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A grande pergunta: até onde vai a paciência dos chineses com Bolsonaro? – por Carlos Wagner

O tempo está a favor da China: brasileiros precisam vender e comprar deles

Presidente Xi Jinping tem demonstrado paciência com os desaforos. Mas deixa claro que a paciência tem um limite (foto Reprodução)

Não é preciso ser experiente em relações internacionais para chegar à conclusão que o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e seus assessores mais próximos, conhecidos como Gabinete do Ódio, desde o minuto em que começaram a exercer o mandato, em janeiro de 2019, passaram a chutar as canelas do governo da China.

Num primeiro momento fizeram coro aos ataques contra os chineses disparados pelo então presidente dos Estados Unidos Donald Trump (republicano). No final do ano passado, Trump perdeu a reeleição para o democrata Joe Biden. Agora sozinho, o Brasil continua ofendendo o governo da China.

Até se instalar a pandemia da Covid-19 no mundo, em 2020, a China ocupava o lugar de maior comprador no mundo de grãos (soja e milho) e carnes (suína, frango e bovina) do Brasil. Agora, além de ser o maior comprador de produtos do agronegócio brasileiro, os chineses são os principais fornecedores do Brasil da matéria-prima das duas principais vacinas utilizadas pelos brasileiros contra a Covid: a CoronaVac (Butantan) e a Oxford/Astrazeca (Fiocruz).

Os chineses são famosos pela sua paciência. Tiveram sangue-frio para aguentar os desaforos de Trump durante todo o seu mandato, como a acusação de que teriam sido os inventores da Covid-19. Aliás, essa era uma das justificativas para o então presidente dos Estados Unidos ser negacionista em relação ao poder de contaminação e letalidade do vírus.

O negacionismo sobre a pandemia foi um dos fatores que determinaram a derrota de Trump nas eleições. Por ser aliado do ex-presidente americano, Bolsonaro fez uma série de desaforos a Biden, como não reconhecer a vitória dos democratas. Biden já vinha puxado as orelhas do presidente do Brasil pela devastação da Floresta Amazônica. O atual governo americano tem as suas diferenças com os chineses. Mas são tratadas de maneira civilizada.

O presidente Bolsonaro simplesmente foi desaforado com as duas maiores potências do mundo. O caso da China é o mais sério. Por quê? A maneira de conter o vírus é a vacina. Mais de 2 mil brasileiros são mortos pela Covid diariamente, no total já são mais de 410 mil mortos. A influência do negacionismo de Bolsonaro no número de mortos está sendo investigada por uma Comissão Parlamentar de Inquérito do Senado, a CPI da Covid.

Soma-se a esse quadro o fato de que mais de 400 mil brasileiros não receberam a segunda dose da vacina CoronaVac na data prevista porque os chineses atrasaram o envio de insumos para o Butantan. Para piorar a situação, depois de um período quieto, na quinta-feira (05/04) o presidente da República acusou a China de estar usando o vírus para travar uma guerra biológica contra outros países.

As autoridades chinesas negaram as acusações. Entre os brasileiros, principalmente os 400 mil com a vacina atrasada, a ideia geral é que Bolsonaro perdeu uma oportunidade de ficar de boca fechada.

Por que Bolsonaro voltou a chutar as canelas dos chineses? Para desviar a atenção da pressão que está sofrendo na CPI da Covid. As duas perguntas que nós jornalistas temos que responder aos nossos leitores. A primeira é: quantas vidas de brasileiros vão custar o atraso da segunda dose da vacina?

Oficialmente o atraso não tem nada a ver com os desaforos disparados pelo presidente brasileiro contra os chineses. Mas têm a ver com o que todos os especialistas em relações internacionais falam. Sobre os produtos do agronegócio que os chineses compram.

Já li documentos escritos por burocratas do atual governo federal que apostam que os chineses não teriam onde comprar os atuais volumes de grãos e carnes que adquirem no Brasil. Isso é uma piada, porque os chineses têm dinheiro, tecnologia e organização para resolver esse tipo de problema. E sabem o que está acontecendo em todos os cantos do mundo.

Eu tive longas conversas com jornalistas chineses em três oportunidades. A primeira foi no início da Guerra Civil de Angola, onde fiquei trabalhando durante duas semanas. A segunda vez foi em 2005, no interior do Pará, quando fazia uma matéria sobre a devastação da Floresta Amazônica pelas madeireiras asiáticas. E a última em 2011, no interior do Mato Grosso. Estava fazendo uma reportagem sobre as fronteiras agrícolas povoadas pelos gaúchos e seus descendentes, O Brasil de Bombachas.

Lembro o seguinte: até os chineses entrarem para valer como compradores do mercado internacional de grãos e carnes, os agricultores americanos e brasileiros viviam brigando para vender a sua produção aos europeus. Aqui é o seguinte. A imprensa do interior do Brasil, principal da região do agronegócio, não tem dado a devida atenção ao risco que representa para os negócios as ofensas de Bolsonaro à China.

Até onde vai a paciência do governo da China com o presidente do Brasil? O tempo está a favor da China, porque os brasileiros precisam vender os seus produtos do agronegócio para eles. E precisam comprar as matérias-primas das vacinas.

Enquanto o presidente Bolsonaro atolou o seu governo na maior crise sanitária da história do Brasil, o seu ministro da Economia, Paulo Guedes, simplesmente não consegue equacionar o problema do desemprego, que já soma mais de 20 milhões de desempregados.

No Senado, a CPI da Covid segue firme no seu rumo de colocar no presidente da República o selo de “genocida” devido a sua atuação no combate à Covid-19. Resumindo. A persistir o atual quadro, o presidente da República está sendo empurrado para o abismo. Por que os chineses iriam se meter nessa encrenca? É só ter a paciência, o que eles têm muita, e aguardar.

PARA LER A ÍNTEGRA, NO ORIGINAL, CLIQUE AQUI.

(*) O texto acima, reproduzido com autorização do autor, foi publicado originalmente no blog “Histórias Mal Contadas”, do jornalista Carlos Wagner.

SOBRE O AUTOR:  Carlos Wagner é repórter, graduado em Comunicação Social – habilitação em Jornalismo, pela UFRGS. Trabalhou como repórter investigativo no jornal Zero Hora de 1983 a 2014. Recebeu 38 prêmios de Jornalismo, entre eles, sete Prêmios Esso regionais. Tem 17 livros publicados, como “País Bandido”. Aos 67 anos, foi homenageado no 12º encontro da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI), em 2017, SP.

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