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Pandemia e desastre – por Orlando Fonseca

Quando tomei a primeira dose da vacina, começo do mês de abril, fui tomado de uma euforia que transcendeu a minha experiência pessoal. Depois de vivenciar um ano de reclusão, respeitando os protocolos sanitários e o distanciamento social, atento aos desdobramentos de uma epidemia com dimensões planetárias, começava ali a expectativa por dias de quase normalidade. Em um esforço mundial, era a vitória da ciência sobre a ignorância. No entanto, passado o período de intervalo recomendado para a segunda dose, me deparo com a realidade de estar no Brasil, infelizmente, justo agora. Nesta semana, completam-se mais de vinte dias além das quatro semanas em que deveria ter tomado a segunda dose. Meu entusiasmo se transformou em desânimo, e aos poucos, conforme vão passando os dias, em temor e ira. Efeito colateral de uma mistura tóxica, na qual uma pandemia vira desastre.

Aos olhos do mundo, ser brasileiro por estes dias passa a ser comorbidade, impeditivo para ingressar em outros países. A gestão calamitosa da saúde tornou mais agudos os efeitos deletérios do Coronavírus, embora tenhamos equipes e departamentos de pesquisa reconhecidos no mundo todo, participantes do esforço mundial da ciência na busca por uma vacina, mesmo tendo um dos sistemas públicos de saúde mais consistente dentre os países desenvolvidos ou em desenvolvimento. Além de termos três mudanças de ministros da pasta em meio à maior pandemia que já conhecemos, em séculos, amargamos a liderança de um governante negacionista e sua “entourage”, que desafia não apenas os protocolos, mas também o bom senso, ao não fazer uso de máscara, e ainda promover aglomerações.

Pelo que temos acompanhado nos depoimentos na CPI Covid, no Senado, dois ministros da saúde caíram por se negarem a ratificar o uso de medicamentos, comprovadamente, sem efeito sobre a Covid 19. Eram médicos, estavam credenciados para o cargo e para não usar sua autoridade em aventuras numa hora que precisa de esforços e recursos para frear o avanço do vírus letal. Em seu lugar, no posto mais alto do comando de uma das mais importantes das políticas públicas – a saúde, direito constitucional de todo cidadão brasileiro – foi escolhido um militar, com o qualificativo de ser especialista em logística. Graças à “expertise” desse cidadão, faltou oxigênio nos hospitais de Manaus, kits de intubação em vários lugares do país, até mesmo seringas para a aplicação das doses e, para coroar a sua incompetência, falta de vacinas Coronavac para a segunda dose. Com um comportamento errático, em meio à celeridade das ações devidas para fazer frente a uma pandemia que se alastra, cada vez mais perigosa, indicou que não se estocasse vacinas e todas as remessas fossem usadas para a primeira. Agora estamos diante de um possível apagão de vacinas, pela falta do IFA, e isso graças ao destempero do presidente, de seus familiares e até mesmo daquele que deveria conduzir as relações internacionais com o devido respeito (já caiu, ainda bem).

Não voltaremos à normalidade, ao menos aquela que experimentávamos no distante fevereiro de 2020, quando as notícias de um tal de coronavírus eram anúncios de um distúrbio ocasional na Europa. Sem saber, vivíamos a alegria de estar em um país tropical, sem se importar com o negacionismo de uma gente sem noção que havia tomado o poder. Até ali houvera perdas, mas no terreno político/econômico e um pouco de agravamento da questão social. O que veio depois foi o dilúvio, e a falta de noção ceifou vidas. Espero que nesta semana possa tomar a segunda dose da vacina, sem a certeza de que a imunidade estará completa, pois em nenhum país decente do planeta se teve casos de atraso. Portanto não se tem dados massivos sobre o tema. Vou continuar me cuidando, claro, mas lamentando que o desastre ainda vai perdurar por um bom tempo, mais letal que a pandemia. Em países decentes também não se conhece gestão da saúde pública do “modelo” aplicado no Brasil, mas os efeitos colaterais já estamos sentindo no corpo social e na alma do povo. O que virá, ainda não se sabe.

(*) Orlando Fonseca é professor titular da UFSM – aposentado, Doutor em Teoria da Literatura e Mestre em Literatura Brasileira. Foi Secretário de Cultura na Prefeitura de Santa Maria e Pró-Reitor de Graduação da UFSM. Escritor, tem vários livros publicados e prêmios literários, entre eles o Adolfo Aizen, da União Brasileira de Escritores, pela novela Da noite para o dia.

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Um Comentário

  1. Ignorância vai muito bem obrigado, basta ver o nível do debate politico. Nunca vai ser derrotada pela ciência até porque é uma luta interminável. Sem susto, ignorância e problemas cognitivos se resolvem sozinhos. O peixe morre pela boca…ou pela pena.

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