CRÔNICA. Orlando Fonseca e uma reflexão sobre, afinal, o que poderá vir no período pós-pandêmico

CRÔNICA. Orlando Fonseca e uma reflexão sobre, afinal, o que poderá vir no período pós-pandêmico

CRÔNICA. Orlando Fonseca e uma reflexão sobre, afinal, o que poderá vir no período pós-pandêmico - 256cc4e4-orlando-crônicaSobre os pós 

Por ORLANDO FONSECA (*)

Quase seis meses depois, na sexta-feira passada retornei ao espaço do Sala de debate, na rádio Antena 1, ao qual me acostumara nos últimos anos. Temeroso, muni-me de máscara e álcool gel e fui para a bancada, na companhia de amigos parceiros na arte de dar pitacos.

Há mais de quarenta anos acostumei-me a dar a minha versão, literária ou opinativa, sobre as coisas da vida, dos seres humanos e do mundo, pelas páginas de jornais, internet, ou microfones das rádios da cidade. Portanto, a pandemia, que me assustou em março, jogou-me no confinamento por este tempo e restringiu o meu prazer de dialogar com amigos e ouvintes.

Pronto, de volta ao estúdio e ao convívio com Claudemir e Gabriel, Candinho e Lemos, surpreendi-me com uma das perguntas enviadas pelo público. O que me fez pensar e sentar para escrever esta crônica – outra das paixões, praticada com prazer desde 1977.

Foram várias provocações dos ouvintes, decorrentes do que vínhamos comentando desde o início do programa. Um dos temas foi o que haveria de ser após o isolamento social, a descoberta de uma vacina e o retorno a uma nova normalidade. Por isso, uma das questões enviadas pelo WhatsApp veio indicada para mim: será que, depois da pandemia, estaremos vivendo uma nova pós-modernidade?

Além de revelar um background cultural do ouvinte, demonstra uma preocupação que supera as banalidades do cotidiano. Tive de retomar os conteúdos de minhas aulas e refletir sobre o ambiente cultural, ao final do século passado, período em que se consolidou o rótulo de pós-modernidade. Será que o pós-pandemia vai encerrar de vez o pós-modernismo?

As rupturas com a tradição, produzidas pela arte, ao início do século XX, e que produziram o Modernismo, não apenas nas artes, já estavam superadas. Ainda ao final da primeira metade daquele século, nos anos 50, vários experimentos, incluindo a poesia, a arquitetura e a moda, resgataram valores proscritos pelos modernistas.

Mas veio uma década de revoluções ainda com o espírito moderno, os anos 60, isso tanto nos costumes, quanto na música, na arte pop, no cinema – pelas novas tecnologias – e em tudo. As mobilizações do chamado “Poder Jovem” e do underground estenderam suas influências na década seguinte.

No entanto, já nos anos 80, as transformações com as novas mídias e a comunicação – CD e internet, por exemplo – fizeram a cabeça da galera, constituindo a essência do que os especialistas passaram a chamar de pós-modernidade. Ou seja, um período em que ainda se percebiam aspectos modernos, mas já em franca superação. Tempo marcado pela ausência de discursos ou narrativas legitimadoras, e pelo individualismo.

Este último aspecto foi provocado pelos fones de ouvido, pelos consoles de videogame, pela interface das redes sociais; também foi responsável pela geração saúde – fitness, academias, veganismo – e pelo desinteresse quanto às grandes causas da humanidade.

Bem, é justamente esse um dos pontos que está sendo posto em xeque pela pandemia: o isolamento social nos fez repensar o individualismo. No fim das contas, aglomerações nos fazem falta. Gostamos de nos sentar à mesa de um bar lotado; gostamos de gritar em uníssono em um estádio, declarando amor ao nosso time do coração; gostamos de disputar um pequeno espaço na areia, de uma praia superlotada.

Talvez esteja aí um dos elementos culturais e antropológicos que vão levar a um novo tempo, com o que se convencionou chamar de o “novo normal”. Não sei se somente isso será responsável pela superação da pós-modernidade, porque uma geração inteira, conectada e super alerta, pode estar preparando uma mudança que aqueles, como eu, nascidos em meados do século passado, não têm elementos com os quais comparar.

Mas, confesso, tenho expectativas de que sejam eles – dentre os quais minha filha, que faz dez anos este mês, em meio a esta pandemia – os que trarão o brilho deste novo Iluminismo, pois têm demonstrado aos adultos, preocupações sérias com os destinos da humanidade

(*) Orlando Fonseca é professor titular da UFSM – aposentado, Doutor em Teoria da Literatura e Mestre em Literatura Brasileira. Foi Secretário de Cultura na Prefeitura de Santa Maria e Pró-Reitor de Graduação da UFSM. Escritor, tem vários livros publicados e prêmios literários, entre eles o Adolfo Aizen, da União Brasileira de Escritores, pela novela Da noite para o dia.

Observação do editor: a imagem (sem autoria determinada) que ilustra esta crônica é uma reprodução de internet. Foi extraída a partir deste site: AQUI



2 comentários

  1. O Brando

    Programa voltou. Não ouvi e aparentemente não perdi nada.
    De fato, revela o background cultural do ouvinte. Pós-modernismo vem do final da segunda guerra. Academia andou tentando decretar o final, decretando o pós-pós-modernismo. Problema é que o mapa não é o terreno. Nas eleições americanas fica bastante evidente, a esquerda é (ou é rotulada como) pós-modernista.
    Especulações são livres. Entretanto, sempre que um(a) imbecil ‘noticia’ um ‘se’ ou um ‘pode’ declara que o resultado pode ser cara ou coroa. Num jogo de dados.
    Isolamento social nos fez repensar o individualismo? Nada a ver. Vide as pessoas que nem mascara querem usar. As aglomerações ostensivas e clandestinas.
    Aglomerações nos fazem falta? Antigamente sempre havia mais pessoas fora do que dentro bares lotados. Mais gente fora do que dentro do estádio. Mais gente fora da praia do que no meio da superlotação. Mesmo para os adeptos destas atividades em tem pos normais sempre existiu a separação entre ‘cheio’ e ‘cheio demais’, quando as inconveniências começavam a aparecer.
    ‘Novo iluminismo’. ‘Preocupação seria com os destinos da humanidade’. Otimismo e um problema serio de amostragem. Novas gerações são altamente dependentes de tecnologias das quais desconhecem o funcionamento. Riscos enormes.
    A generalização é questão de um truque de propaganda. Midia militante tenta impor a percepção de que determinadas ideias tem adesão da ‘maioria absoluta’. Geralmente amostra é tirada de uma porção da classe média ocidental (com exemplos pinçadas no andar de baixo e discursos dos departamentos de marketing de grandes empresas). O resto do mundo não existe.

  2. O Brando

    Malala ganhou o Nobel, graduou-se na Inglaterra. O que mudou no pais de origem? Nada.
    Pirralha falou na ONU, ficou famosa. Noutra semana ocorreu vazamento de óleo de um navio nas Ilhas Mauricio. Semana passada um petroleiro incendiou no Sri Lanka.
    Macron, uma espécie de Dudu Milk, foi visitar o Líbano. Manifestantes pediram para a França reanexar o pais. Chegou neste ponto. Alas, francês afirmou há tempos, para alegria de Putin, que os padrões democráticos europeus eram diferentes dos americanos. É dos queridinhos da mídia, como a premier da Nova Zelândia, do Canada e outros. Odiados também existem. o britânico que o diga. Resumo da opera, o mundo não é o que a Globo mostra.
    Iluminismo é movimento de elites. E o problema com ele não vem da academia. Vem do que ajudou a desenvolver. Ciência encontrou limites. Neurociência evoluiu. Inteligência artificial evolui cada vez mais rápido (armadilha do ‘o que se ve é tudo que existe’ é bem conhecida alias). Interface entre o cérebro e as maquinas é questão de tempo.
    Conclusão obvia, Santa Maria, RS e o Brasil têm uma visão peculiar do planeta, são atrasados e estão longe de ser amostra para alguma coisa. Conclusão adicional, está bem longe de ser tão simples.

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