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Slow Down – por Arno Werlang

A calma sueca (e os resultados) e a pressa de um punhado de outros povos

Se as boas ações devem ser repetidas conto o que li há alguns anos  em um texto de autor anônimo sobre a Suécia, um país pequeno e com o povo extremamente evoluído, que serve de exemplo a todos nós e quem sabe sirva de estímulo a pequenas mudanças dos nossos hábitos nesse tempo sofrido da pandemia.

Informa ele que trabalha já há muitos anos na Volvo, uma empresa Sueca, e que ali qualquer projeto demora 2 anos para se concretizar, mesmo que a idéia seja brilhante e simples. É regra.

Nós (brasileiros, americanos, australianos, asiáticos) ficamos aflitos por resultados imediatos, uma ansiedade generalizada.  Nosso senso de urgência não surte qualquer efeito neste prazo.

Os suecos discutem, fazem “n” reuniões, ponderações. E trabalham num esquema bem mais “slow down”. O pior é constatar que, no final, acaba sempre dando certo no tempo deles com a maturidade da tecnologia e da necessidade: bem pouco se perde aqui.

O país é do tamanho de São Paulo;  sua população beira os dez milhões de habitantes;  sua maior cidade, Estocolmo, não chega a um milhão, menor que Porto Alegre.  Empresas de capital sueco: Volvo, Scania, Ericsson, Electrolux, ABB, Nokia, Nobel Biocare… Para ter uma idéia, a Volvo fabrica os motores propulsores para os foguetes da NASA. É provavelmente o povo que tenha mais cultura coletiva do mundo.

Neste texto revelou pequeno exemplo da formação daquele povo. Disse que na primeira vez que foi para lá, em 1990, um dos colegas suecos o pegava no hotel toda manhã. Era setembro, frio, nevasca.. Chegávamos cedo na Volvo e ele estacionava o carro bem longe da porta de entrada (são 2.000 funcionários de carro). No primeiro dia não disse nada, no segundo, no terceiro… Depois, com um pouco mais de intimidade, numa manhã, perguntei: “você tem lugar demarcado para estacionar aqui? Notei que chegamos cedo, o estacionamento vazio e você deixa o carro lá no final.” Ele me respondeu simples assim: “é que chegamos cedo, então temos tempo de caminhar – quem chegar mais tarde já vai estar atrasado, melhor que fique mais perto da porta. Você não acha?” 

A base de tudo está no questionamento da “pressa” e da “loucura” gerada pela globalização, pelo apelo à “quantidade do ter” em contraposição à qualidade de vida ou à “qualidade do ser”.

Segundo a revista europeia Business Week, os trabalhadores franceses, embora trabalhem menos horas (35 horas por semana), são mais produtivos que seus colegas americanos ou ingleses.

E os alemães, que em muitas empresas instituíram uma semana de 28,8 horas de trabalho, viram sua produtividade crescer nada menos que 20%. Essa chamada “slow atitude” está chamando a atenção até dos americanos, apologistas do “Fast” (rápido) e do “Do it now” (faça já).

Portanto, essa “atitude sem-pressa” não significa fazer menos, nem ter menor produtividade.

Significa, sim, fazer as coisas e trabalhar com mais “qualidade” e “produtividade” com maior perfeição, atenção aos detalhes e com menos “stress”.

Significa retomar os valores da família, dos amigos, do tempo livre, do lazer, das pequenas comunidades, do “local”, presente e concreto em contraposição ao “global” – indefinido e anônimo. Significa a retomada dos valores essenciais do ser humano, dos pequenos prazeres do cotidiano, da simplicidade de viver e conviver e até da religião e da fé.

Significa um ambiente de trabalho menos coercitivo, mais alegre, mais “leve” e, portanto, mais produtivo, onde seres humanos, felizes, fazem com prazer o que sabem fazer de melhor.

E conclui o autor anônimo: será que os velhos ditados “Devagar se vai ao longe” ou ainda “A pressa é inimiga da perfeição” não merecem novamente nossa atenção nestes tempos de desenfreada loucura? E recupera cena muito linda do filme “Perfume de Mulher”, em que um personagem cego, vivido por Al Pacino, tira uma moça para dançar e ela responde: “Não posso, porque meu noivo vai chegar em poucos minutos.”  “Mas em um momento se vive uma vida” – responde ele, conduzindo-a num passo de tango.

E encerra com a frase de ouro de John Lennon: “A vida é aquilo que acontece enquanto fazemos planos para o futuro”…

(*) Arno Werlang é desembargador aposentado. Durante 40 anos desempenhou a magistratura. Também, entre outras atividades, exerceu a docência na Universidade Federal de Santa Maria e na Escola Superior da Magistratura. Hoje se dedica à advocacia e olivicultura e colabora regularmente com o www.claudemirpereira.com.br.  

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Um Comentário

  1. Há controvérsias. Volvo veículos foi comprada pela Ford que revendeu para os chineses. Volvo Aero, o da Nasa, foi comprada pelos britânicos. ABB é mais suíça. Nokia é finlandesa.
    De 90 para cá são trinta anos, muita coisa mudou.
    França legalmente tem semana de 35 horas. Mas a semana média do trabalhador gaulês é 50 horas. OAB de lá defende que 44% dos advogados trabalha 55 horas por semana. Motivo simples, mais barato pagar hora extra do que contratar outro funcionário.
    Na Alemanha a semana tem entre 36 e 40 horas, com meia hora de intervalo de almoço por dia.
    Resumo da ópera: legislação é uma coisa, realidade outra.

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