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Quem não aplaude a matança defende o Estado de Direito – por Amarildo Luiz Trevisan

‘Em tempos de barulho e medo, manter o fio da razão é ato de coragem cívica’

Quem recusa aplaudir a matança não defende bandido, defende o Estado de Direito. Recusar o culto à violência é dizer que segurança pública precisa de regra, controle e metas claras, não de espetáculos. A operação no Alemão e na Penha rendeu manchetes e palanque. O principal alvo não foi preso, o território não foi retomado, a estrutura do tráfico não foi desmontada. Serviu para reafirmar um discurso de guerra ao crime, rendeu palanque e imagens fortes. Chamar isso de sucesso diz mais sobre política do que sobre segurança.

Quando um governante promete que não haverá recuo, e que já estaria preparando 10 outras invasões do tipo, a pergunta é simples, recuar de quê, avançar para onde? Segurança se mede por redução de homicídios, prisões qualificadas, desarticulação financeira de quadrilhas, controle de armas, presença social do Estado.

Lembrei da visitação ao memorial do campo de concentração de Neuengamme, perto de Hamburgo, na Alemanha. Nas paredes, uma fileira interminável de nomes. Muitos sobrenomes soavam alemães. Perguntei à guia. Ela explicou que a perseguição começou dentro de casa, primeiro contra quem era vulnerável ou inconveniente: moradores de rua, pessoas com deficiência, homossexuais, prostitutas, opositores. Logo, a lista de inimigos cresceu, vieram judeus, ciganos e de outras nacionalidades. E acrescentou um dado que corta, dos prováveis duzentos e quarenta mil mortos, apenas oitenta mil foram oficialmente reconhecidos. Um dos motivos para esse descompasso: a vergonha de familiares em ver seus nomes associados a pessoas estigmatizadas naquele tempo. Quando a violência conquista aplauso, ou silêncio, o círculo se alarga. A violência não mata só corpos, ela impõe silenciamentos, apaga registros e trai a memória das vítimas.

A lição é clara. Extremistas, ou qualquer um que atropela ou quebra as regras do Estado de Direito, precisam apenas de um inimigo com aplauso popular para começar a sua faxina. A gente sabe como começa, nunca saberá como termina e quem será o próximo alvo. Hoje é o “bandido” ou o “traficante” sem rosto, amanhã pode ser o estrangeiro, a pessoa em situação de rua, o usuário de drogas, a população LGBTQIA+, o jovem da periferia, o trabalhador informal, o indígena, o migrante, o religioso de outra fé, o artista incômodo, o professor crítico.

Já ouvimos promessas de invadir escolas e até países vizinhos, já vimos discursos que transformam política pública em guerra permanente. A história não se repete como cópia, ela retorna em padrões perfeitamente reconhecíveis. Quem ignora a tragédia de ontem costuma aplaudir a farsa de hoje.

Que fique claro, não há coragem em colecionar mortos. Soluções simples para problemas complexos costumam tornar o problema ainda maior. Coragem é reduzir o sofrimento real de quem vive nos territórios, é proteger a lei quando a plateia pede sangue, é manter a razão acesa quando o medo obscurece tudo.

Sabedoria ou inteligência, nesse caso, é defender políticas sérias, é defender investigação, prevenção, urbanismo social, oportunidades e educação de qualidade para a infância e juventude, controle de fluxos de armas e dinheiro, responsabilização com devido processo legal. Isso salva vidas, inclusive de policiais e moradores. Sem essas métricas ou competências, a “guerra” vira rotina e a rotina vira anestesia.

Aplauso à matança legitima a barbárie, não entrega segurança. Só assim a política volta a ser cuidado do comum, não rito de passagem para a próxima vítima. Em tempos de barulho e medo, manter o fio da razão é um ato de coragem cívica.

(*) Amarildo Luiz Trevisan é licenciado em Filosofia, mestre em Filosofia (UFSM), doutor em Educação (UFRGS) e pós-doutor em Humanidades pela Universidade Carlos III de Madri. Tem formação teológica pela Diocese de Goiás. É Professor Titular aposentado da UFSM e atua como Professor Visitante no Programa de Pós-Graduação em Educação da UFRN. Publicou diversos trabalhos, entre eles o livro Terapia de Atlas: Filosofia da educação no contemporâneo (EDUCS, 2020). Ele escreve no site aos sábados.

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5 Comentários

  1. Excelente análise de Amarildo Trevisan: “Quem ñ defende a matança, defende o Estado de direito”. Nada a acrescentar. Abordando diferentes aspectos, a análise da problemática da violência, envolvendo o tráfico, foi compreensivelmente desenhada nesse artigo. Impecável.

  2. Resumo da opera II. Vermelhos e os bandidos ‘vitimas da sociedade’. Liberais no Rousseau velho de sempre ‘ser humano nasce bom e a sociedade o corrompe’. Vermelhos e seu mundo ‘sem consequências’ para os ‘escolhidos’. Vermelhos e o inferno para os discordantes. Para o senso comum quem recebe policia a tiros de fuzil fez uma escolha. Tanto que a maioria não o faz. E deve ‘pagar o preço’. Simples assim.

  3. Resumo da opera. ‘[…] é defender investigação, prevenção, urbanismo social, oportunidades e educação de qualidade para a infância e juventude, controle de fluxos de armas e dinheiro, responsabilização com devido processo legal.’ Soluções genéricas e teóricas. As mesmas de sempre. Realidade mudou, mas o discurso continua o mesmo.

  4. Universidade de Cambridge recentemente produziu um estudo sobre ‘governança criminal na America Latina’. Cita o latinobarometro.org. “Governança criminal’ trata-se de impor a ordem, segurança, regulação da propriedade, uso da terra, policiamento da violencia sexual, consumo de drogas, violencia domestica e uso de drogas. Influencia direta na politica eleitoral.

  5. Baboseiras e mimimis de sempre. Irrelevante. Nesta hora algum(a) imbecil pensa ‘se fosse irrelevante não teria comentado’. É o ‘coitadismo’ para quem recebe a policia a tiros de fuzil.

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