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Não deixe apagar – por Bianca Zasso

Sobre “Born in Flames”, um filme que é “um caldeirão fumegante”

Imaginar o futuro é um hábito para muitos. Até os que bradam aos quatro ventos que “vivem o momento”, em algum segundo da existência pensam em como será o amanhã. Filmes que tratam do futuro costumam mexer com nossas emoções.

As décadas passam e mesmo a ficção mais maluca pode dar um tiro certeiro sobre o que nos espera. Skate que flutua em De Volta Para o Futuro, quem nunca torceu para alguém inventar? Traquitanas assim divertem a espera.

Mas e quando o cinema resolve apresentar um futuro não tão encantador? Mais que isso, quando constrói uma história futurista com dilemas do passado, deixando claro que certos problemas continuarão a existir?

Born in Flames, filme lançado em 1983 pela cineasta Lizzie Borden, pode ser definido como um caldeirão fumegante. A receita daquilo que ferve dentro dele é composta por dois ingredientes principais: o movimento feminista e a ficção científica. Construído como um falso-documentário, o filme se propõe a fazer um registro de uma América do Norte “pós-revolução socialista”.

A tal revolução, no entanto, parece ter esquecido as mulheres. Após uma série de demissões em massa de trabalhadoras em vários setores do país e o incentivo para mulheres ocuparem seus lugares dentro dos lares, sendo mães e donas de casa em tempo integral, vários grupos de mulheres começam a surgir. Atacam homens que tentam estuprar uma moça no meio da rua, ameaçam assediadores dentro do metrô e fazem corredores humanos na entrada de obras que demitem mulheres.

Tudo isso é mostrado por meio de entrevistas, trechos de noticiários e registros de reuniões dos tais exércitos de mulheres que se formam por toda a Nova York. Lizzie Borden recria com precisão as falas das jornalistas que querem defender os direitos das mulheres, mas esquecem das questões de classe e raça quando escrevem suas linhas.

Dois programas de rádio comandados por vozes femininas, um mais voltado ao movimento punk e outro ao soul/funk, mostram os abismos que existem dentro do movimento feministas desde que a primeira onda se instalou no mundo. Se todas as mulheres querem ter direito sobre seus corpos, poucas querem pensar que ser negra agrava a situação de um simples passeio noturno.

Somos todas iguais? Não é bem assim. As divergências aparecem com sutilezas dentro do roteiro e Born in Flames torna-se uma experiência ainda mais interessante. A trilha sonora nos conduz pelo subterrâneo da Big Apple, mas não nos deixa esquecer que há gritos de protesto na parte de cima. Quase sempre silenciados.

Mesmo quase quatro décadas depois de seu lançamento, o filme continua um tapa potente na cara dos machistas e também das feministas que insistem em lutar sozinhas ou em pequenos grupos. Acreditar que todas seguimos a mesma pauta é ignorar a mais humana das qualidades: a singularidade. Pretas, brancas, amarelas, pobres, ricas, com pós-graduação ou semianalfabetas.

Nenhum mulher é igual. Óbvio que algumas lutas podem nos fazer dar às mãos, mas certas questões precisam ser debatidas e batalhadas com cuidado. Tomar a voz de uma companheira também é uma violência.

Born in Flames canta bem alto o seu refrão para que não se perca a ideia. Vale assistir ao filme com fones de ouvido, pois o ritmo das vozes das personagens é também uma forma de arte. Daqueles longas-metragens que poderiam ser uma canção. E que deviam ser comentados por mulheres dos 8 aos 80 em pleno 2021.

Escrever sobre Born in Flames é complicado, ainda mais para uma mulher crítica como esta que vos escreve. Tentar dissecar a produção seria entregar parte da viagem incrível que são os seus pouco mais de 80 minutos de duração.

Mas se falta motivação para a (o) prezada (o) leitora (or) ir até o streaming e dar o play, fica a provocação: você não entende nada sobre a luta de mulheres até provocar uma. As labaredas serão altas, podem apostar.

Born in Flames

Ano: 1983

Direção: Lizzie Borden

Disponível na plataforma Mubi

(*) Bianca Zasso, nascida em 1987, em Santa Maria, é jornalista e especialista em cinema pelo Centro Universitário Franciscano (UNIFRA). Cinéfila desde a infância, começou a atuar na pesquisa em 2009. Suas opiniões e críticas exclusivas estão disponíveis às quintas-feiras – nesta semana excepcionalmente à sexta.

Observação do editoras fotos que ilustram este texto são de Divulgação.

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