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Culto à imagem de Bolsonaro faz da vacinação contra a Covid uma “corrida maluca” – por Carlos Wagner

Por conta de ter quatro filhos, duas nascidas nos anos 80, um em 2000 e a outra em 2006, assisti à maioria dos desenhos animados infantis dos últimos 40 anos. Um deles me lembra os dias atuais que os brasileiros estão vivendo com o governo do presidente da República Jair Bolsonaro (sem partido). É Corrida Maluca, criado pela Cartoon Network Studios, que estreou em 1968, mas ficou rondando pela televisão até os anos 90. São 11 corredores que disputam corridas mundo afora em seus carros personalizados. Três daqueles personagens acabaram migrando para as conversas dos jornalistas: o vilão Dick Vigarista e seu nem tão fiel cachorro Muttley, que sempre dava uma risada sarcástica quando os planos mirabolantes do dono para ganhar a corrida davam errado; e a doce Penélope Charmosa, que encantava a todos com a sua beleza e simpatia. Entre nós repórteres Corrida Maluca é usado como sinônimo de confusão. Fiz esse nariz de cera para iniciar com os colegas uma conversa sobre a vacinação contra a Covid-19. Vamos aos fatos.

Nos últimos 50 anos, incluindo alguns governos da Ditadura Militar (1964 a 1985), tem sido meta da administração federal acabar com a burocracia e com a centralização do poder em Brasília. Aliás, essas duas bandeiras fazem parte das propostas do atual governo. A luta contra a burocracia e a centralização tem sido um amontoado de derrotas porque envolve privilégios de categorias e outras coisas mais. Mas houve vitórias. Como a parceria com organizações não governamentais nas áreas de meio ambiente e saúde. Transferência para os municípios de responsabilidades da União. Não tem visibilidade pública. Mas a capilaridade dos serviços federais vinha avançando. E o que aconteceu? O presidente Bolsonaro ancorou a sua sobrevivência política no culto à sua personalidade. Nenhum ministro, ou qualquer funcionário de segundo escalão, pode ganhar notoriedade pública pelo seu trabalho. Tudo gira ao redor do presidente. A máquina administrativa do governo federal hoje não trabalha pelo bem-estar dos brasileiros. Toda a sua energia foi direcionada para o culto à imagem do presidente da República. Na questão da pandemia instalada pela Covid-19, que já matou mais de 200 mil brasileiros, a imagem de Bolsonaro é de negacionista. E graças a essa sua postura ele é hoje conhecido nos quatro cantos do mundo, inclusive citado em filmes de Hollywood e artigos de jornais. A outra imagem que o tornou mundialmente popular é a de destruidor da Floresta Amazônica.

Com alguns retoques é esta a realidade do governo Bolsonaro. O que isso significa? Simples. Se for montado um eficiente plano de vacinação contra a Covid, ele prejudicará a imagem de negacionista do presidente. Se o plano for um fracasso, o presidente pode se complicar perante os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). A solução para essa equação deverá ser a responsabilidade do ministro da Saúde, general da ativa do Exército Eduardo Pazuello. Pelo que já sabemos do general, ele não colocará em risco o seu cargo contrariando e prejudicando a imagem do presidente. Como também não se arriscará a ser processado como genocida pela Corte Internacional de Justiça. Pazuello vai acender uma “vela para deus e outra para o diabo”, como diz o dito popular quando uma pessoa tenta agradar os dois lados em uma disputa. É dentro desse ambiente complexo e cheio de cascas de banana pelo chão que os repórteres que fazem a cobertura do dia a dia do noticiário estão trabalhando. Não é fácil porque o volume de informações é imenso, o tempo para verificar a veracidade dos fatos é curto e demanda por novidades é enorme. Como resolver o problema? Existem saídas para o repórter. A mais importante é focar as entrevistas no essencial da notícia. Enfiar no meio do texto o dia e a hora que conversou com a fonte, porque as coisas estão acontecendo muito rápidas, tipo uma “corrida maluca”. Fugir das informações no condicional e não enfeitar o texto. O xis do problema na questão da vacinação é o presidente Bolsonaro, que precisa da imagem de negacionista para sobreviver politicamente. O Brasil tem uma rede pública para vacinar a população que é exemplo no mundo. A rede privada de vacinas também é qualificada. Mas tudo se tornou irrelevante quando a função da máquina administrativa do governo é preservar a imagem do presidente.

Claro, os tempos nas redações são outros. Tive o privilégio de trabalhar (1979 a 2014) em tempos de fartura de pessoal e dinheiro nas grandes empresas de comunicação. Tudo era mais fácil. Diante de uma situação complicada, montava-se rapidamente uma força-tarefa na redação e repórteres eram enviados para onde fosse necessário, em busca de informações que ajudassem a esclarecer o assunto. Hoje não há gente nem dinheiro. Mas existe uma demanda enorme dos leitores por informações precisas sobre os assuntos. Aprendi na minha carreira de repórter que não adianta ficar chorando pelo leite derramado. A nossa realidade é essa. Mas ela não nos impede de dar o nosso melhor ao leitor. Porque é que o fazemos. Temos que descobrir quem é o Muttley nessa história.

*Carlos Wagner é repórter, graduado em Comunicação Social – habilitação em Jornalismo, pela UFRGS. Trabalhou como repórter investigativo no jornal Zero Hora de 1983 a 2014. Recebeu 38 prêmios de Jornalismo, entre eles, sete Prêmios Esso regionais. Tem 17 livros publicados, como “País Bandido”. Aos 67 anos, foi homenageado no 12º encontro da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI), em 2017, SP.

O texto acima, reproduzido com autorização do autor, foi publicado originalmente no blog “Histórias Mal Contadas”, do jornalista Carlos Wagner.

Crédito da imagem: Marcelo Camargo / Agência Brasil

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