Contos

Bicho da chuva – Parte III – por Tânia Lopes

A chuva torrencial daquele dia ficaria marcada para sempre, pois o casal teve que esperar que a chuva passasse para seguirem. Mas foi bom, tiveram tempo para a prosa necessária, afinal, os dois que recém se conheciam e de fato tinham muitas perguntas. Começaram pelos próprios nomes, simples como eles:

– Tenho o nome do meu avô, pai do meu pai, Pedro – ele falou.

– O meu é Isabel… A minha mãe é devota da Santa… – ela falou e baixou a cabeça meio envergonhada. Num de repente lembrou de todas as lições aprendidas quando menina, que era preciso se cuidar, não confiar em qualquer pessoa. Olhou meio por baixo… E o homem estranhou:

– Pode me olhar direito, guria… Sou homem vivido, mas não sou ruim, não te assusta!

– É que fico pensando que tu deve estar pensando que sou uma avoada, sair assim, com esse tempo, sem saber tuas intenções e nem pra onde vamos…

– E tu pensas por acaso que vivo fazendo isso de pegar moça e sair por aí? hahaha. Ando aborrecido com coisas que me aconteceram, um dia te conto… Gostei de ti, trabalhadeira, bonita e simples… Sorriu e espiou com o canto do olho o pequeno sorriso de satisfação dela, (que nunca tinha ouvido isso de homem nenhum…). Mas e tua vida?

– Ah!… Vida sem graça, só trabalho, trabalho… Minha mãe me deu pra ser criada na estância, sou a mais velha das irmãs, seis ao todo… Todas espalhadas, cada uma vivendo como pode. Eu tenho que te contar que o que me fez sair assim… Foi o medo do velho…

– Como assim? Homem bom, me pagou tudo, nos conformes… Eu não o conheço bem, mas me falaram que é pessoa direita!

– Pois sim… – ela falou titubeante – O velho deu de andar me perseguindo, me rinconando pelos cantos… Tu chegaste em hora boa, se não eu estava desgraçada… Não que eu seja santa, tive uns namorados, mas sempre me fiz respeitar!…

– Bueno, tu tens tuas razões e eu tenho as minhas… O que está feito, está feito… Mas vamos se conhecendo que a estrada é longa, como a vida. Se tu não te agradas de mim, te largo onde quiseres, posso até te dar dinheiro pra ti voltar de ônibus…

A chuva amainara quando o motor do caminhãozinho roncou. Ele botou uma primeira e saíram serpenteando na carreteira para desviar dos buracos, que, depois da chuva ficavam mais perigosos, pois invisíveis, como a vida muitas vezes…

A primeira parada foi um posto de gasolina que tinha um restaurantezinho. Tomaram café com pastel, foram ao banheiro.

Quando a mulher se olhou no espelhinho acanhado em cima da pia, até se assustou. Seu cabelo, com a chuva estava desarrumado. Pegou o pente da sacola, ajeitou-o com pode, e amarrou pra trás. Escovou os dentes e sorriu pra si:

– Louca! – se recriminou – Mas condescendente, passou um restinho de batom que uma das meninas tinha jogado fora lá na estância… Coloriu o sorriso. Final, havia pela frente muita estrada, e muita vida também para colorir!

A AUTORA

Natural de Itaqui e professora de Artes Plásticas da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Tânia Lopes é detentora da cadeira número 8 da Academia Santa-Mariense de Letras, cujo patrono é Érico Veríssimo. Já publicou mais de 11 obras e, em 2004, foi a patronesse da Feira do Livro Infantil de Santa Maria.

Este conto foi publicado com autorização da autora. Crédito da imagem no topo da página: Daniel Kirsch / Pixabay. Crédito da foto da autora: Lucas Linck / LABFEM-UFN.

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