tempo muita gente termina o ensino médio por pressão dos pais. Não gostam de estudar, passam com o mínimo em escolas onde o nivel já não é dos mais altos. Estatistica não muda isto.

  4. Resumo da opera. Existem lugares onde o sistema publico, ao menos na propaganda, ‘funciona’. Existem lugares onde a cultura é diferente. Copiar o que é feito pode ou não resolver o problema em outros lugares.

  5. ‘A superação da crise que afeta a profissão docente exige uma clarificação de papéis e um compromisso coletivo. Às famílias cabe a responsabilidade primária […]’. Não vai rolar. Mudanças culturais levem gerações.

  6. ‘Investir em salários dignos e numa carreira estruturada não é um custo, mas um investimento […]’. É custo. De formação. Podem triplicar o salario hoje e daqui 10 anos vão concluir que nada mudou. Alas, média salarial dos trabalhadores do RS é algo como 3700 reais. Dos professores estaduais, arredondando, 4800. Perto de 30% acima. Só que aí comparam com salarios de juizes. Problema é que são 750 magistrados contra quase 60 mil professores no estado. Não tem como.

  7. ‘Ele é um especialista que domina as complexas ferramentas da aprendizagem, capaz de criar ambientes educativos que estimulem a curiosidade, o pensamento crítico e a construção autônoma do saber.’ Kuakuakuakuakuakua! Muita gente se apaixona pela teoria e sai destas. Parece certa parte do pessoal do juridico ‘tem uma lei que diz que as melancias são roxas’, logo são. Kuakuakuakuakua.

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