Crônicas

Pierlequim – por Mariza Baur

Fim de tarde. Faz frio aqui na Piazza de San Marco neste mar de mascarados. Todo mundo vem fantasiado. Plumas, capas longas e chapéus. Máscaras brancas tapam os rostos. Pombos voam assustados. É Carnaval! Princesas, magos, fidalgos, cardeais. Impressionante, quantos cardeais!  Lá vai um anjo. E a feiticeira acaba de passar. Ninguém vem nu. Agora, pasmem, uma baiana de turbante na cabeça se aproxima. Não resisto e digo que sou do Brasil. Ela rodopia, me cumprimenta e quase grita: Io sonno baiana de Rio. Tento explicar que baiana é da Bahia, mas ela já se foi. Aí vejo você, Pierrô, tomando café no Florian, me procurando com o olhar. Ainda não quero que me aviste. Ah! Estou dividida. Meu coração bate por dois. Cadê você, Arlequim? Pierrô ou Arlequim? A dúvida me consome. Sou Colombina, o que vai ser de mim? Não é você, Arlequim, ali no vaporetto? Não, me enganei. Então, você me vê, Pierrô, e é deste olhar que sempre lembro e me derreto.

Está fazendo um ano, foi no Carnaval que passou, eu sou aquele Pierrô…  Cantarolando, você vem ao meu encontro, me abraça e me beija, meu amor. Entramos no desfile. Nada de samba, nem axé. Cantigas medievais ecoam na piazza. Performances teatrais aqui e ali. Atmosfera de magia nos transportando a outras épocas, só nos damos conta de que é noite, na última badalada da Torre do Relógio. Vamos ao Palazzo? você me convida. O baile está apenas começando. Que deslumbramento! Quanto luxo! Quanta pompa! Dançamos. Dançamos de causar inveja, até perder o fôlego. Aí, Pierrô, você sussurra: Tem uma gôndola para nós, minha Colombina, sob a Ponte dos Suspiros. E eu é que suspiro ao ver tão linda embarcação. O casco negro reluzindo nas águas do canal, toda carmim por dentro, veludo e seda. E flores, rubras rosas, camélias alvas.  Champagne ou vinho tinto?  Vou querer os dois e muito mais, respondo sorrindo.

Como num sonho, a voz do gondoleiro a entoar Il sole mio, vamos avançando pela bruma. Enamorados. Não sei se tremo de frio ou de paixão nos seus braços, Pierrô, os fogos de artifício se derramando sobre nós no Gran Canale. Perto dali, foliões comentam Arlequim está chorando pelo amor da Colombina, no meio da multidão.

Colombina! Colombina! Alguém me chama da Ponte do Rialto. Abro os olhos, vislumbro panos coloridos. Losangos. Meu coração dá um pulo. É sua voz, Arlequim?  Então, escuto o que me diz, Venha comigo, Colombina!   Pierrô chora e me implora, Fique meu amor! Eu também choro. Nós três choramos. Drama na laguna. Não sei se fico. Não sei se vou. Ah! Estou sempre dividida. Na verdade, meu coração é Pierlequim.

Uma lancha nos aborda, vejo Arlequim, no leme. Colombina! ele grita. Casanova me ensinou, vim raptá-la! Você é minha!…  Foi tudo tão rápido, que nem entendi. Num passe de mágica em terra firme estou, correndo por ruelas, de mãos dadas com você, meu Arlequim. Na noite de Veneza, um Pierrô apaixonado, que vivia só cantando, por causa de uma Colombina acabou chorando, acabou chorando.

A crônica
Pierlequim
, de Mariza Baur, de São Paulo, conquistou 1º lugar na categoria Crônica no 30º Concurso Literário Felippe D’Oliveira, em 2007. A publicação foi autorizada pela Secretaria Municipal de Cultura de Santa Maria. Crédito da imagem que abre a página: Madeinitaly / Pixabay.

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