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O que é prioridade afinal? – por Giuseppe Riesgo

O saudoso Millôr Fernandes dizia que jamais se deve contar uma mentira que não se possa provar. O dramaturgo me veio em mente, justamente pelas reflexões que as restrições da “bandeira preta” propiciam em meio ao debate na aplicação dos recursos federais nesses tempos de pandemia. Quem estaria mentindo nessa situação? Ou ainda: quem pode provar a mentira, como diria Millôr?

Esclarecendo devidamente a celeuma: o governo do Rio Grande do Sul recebeu, extraordinariamente, R$ 2,2 bilhões do Governo Federal. Destes, R$ 1,95 bilhão vieram livres para que gastemos conforme as prioridades do Estado e outros R$ 259 milhões vieram vinculados aos gastos da saúde e o combate à pandemia do coronavírus. O intuito era manter o Estado minimamente em funcionamento, enquanto fortalecíamos as políticas para o enfrentamento do coronavírus e os seus efeitos sanitários e econômicos sobre a população gaúcha. Assim, propiciaríamos o mínimo de sustentabilidade fiscal e auxiliaríamos na formulação de políticas públicas que rastreassem a disseminação do vírus evitando que os fechamentos dos diversos setores, ditos como não essenciais, ocorressem.

Só que o governo não fez nada disso. Na prática, o que fora realizado pelo Governo Eduardo Leite pouco remete a uma eficiente política de enfrentamento do coronavírus. Não houve uma política ampla e eficaz de testagem. Não houve rastreamento sanitário dos casos e das regiões mais afetadas. Não se realizou, portanto, uma política preventiva de enfrentamento da pandemia. A aposta do governo atual se deu na abertura de leitos (estratégia limitada e inócua conforme as palavras do próprio governador), num modelo de distanciamento controlado confuso e desacreditado pela população e no pagamento da folha salarial do Estado com os recursos extemporâneos oriundos do Governo Federal. Essa é a verdade escondida por trás das supostas provas apresentadas pelo governador.

Destinar receitas extraordinárias para pagar despesas correntes era, justamente, o que o governador e sua equipe econômica mais criticavam. A inépcia e a prioridade enviesada do Governo do Estado agora cobram a conta. Não testamos. Não rastreamos. Logo, não combatemos o vírus nesses quase 12 meses de pandemia. Preferimos ignorar, mesmo em meio a uma pandemia catastrófica, a eficácia da testagem em massa no enfrentamento da pandemia. Assim, por enquanto, vivemos de paliativos na política pública de saúde, para que o governo se vanglorie de um suposto esforço fiscal que só se sustenta aos mais desavisados em relação a verdade das contas públicas do Rio Grande do Sul.

Mesmo assim, ressalta-se, não houve ilegalidade alguma. Ao mesmo tempo foi revelador para todos nós. O atual governo escancarou a quem prioriza na crise. Enquanto acolhe alguns que possuem seu salário garantido e nenhum risco de desemprego, entrega ao relento os demais que não possuem garantia alguma na manutenção de suas atividades.
Aparentemente aumentar impostos, fechar o comércio e destruir a competitividade, a renda e os empregos das famílias gaúchas é o caminho mais fácil a se escolher.

Em síntese, não é isso que se se espera de um governo que realmente trabalha para o povo e não para alguns. O mesmo Millôr dizia que certas coisas só são amargas se decidirmos engoli-las. O governador provou que não há ilegalidade alguma na aplicação desses recursos, só não quis mostrar toda a verdade aos gaúchos (de novo). E essa meia verdade a gente não engole mais.

*Giuseppe Riesgo é deputado estadual e cumpre seu primeiro mandato pelo partido Novo. Ele escreve no Site todas as quintas-feiras.

Crédito da imagem: Mohamed Hassan / Pixabay

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Um Comentário

  1. Pois é, já é o terceiro ou quarto conjunto de números que já vi. Qual é o correto? Questão toda é que entre grana que entrou no caixa de fato e a suspensão de envio de grana para BSB existe diferença; Se os estados tem que enviar recursos (e receber) a contabilidade não é simples.
    Dudu Vaselina, o impostor, andou dizendo que o surto agora ‘não seguiu o andamento normal da pandemia’ (algo assim) ou ‘não era uma onda prevista’. Tirando da reta como de hábito na profissão politica.
    Explicação é multifatorial como sempre. Relaxamento das medidas, relaxamento do comportamento das pessoas, novas cepas, etc. Serra virou uma festa. Litoral idem. Pessoal de Curitiba desceu para o litoral catarinense, gauchada subiu, cuidados foram para as buvas como diz o editor. Deu no que deu.
    Cozinha-se agora desobediência civil generalizada. Pessoas querem previsibilidade onde não existe nenhuma, segurança onde não existe nenhuma. Quem vender previsibilidade e segurança (e certezas) está mentindo, existe um fator aleatório muito forte na situação atual. Tudo muito humano (que não tem nada a ver com ‘humano’ e ‘humanismo’ dos idealistas coiós).
    Segue o baile.

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