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Bolsonaro desistiu de governar o país e se dedica 100% à campanha da reeleição – por Carlos Wagner

Para qualquer lado que o brasileiro olhe ele enxerga uma montanha de problemas. Inflação dos preços dos alimentos, combustíveis e serviços. O ataque da Covid-19, que ainda mata mais de 2 mil pessoas por dia. Os sistemas de saúde público e privado à beira de um colapso. E, enquanto isso, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) intensifica a sua campanha à reeleição em 2022 usando a estrutura do seu cargo: avião, segurança pessoal, verba de representação e outros benefícios do cargo. O presidente se especializou em inaugurar obras inacabadas, como foi o caso da nova ponte do Guaíba, em Porto Alegre (RS). Muitos dos meus colegas repórteres, especialmente os colunistas políticos, têm afirmado que esse comportamento é um dos malefícios da reeleição. Não vou discutir os benefícios e os malefícios da reeleição presidencial. Digo apenas que para o projeto de poder do presidente Bolsonaro isso pouco importa. Se não houvesse reeleição ele investiria na candidatura de um dos seus filhos parlamentares. E se ele ganhasse, a família Bolsonaro continuaria no poder. É isso que importa. E é sobre isso que vou conversar com os meus colegas e leitores.

Antes de contar a história, um aviso que considero importante. Tudo que vou escrever não é teoria. São fatos que já publicamos em nossos conteúdos jornalísticos. Só o que estou fazendo é costurar os assuntos. De volta à história. Assim que a pandemia da Covid-19 se alojou no Brasil, no ano passado, Bolsonaro elegeu o vírus o seu inimigo número um e alardeou que tinha a bala de prata para matá-lo: a cloroquina. Cientistas do mundo inteiro alertaram que a abordagem do governo brasileiro no caso do vírus estava errada. O presidente insistiu no seu ponto de vista e tornou o seu negacionismo do poder contágio e letalidade da Covid-19 em política de governo. Resultado: mais de 470 mil mortos pelo vírus. E a instalação da Comissão Parlamentar de Inquérito no Senado da Covid-19, a CPI da Covid, que busca colocar as digitais do presidente da República e dos ministros no caos que resultou nas mortes causadas pelo vírus. A cada dia, mais a CPI da Covid se parece com o Tribunal de Nuremberg, no qual os Aliados, logo após o fim da Segunda Guerra Mundial, julgaram os chefes nazistas pelos crimes cometidos durante o conflito. E também para entender como o líder Adolf Hitler e os seus generais conseguiram convencer a sociedade alemã a se envolver com a matança de civis.

As sessões da CPI têm obtido um alto índice de audiência na TV. Esse é um dos motivos pelos quais o presidente da República intensificou a sua campanha à reeleição. Por quê? O relatório da CPI será um documento consultado por historiadores, jornalistas e pesquisadores que escreverão sobre a pandemia causada pela Covid. Empresários e banqueiros importantes que apoiaram a candidatura de Bolsonaro em 2018 pensarão duas vezes antes de atrelar as suas marcas aos 470 mil mortos causados até agora pelo vírus. Mais ainda: os eleitores que não são bolsonaristas de carteirinha vão pensar duas vezes antes de decidir em que irão votar. Bolsonaro está tentando detonar a CPI atacando em duas frentes: a primeira é causando tumulto nas sessões, usando para isso os seus senadores aliados. E a outra é fazendo campanha política. Aqui é o seguinte. Quanto mais gente ele reunir nas suas manifestações, mais forte é o recado que ele passa para os senadores da CPI da Covid, tipo: “Não mexam comigo, eu tenho o povo ao meu lado”. Até agora os senadores não estão nem aí para os recados do presidente. Muito pelo contrário. A cada sessão da CPI brotam fatos novos que colocam as digitais do governo do caos sanitário do Brasil.

O sonho de Bolsonaro é substituir a CPI pelo seu principal adversário na reeleição, o ex-presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva (PT-SP). Tanto que ele tem disparado desaforos pesados contra Lula. Vez ou outra, o ex-presidente responde aos desaforos. Mas logo se cala. Por quê? O centro da atenção dos brasileiros hoje é a CPI da Covid. Pesquisas têm mostrado que há interesse popular em saber como chegamos ao caos sanitário. Lula está usando o tempo para costurar alianças e ganhar musculatura política para a disputa de 2022. Mais ainda: Lula não será o único contra Bolsonaro. Há uma enorme lista de candidatos, muitos com boas chances. A publicação do relatório da CPI será o tiro de largada para a campanha de 2022. Todos sabem disso, incluindo Bolsonaro. Então por que o presidente está com a sua campanha à reeleição na rua? Porque é o que restou para ele fazer. Não é de hoje. Mas toda a administração do governo federal emperrou porque foram colocados mais de 6 mil militares de várias patentes em cargos de ministros e de coordenadores de setores importantes. Eles não têm qualificação para os cargos. O Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) é um exemplo dessa situação. O principal ministro do governo, Paulo Guedes, da Economia, até agora só mostrou que tem uma “língua afiada”, que usa contra os seus adversários. Não conseguiu tirar a economia do Brasil do buraco.

É do jogo o governo “vender o seu peixe”, seja ele municipal, estadual ou federal. Bolsonaro não tem peixe para vender. Tem um governo marcado por confusões políticas e muita coisa mal explicada, como o poder nas decisões dos assuntos presidenciais dos seus filhos parlamentares, Carlos, vereador do Rio, Flávio, senador do Rio de Janeiro, e Eduardo, deputado federal de São Paulo. A grande aposta do presidente da República é que o seu nome estará constantemente nas manchetes dos jornais. Ele sempre defendeu a máxima “fale bem ou fale mal, mas falem de mim”; Até agora tem funcionado, tanto que ele se elegeu presidente em 2018. Os jornalistas não têm como não falar nele, ele é presidente da República e tudo o que diz é notícia. Vai funcionar na reeleição? Bolsonaro aposta que sim, tanto que já está com a campanha na rua. Deixando a administração do país por conta da própria sorte.

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(*) O texto acima, reproduzido com autorização do autor, foi publicado originalmente no blog “Histórias Mal Contadas”, do jornalista Carlos Wagner.

SOBRE O AUTOR:  Carlos Wagner é repórter, graduado em Comunicação Social – habilitação em Jornalismo, pela UFRGS. Trabalhou como repórter investigativo no jornal Zero Hora de 1983 a 2014. Recebeu 38 prêmios de Jornalismo, entre eles, sete Prêmios Esso regionais. Tem 17 livros publicados, como “País Bandido”. Aos 67 anos, foi homenageado no 12º encontro da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI), em 2017, SP.

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