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CPI da Covid-19 pode se tornar o Tribunal de Nuremberg do Brasil? – por Carlos Wagner

‘Como chegamos à situação de nos tornar de ameaça sanitária para o mundo?’

A crise do oxigênio nos hospitais de Manaus (AM) foi o ponto zero do atual quadro da pandemia da Covid no Brasil (Foto Reprodução)

Como é que o Brasil tornou-se uma ameaça sanitária para o mundo? Essa pergunta os brasileiros terão que responder para a população mundial. E a resposta será dada pela Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid-19 do Senado.

Se a CPI for instaurada e funcionar direitinho, os senadores darão uma demonstração de respeito para com as milhares de vítimas da pandemia ao redor do planeta, sobretudo os 4 mil brasileiros que estão morrendo diariamente de Covid, num total que já passa de 340 mil mortes decorrentes do horror de viver em um país onde os sistemas de saúde público e privado colapsaram em 25 dos 27 estados.

Se a CPI for instaurada e não der em nada, os senadores demonstrarão que estão se lixando para o mundo e para os brasileiros. Se a CPI não for instaurada, os senadores estarão virando as costas para a comunidade mundial e para os brasileiros. Em qualquer uma dessas três hipóteses, a CPI será uma resposta do Senado. É sobre isso que vamos conversar. Vamos ao fatos.

Na última quinta-feira (08/04), o ministro Roberto Barroso, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou que o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, instaurasse a CPI da Covid-19, porque o pedido de instauração tem 32 assinaturas de senadores (o mínimo necessário é 27). Pacheco respondeu que ordem judicial não se discute, se cumpre.

Durante as próximas duas semanas, deverá se decidir o futuro da CPI – há muitas matérias disponíveis na internet. Os senadores terão 90 dias para esclarecer o que aconteceu em Manaus (AM), quando dezenas de pessoas infectadas pelo vírus morreram asfixiadas por falta de oxigênio hospitalar.

Uma série de erros cometidos pelo então ministro da Saúde, o general da ativa do Exército Eduardo Pazuello, contribuiu para que a região se transformasse em um viveiro da P.1, uma mutação do coronavírus que se espalhou pelo Brasil e o mundo afora e ficou conhecida como “variante brasileira”.

Aqui nós jornalistas, principalmente os jovens repórteres que estão na correria da cobertura diária nas redações, temos que ficar atentos ao seguinte. Uma coisa são os efeitos políticos que a CPI terá nas pretensões de reeleição do presidente Jair Bolsonaro (sem partido).

No atual momento, o que interessa para o nosso leitor? Saber o tamanho do rolo em que ele está metido. Hoje, no Brasil, não interessa se a pessoa tem dinheiro, plano de saúde ou SUS. Se adoecer, morre na fila das UTIs. Como nós chegamos a essa situação? Uma boa parte da explicação se perfila entre os motivos pelos quais aconteceram as mortes por asfixia nos hospitais de Manaus.

O que aconteceu em Manaus foi debitado na conta de Bolsonaro, que, por seu negacionismo em relação ao poder de contágio e letalidade do vírus, sabotou as ações de dois de seus ministros da Saúde e colocou no posto o general Pazuello, que seguiu as suas ordens. Pazuello tornou o negacionismo de Bolsonaro política de governo.

A cereja do bolo da sua administração foi enquanto os hospitais de Manaus gastavam os últimos estoques de oxigênio, ele insistia na distribuição do Kit Covid – um coquetel de medicamentos sem efeito contra o coronavírus, entre eles a cloroquina.

A CPI da Covid vai ordenar os fatos que aconteceram na capital do Amazonas e mostrar a cadeia de comando – quem mandava e quem obedecia. E o relatório final será um documento que servirá para as entidades internacionais de direitos humanos e o Tribunal Internacional de Justiça agirem.

E se os organismos decidirem que a política de Bolsonaro em relação à pandemia é genocida, ele se tornará persona non grata em vários países, entre eles os Estados Unidos. É isso que o presidente da República teme. Meus colegas, é o seguinte: uma coisa é terminar um governo sendo acusado de incompetente. É do jogo. Outra é sair com o carimbo de genocida.

Arrematando a nossa conversa. Sempre tenho dito nos meus textos que a história é o melhor professor do repórter. Vejamos. Logo que terminou a Segunda Guerra Mundial (1939 a 1945), um dos conflitos mais violentos da humanidade, que deixou um rastro de 80 milhões de mortos, as tropas aliadas que derrotaram a Alemanha de Adolf Hitler instalaram o Tribunal de Nuremberg, no qual foi julgado o alto escalão nazista (militares, membros do partido nazista, ministros e outros burocratas do governo).

O principal objetivo dos aliados foi identificar e punir com pesadas penas de execução os criminosos de guerra. O secundário era entender como pessoas comuns do povo, professores, médicos, comerciantes e outros profissionais concordaram e se envolveram na execução das políticas nazistas que resultaram na morte de milhões de pessoas nos campos de extermínio, onde foram dizimados mais de 6 milhões de judeus e tantos outros povos.

Há livros, documentários, filmes e uma enormidade de conteúdos disponíveis na internet. A lição que a história ensina a nós jornalistas sobre o que se passou na Alemanha nos anos 30 é que jamais podemos ficar sem saber o que está acontecendo dentro das quatro paredes do poder.

Lembro que a imagem de “exemplo de combate à corrupção da Operação Lava Jato” começou a ruir quando o site The Intercept Brasil publicou conversas feitas pelo aplicativo Telegram entre procuradores da República e o então juiz Sergio Moro, da 13ª Vara Federal, em Curitiba (PR), sobre o caso do triplex, que resultou da condenação do ex-presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva (PT-SP).

São estranhos os grupos que dão sustentação do governo: há os Generais do Bolsonaro (6 mil militares espalhados pela máquina administrativa), terraplanistas, ocultistas, nazistas, neoliberais, o Gabinete do Ódio (pessoas que vivem ao redor do presidente), o Centrão (grupo de parlamentares) e oportunistas de todos os calibres.

Esses grupos disputam o espaço político de maneira acirrada. E a única coisa que os une é o negacionismo em relação à Covid-19. A CPI da Covid pode ser uma brecha para se saber o que está acontecendo entre as quatro paredes do poder.

O presidente da República não teme uma CPI que tente o seu impeachment. Até porque se perder o cargo ele pode voltar depois de cumprir a penalidade. Se for acusado de praticar uma política genocida pela CPI da Covid-19, ele não voltará mais para a vida política. Como diz o ex-ministro da Saúde Pazuello: “é simples assim.”

PARA LER A ÍNTEGRA, NO ORIGINAL, CLIQUE AQUI.

(*) O texto acima, reproduzido com autorização do autor, foi publicado originalmente no blog “Histórias Mal Contadas”, do jornalista Carlos Wagner.

SOBRE O AUTOR:  Carlos Wagner é repórter, graduado em Comunicação Social – habilitação em Jornalismo, pela UFRGS. Trabalhou como repórter investigativo no jornal Zero Hora de 1983 a 2014. Recebeu 38 prêmios de Jornalismo, entre eles, sete Prêmios Esso regionais. Tem 17 livros publicados, como “País Bandido”. Aos 67 anos, foi homenageado no 12º encontro da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI), em 2017, SP.

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Um Comentário

  1. Só para dar uma pista, já que não conseguem concluir que não têm mais o condão de deformar a opinião publica, maioria das pessoas com que falei (e pode ser só a minha bolha) acha que é politicagem sem sentido. Da qual estão todos cheios porque, como diz o filosofo, sai do nada e vai para lugar nenhum.
    Enquanto isto o pais está sem orçamento porque os joinhas do Congresso estimaram a receita artificialmente e diminuíram as despesas (inclusive as obrigatórias) na faixa de 40 a 50 bilhões. Para quê? Para caber emendas parlamentares porque ano que vem tem eleição. Enquanto isto os investidores estrangeiros (os que ainda prestam atenção nesta esculhambação) observam a relação divida/PIB.
    Resumo da ópera: os circos (e narrativas) que serviam para engambelar a população ‘mais experiente’ (com capacidade cognitiva em franco declínio) não ‘colam’ mais.

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