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O grupo dos seis e a ameaça à democracia – por Michael Almeida Di Giacomo

Uma análise do documento lançado por líderes que são, todos, presidenciáveis

Ciro Gomes, Eduardo Leite, João Amoedo, João Doria, Luciano Huck, Luiz Henrique Mandetta, convocaram, por meio de um manifesto, a todos e a todas que apreciam a Liberdade, sejam civis ou militares, para que estejam unidos em defesa do que eles denominaram a formação de uma “Consciência Democrática”.

Na publicização do manifesto, ao establishment político nacional, o G-6 ressaltou a caminhada dos brasileiros na luta pela “reconquista da Democracia na década de 1980”; do movimento “Diretas Já”, e da promulgação da “Constituição Cidadã”.

Curiosamente, mesmo tendo entre seus membros dois políticos que vivenciaram os anos de chumbo da ditadura militar – inclusive, no caso de João Doria, a cassação do mandato do pai e o exílio no exterior – não foi feita nenhuma referência às décadas de 1960 e 1970.

Acredito  que na ideia de criar uma espécie de mundo paralelo inexistente, tenham procurado respeitar a chamada Anistia “de mão dupla”, tão nociva ao tempo presente do país. É provável que seja parte de uma estratégia de não romper pontes com algum “expoente” democrata pertencente às Forças Armadas.

Afinal, alguns dizem que se o Capitão tentar um autogolpe, terá ao seu lado somente um cabo e um soldado. Como saber exatamente?

Bem, de volta ao périplo do G-6, o manifesto deixa implícito que o posicionamento é direcionado ao atual mandatário do país, embora não tenha seu nome citado diretamente. A passagem a denotar o referido contexto diz assim:

“Exemplos não faltam para nos mostrar que o autoritarismo pode emergir das sombras, sempre que as sociedades se descuidam e silenciam na defesa dos valores democráticos”.

“Vamos defender o Brasil”.

No manifesto, uma vez que todos, com exceção de Ciro Gomes, que estava em Paris, estiveram com Bolsonaro no segundo turno da eleição presidencial de 2018, curiosamente, não consta nenhuma autocrítica. Somente a necessidade de defender a democracia. Interessante né?

É certo que em política, a depender do contexto, há muitos diálogos e meios de concertação possíveis de ser feitos. Inclusive o fato de que os que ontem eram aliados, hoje podem estar em trincheiras opostas. É comum acontecer.

Um exemplo: Carlos Lacerda foi aliado dos militares em 1964. Mais tarde, em 1968, teve cassado seu mandato e foi preso, pois liderava uma Frente Ampla de oposição ao regime. Não sei se teve tempo de fazer sua autocrítica.

O reflexo do manifesto do G-6 foi imediato. Dois pontos foram logo levantados.

O primeiro a emergir foi a narrativa de que os componentes do G-6 se posicionam no centro do espectro político nacional e, desse modo, buscam romper com a dicotomia criada em nosso país do “nós” versus “eles”, especificamente, Bolsonaristas versus Petistas.

Pode ser, porém, é de se perceber que a grande maioria dos componentes do G-6, pelo viés político-ideológico, podem ser qualificados como quadros a representar a Direita Liberal, com exceção de Ciro Gomes e Eduardo Leite.

E, nesta formatação do G-6, chama a atenção a falta de líderes partidários que também se colocam como expoentes do centro político, com grande representação e força política.

É o caso de Baleia Rossi.

O deputado, em fevereiro, liderou uma Frente Ampla à presidência da Câmara Federal. Há época, Baleia Rossi foi assertivo ao dizer que: “a sociedade espera uma luta por democracia e liberdade”.

Certamente há outros tantos. O que me leva a conferir que o G-6 parece ser um tanto restrito e isso poderá dificultar uma unidade entre as forças democratas.

De maneira que se chega ao segundo ponto debatido pelos analistas políticos: que da composição do G-6 poderá sair um nome único para disputar a eleição presidencial de 2022.

Olha, certamente, é uma tarefa gigantesca manter a unidade de ação de um grupo que tem bem visíveis algumas discrepâncias, como por exemplo, imaginar que o Partido Novo – liberal ao extremo – possa apoiar o nome de Ciro Gomes.

Da mesma forma, o PSDB ainda terá um imbróglio interno a resolver, que é a escolha de quem irá representar o partido na eleição: João Doria ou Eduardo Leite.

O Mandetta acredito não terá muitas dificuldades com o DEM, porém não dá para esquecer que existe o Rodrigo Maia. Agora, unir o G-6 em torno de seu nome já será bem mais difícil. Se é que seja possível.

E o Ciro Gomes… bem, é uma questão de dias para que ele vocifere algum termo pejorativo contra qualquer um dos outros cinco nomes do G-6.

De toda forma, não é de olvidar que o manifesto pela democracia tem um alcance importante, uma vez que serve como um alerta contra os ataques que nosso sistema, de forma velada ou não, vem sofrendo.

Por isso, quanto mais forças do campo democrático buscarem uma unidade de ação pela democracia, tanto mais forte será nosso sistema político e mais difícil será para que seja dilapidado por agentes autoritários.

(*) Michael Almeida Di Giacomo é advogado, especialista em Direito Constitucional e Mestre em Direito na Fundação Escola Superior do Ministério Público. O autor também está no twitter: @giacomo15.

Observação do Editor: a montagem sobre fotos do sexteto é uma reprodução da internet.

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2 Comentários

  1. Leite é filho de professora de direito da UFPEL e de advogado duble de politico. Huck é fruto da nata paulistana. Amoedo é multiestadual. Mandetta Scotch vem da nata mato-grossense. Ciro Neurastênico é da classe média ascendente que tem o condão de produzir boçais em todos os rincões do país, inclusive o RS. Doria é evidentemente um filhote do sistema, pai foi cassado, perseguido pela ditadura, mas o patrimônio final (apesar das alegações de pobreza transitória) é superior aos que não foram perseguidos, cassados e continuaram trabalhando. É o milagre do ‘trabalho’.
    Conclusão óbvia é que ‘democracia´ acontece quando somos eleitos e enchemos os bolsos de dinheiro às custas da viúva, legal ou ilegalmente. Quanto a realidade alternativa, é comum nos regimes totalitários. Coreia do Norte não tem casos de Covid e todo o resto do planeta é mais miserável que a população daquele país.

  2. Diria que é uma piada do primeiro ao sexto (no caso) e invertido.
    ‘Ameaça à democracia’ é uma piada. Manifesto é uma piada.
    Pergunta que não quer calar, quem teve a iniciativa do manifesto?
    Privilegiatura acha que ainda engana alguém, é este o resumo da ópera.

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