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Bona Garcia: uma vida que não passou em branco – Por Leonardo da Rocha Botega

Um pouco do que foi a significativa história de um militante de fato pelo povo

Eventos acadêmicos são momentos de muito aprendizado e troca de conhecimentos, mas também de diálogos e encontros com pessoas queridas que cruzam os nossos caminhos através da busca do conhecimento. Em um desses eventos, reencontrei a então colega de doutorado Cristiane Ávila Dias, autora da significativa tese “Minha Terra tem Horrores: o exílio de brasileiros no Chile (1970-1973)”. Como de práxis, os assuntos que predominaram em nossa conversa foram os nossos temas e o andamento de nossas pesquisas. Pude ouvir o relato de seu encontro-entrevista com um de seus personagens-fontes da história.

A entrevista havia sido marcada para o início da manhã. Chegando na casa do entrevistado, Cristiane foi recebida por ele e por sua esposa. Após algumas horas de conversa, o entrevistado lhe comunicou que teria que dar uma saída rápida e lhe disse para ficar para o almoço que ainda teria muito para falar. Depois do almoço, a conversa fluiu por mais algumas horas, sempre de forma muito cordial e amigável. Ao final da conversa, Cristiane retornou para sua casa com um bom material de pesquisa e, sobretudo, com uma admiração ainda maior por esse personagem muito significativo da história que vinha pesquisando, conforme pude ver em nossa conversa.

O personagem em questão era João Carlos Bona Garcia. Nascido em Passo Fundo, Bona, como era conhecido, começou a trabalhar aos 14 anos. Em paralelo ao trabalho, iniciou também a sua militância na União Passo-fundense de Estudantes, entidade representativa dos secundaristas daquele município. Após duas prisões, em 1968, “o ano que não terminou”, conforme o título do livro de Zuenir Ventura, mudou-se para Porto Alegre com objetivo de fazer vestibular para Engenharia.

Em um contexto onde a Ditadura Civil-Militar aumentava o sufocamento das formas de oposição legal, aderiu, primeiramente, ao Partido Operário Comunista (POC), uma das tantas dissidências do Partido Comunista Brasileiro (PCB), e num segundo momento à Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), de Carlos Lamarca. Clandestino e imerso na luta armada, foi preso e torturado por um major do exército que, conforme o próprio Bona, “batia ouvindo música clássica, falando da mulher e dos filhos”. Saiu da prisão graças ao sequestro do embaixador suíço Giovanni Enrico Bucher.

Banido do país, foi morar no Chile, onde vivenciou a experiência do socialismo democrático no governo Salvador Allende. Com o golpe de 1973, se refugiou na embaixada da Argentina e, após escapar de uma emboscada em Buenos Aires, rumou para a Argélia.

Acompanhado da esposa Célia e do filho Rodrigo, nascido no Chile, conseguiu ingressar na França, onde estudou economia na Sorbonne e integrou o Comitê pela volta da democracia no Brasil. Retornou ao país em 1979, com a Anistia. Sua história dos tempos da luta armada e do exílio foi contada no belíssimo filme “Em Teu Nome”, dirigido por Paulo Nascimento, com atuação brilhante do ator Leonardo Machado no papel principal.

No Brasil da Nova República, Bona Garcia trabalhou nos governos de Pedro Simon e Antônio Britto, como diretor do Banrisul e chefe da Casa Civil. Formou-se em direito e tornou-se juiz e presidente do Tribunal de Justiça Militar. Em 2018 foi, juntamente com o cientista político João Carlos Brum Torres, um dos poucos históricos do MDB a se posicionar contra o então candidato da extrema-direita. Considerava o apoio de muitos dos correligionários um absurdo e uma afronta à trajetória de luta pela democracia do próprio MDB. Em meio a um festival de incoerências, foi coerente.

Sempre deixava evidente que não era revanchista, mas que não esquecia o que foi um momento que marcou sua própria vida. Quando perguntado se havia valido a pena lutar contra a ditadura, respondia que sentia “orgulho de ter feito algo, de não ter sido omisso, alienado” que sua “vida não passou em branco”. Com esse sentimento, sobreviveu a dois golpes de Estado, à prisão, à tortura e ao exílio, sem nunca perder a ternura. Não sobreviveu à Covid 19! Como os mais de 280 mil brasileiros, Bona Garcia foi vítima do descaso e do negacionismo orquestrado por um governo que demonstra no dia a dia seu despego pela vida coletiva e pela democracia. Duas coisas que tanto marcaram a sua trajetória.

(*) Leonardo da Rocha Botegaque escreve no site às quintas-feiras, é formado em História e mestre em Integração Latino-Americana pela UFSM, Doutor em História pela UFRGS e Professor do Colégio Politécnico da UFSM. É também autor do livro “Quando a independência faz a união: Brasil, Argentina e a Questão Cubana (1959-1964).

Observação do editor a foto de João Carlos Bona Garcia, que ilustra este artigo, é uma reprodução.

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