Crônicas

Pé no passado – por Marcelo Castro dos Santos

No começo era a Conga. Um calçadinho simplório de lona azul e borracha branca que era unanimidade entre a meninada. Quem já tinha conseguido se desvencilhar do temível sapato colegial, só usava a tal da Conga. Era relativamente confortável, combinava com o uniforme da escola, além de durar muito e custar quase nada. Pouco depois, causando sensação entre os garotos, surgia o Kichute: bem feinho é verdade, todo preto com umas agarradeiras que lembravam chuteiras de jogador de futebol, mas dava um certo status a quem o usava. A gente até passava a caminhar diferente! Além disso, tinha uma certa bossa para usá-lo: a gente amarrava o cadarço em volta do tornozelo e não em cima do pé, como os outros calçados.  Conforme o comercial da TV, quem usasse o Kichute ganhava os poderes do Cyborg – O Homem de Seis Milhões de Dólares, seriado famoso dos anos 70 onde o personagem principal só faltava voar. O Kichute era a própria evolução, um salto tecnológico da indústria calçadista (a gente acreditava…). Depois dele, a Conga, virou coisa de menina…

O primário chegava ao fim. As calças de tergal azul-marinho eram substituídas aos poucos pelas US Top, o tal “brim coringa” como a mãe da gente chamava, e que eram usadas com a barra dobrada para cima, o que dava um look todo especial, ainda mais quando combinadas com a última palavra em tênis: o Bamba Maioral. Feito também em lona com borracha, já surgiu nas mais diversas cores. Garoto que fosse descolado tinha que ter um; mas que não aparecesse de Bamba vermelho: era coisa de menina ou de “maricas” (ô machismo…).

O curioso de todas essas marcas de tênis é que elas duravam tanto que dava até nojo. Por pior que estivesse, era só dar uma lavadinha e tava novo. Sem falar que, pra comprar, não precisava crediário, cheque-pré ou cartão: a gente juntava uns cruzeiros e tava com um guides zerado na mão (ou melhor, no pé…).

Em tempos de ginásio, dividindo a preferência da rapaziada, iam surgindo, aos poucos, os tênis de couro, os tênis com velcro ao invés de cadarço, os tênis sem velcro nem cadarço, os tênis com elástico, os tênis com zíper… Mas… em plenos anos 80, com alguns anos de atraso, desembarca no Brasil o americanóide All Star, usado nos EUA pelos jogadores de basquete. Foi a coqueluche! Junto com as cores tradicionais (preto e azul-marinho), chegaram também as mais aberrantes matizes, tons e combinações. Isto, em tempos de new wave era um verdadeiro arraso! Por aqueles anos, estar fashion era usar uma camiseta pink fluorescente, uma calça amarelo-canário e um tênis verde-bandeira (eu usava…).

Mas o fim estava próximo. Aos poucos as grandes marcas estrangeiras (aquelas que custam caríssimo, embora sejam fabricadas na Ásia com mão-de-obra escrava…) foram chegando por aqui e tomando conta: tênis sem personalidade, sem história, sem passado e sem futuro e que te deixam na mão logo no primeiro uso.

Sou de um tempo em que os tênis não tinham luzinhas, amortecedores, sistemas de impacto ou refrigeração, mas eram os nossos grandes companheiros de todas as horas. Ao contrário de hoje em dia, um tênis era um amigo verdadeiro: você não precisava ter muita grana para conquistá-lo. Nos bons e maus momentos ele estava lá te esperando, mesmo que você já tivesse lhe maltratado algumas vezes. Ele não te abandonava nunca!

Mas não importa. Ninguém liga pra isso, mesmo. É só passado. E o passado é um Bamba velho que não nos serve mais…

A crônica
Pé no passado, de Marcelo Castro dos Santos, de Pelotas, conquistou 3º lugar na categoria Crônica, no 29º Concurso Literário Felippe D’Oliveira, em 2006. A publicação foi autorizada pela Secretaria Municipal de Cultura de Santa Maria. Crédito da imagem que abre a página: Mario Hofer / Pixabay.

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