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O homem que poderia voar pelo espaço para sempre – por Leonardo da Rocha Botega

Yuri Gagarin e os 60 anos do fato que mudaria a história das viagens espaciais

Cosmódromo Baikonur, Cazaquistão, União da Repúblicas Socialistas Soviéticas, 12 de abril de 1961, 4 horas e 10 minutos de uma manhã fria e clara. Yuri Alekseyevich Gagarin, então com 27 anos, ingressa na Vostok 1, uma pequena espaçonave de 4,4 metros de comprimento por 2,4 metros de diâmetro e 4.725 quilos. Poucos minutos antes, declarou: “queridos amigos, conhecidos e estranhos, meus conterrâneos queridos e toda a humanidade: em poucos minutos possivelmente uma nave espacial irá me levar para o espaço sideral. O que posso dizer-lhes sobre estes últimos minutos? Toda a minha vida parece se condensar neste momento único e belo. Tudo que eu fiz e vivi foi para isso!”.  

As duas horas que seguiram foram de muitas revisões, cuidados e ansiedade, sobretudo, dos comandantes da ação. Gagarin parecia otimista e tranquilo com seu pulso marcando apenas 64 batidas por minuto. Às 6 horas e 7 minutos, Serguei Korolev, projetista chefe da Vostok 1, anunciou a decolagem desejando “uma boa viagem”. Gagarin apenas respondeu: “E lá vamos nós”.

Alguns minutos depois, já em órbita, o primeiro homem a ser lançado no espaço, emocionado, vibrou: “A Terra é azul! Como é maravilhosa. Ela é incrível!”. Foram 108 minutos circulando a Terra, a 315 km de altura e a uma velocidade de 28 mil km/h. 108 minutos que transformaram completamente a vida de um homem comum.

Yuri Gagarin nasceu no dia 9 de março de 1934, em uma kolkhoz (fazenda coletiva) em Klushino, distrito de Gjatski (hoje Gagarin), na Rússia. Filho de uma camponesa e de um carpinteiro, teve quatro irmãos e uma infância marcada pela Segunda Grande Guerra.

Em 1943, durante a ocupação nazista, seus dois irmãos mais velhos foram levados para a Alemanha para realizar trabalhos forçados e nunca mais retornaram. Na juventude, Gagarin ingressou em uma escola técnica próxima a Moscou para realizar o curso de moldador, iniciando um estágio em uma metalúrgica como fundidor.

Após se formar, em 1955, ingressou na Escola de Pilotos de Orenburg, onde recebeu treinamento para pilotar aviões militares. Dois anos depois se casaria com Valentina Ivanovna com quem teve duas filhas. Naquele mesmo ano, receberia a patente de tenente e seria enviado para a Base Aérea de Luostari, em Oblast de Murmansk.

Mas para além de suas questões pessoais, o ano de 1957 também seria marcado pelo lançamento do primeiro satélite artificial ao espaço, o Sputnik 1, e pelo lançamento do primeiro ser vivo no espaço, a simpática cachorra Laika, recolhida nas ruas de Moscou para se tornar uma celebridade da Guerra Espacial. Um ano depois, Gagarin seria promovido a tenente sênior da Força Aérea Soviética.

Em 1959, o Tenente Gagarin tomaria a decisão que mudaria completamente a sua vida. Ingressou em um programa destinado a recrutar cosmonautas. Dos primeiros 350 inscritos, sobraram 20, depois 6, e por fim o escolhido, segundo Korolev, não apenas por ter tido ótimo desempenho nas provas, mas por ter sido sincero e admitido que ficou completamente tonto depois de uma sessão na centrífuga. Um homem que é sincero em um momento onde isso poderia ter lhe custado a eliminação, certamente, seria sincero em seu relatório de voo pelo espaço, diria mais tarde o chefe da operação mais importante de vida de Gagarin.

Foi assim que o filho de camponeses pobres chegou até o dia 12 de abril de 1961. As incontáveis horas de preparação e os 108 minutos em órbita, fizeram Gagarin ser condecorado com as mais altas honrarias de seu país. Em tempos de Guerra Fria, sua viagem ao espaço fez a União Soviética se antecipar aos Estados Unidos, desmoralizando o programa Men in Space.

Tal fato transformou Gagarin não apenas em símbolo do “novo homem soviético”, mas também, em um herói aclamado no mundo todo. Em sua passagem pelo Brasil, recebeu a Ordem Nacional do Cruzeiro do Sul das mãos do presidente Jânio Quadros.

Porém, por trás do herói treinado para uma missão nunca antes realizada se escondia um homem comum. Um homem comum que em sua aterrissagem em uma região longe do local que fora planejado, ao se deparar com um camponês e sua filha surpresos com aquela figura vestida com uma roupa laranja arrastando um paraquedas, tranquilizou-os dizendo: “não fiquem com medo, eu sou um Soviético como vocês, eu desci do espaço e agora preciso encontrar um telefone para falar com Moscou!”.

Numa trágica ironia, o primeiro homem a ver a Terra de cima, acabaria falecendo em 27 de março de 1968, aos 34 anos, pilotando um caça MIG-15 que caiu quando realizava um simples voo de rotina. Alguns anos antes, perguntado sobre a vontade de sobrevoar novamente a Terra, havia respondido que “poderia voar pelo espaço para sempre!”.

Passados 60 anos do voo da Vostok 1 muita coisa mudou, a Guerra Fria acabou, as utopias já não são presentes e as esperanças travam uma luta cotidiana contra os pragmatismos e o niilismo. A única coisa que parece ter ficado para sempre é a memória de Yuri Alekseyevich Gagarin, sobretudo, a sua consciência de que o planeta é lindo e de que essa beleza deve ser preservada e aumentada, não destruída!                         

(*) Leonardo da Rocha Botega, que escreve no site às quintas-feiras, é formado em História e mestre em Integração Latino-Americana pela UFSM, Doutor em História pela UFRGS e Professor do Colégio Politécnico da UFSM. É também autor do livro “Quando a independência faz a união: Brasil, Argentina e a Questão Cubana (1959-1964).

Observação do editor:  a foto de Yuri Gagarin, que ilustra este texto, é de Reprodução.

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2 Comentários

  1. Maquina de propaganda soviética era boa. Vide Ursinho Misha. Nenhum astronauta russo morreu antes do primeiro ir para o espaço. Americanos fritaram três numa capsula.
    Segundo, mais importante, quase ninguém fala de Valentina Vladimirovna Tereshkova.

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