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Uma realidade climática ilusória – por Marta Tocchetto

Para garantir silêncio, dados sobre queimadas vão para a pasta da agricultura

Em busca do silenciamento, os dados sobre as queimadas e incêndios florestais passaram a ser monitorados e divulgados pelo Inmet. 

“Hoje, as árvores da Amazônia ficam com um quarto de todo o carbono absorvido por ano pelas florestas do planeta. Mas, em 2018, o presidente eleito Jair Bolsonaro prometeu abrir a selva tropical para o desenvolvimento, ou seja, para o desflorestamento. Quanto estrago uma só pessoa consegue causar ao planeta? Um grupo de cientistas brasileiros estimou que entre 2021 e 2030 esse desflorestamento liberaria o equivalente a 13,12 gigatoneladas de carbono.

No ano passado, os Estados Unidos emitiram cerca de 5 gigatoneladas. Isso significa que essa política, sozinha, teria o dobro ou o triplo do impacto de carbono de toda a economia americana, com todos os seus aviões, automóveis, minas a carvão. Ninguém emite mais que a China, o país responsável por despejar 9,1 gigatoneladas em 2017.

Isso quer dizer que a política de Bolsonaro equivale a acrescentar, mesmo que apenas por um ano, uma segunda China inteira ao problema do combustível fóssil mundial – com um Estados Unidos por cima para completar”. O cenário está em Terra inabitável – uma história do futuro (2019).

Neste trecho, David Wallace-Wells traça o caminho do agravamento da crise climática e a contribuição do Brasil. Os últimos dados divulgados pelo Inpe mostraram que a Amazônia teve o maior número de focos de queimadas dos últimos 14 anos para o mês de junho, com 2308 focos de calor. Um aumento de 2,6% em relação a 2020.

Em busca do silenciamento, na terça-feira (13.07.21), os dados sobre as queimadas e incêndios florestais passaram a ser monitorados e divulgados pelo Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), subordinado ao Ministério da Agricultura. Área sob forte influência do agronegócio. Até então, o Inpe, órgão vinculado ao Ministério de Ciência e Tecnologia era o responsável.

O enfraquecimento de todas as instituições de controle e monitoramento ambiental é propósito do governo Bolsonaro desde o primeiro dia. A justificativa para a transferência se limitou ao “enfrentamento da pulverização de dados sobre incêndio e meteorologia”, disse o diretor do Inmet à imprensa.

O Ministério da Agricultura justificou a necessidade da mudança, em virtude de os incêndios florestais e queimadas ocorrerem na época de julho a setembro, período em que se evidencia graves impactos ao meio ambiente e à economia brasileira.

A iniciativa tem cheiro da raposa cuidando do galinheiro. Os dados divulgados pelo Inpe sempre denunciaram a inexistência de políticas de enfrentamento. No Brasil acima de tudo, a estratégia é maquiar e silenciar a informações para criar uma realidade climática ilusória. O uso de narrativas fantasiosas e absurdas é um artifício bastante utilizado.

Quem não lembra do “boi bombeiro”? (O boi criado solto, ao comer capim, ajudaria a diminuir a quantidade de material disponível para a queima). A teoria absurda desconhece um dos principais motivos das queimadas somados às ações criminosas, o clima.

É nítida a intenção de reduzir a transparência e controlar as informações. A maquiagem de dados é a estratégia usada por um governo autoritário que nega as vulnerabilidades ambientais relacionadas à biodiversidade e às florestas. O Brasil caminha a passos largos para concretização da previsão dos cientistas

(*) Marta Tocchetto é Professora Titular aposentada do Departamento de Química da UFSM. É Doutora em Engenharia, na área de Ciência dos Materiais. Foi responsável pela implantação da Coleta Seletiva Solidária na UFSM e ganhadora do Prêmio Pioneiras da Ecologia 2017, concedido pela Assembleia Legislativa gaúcha. Marta Tocchetto, que também é palestrante em diversos eventos nacionais e internacionais, escreve neste espaço às terças-feiras.

Nota do Editor: a foto (de reprodução e sem autoria determinada) de queimadas na Amazônica, que ilustra este artigo é uma reprodução do portal Brasil Escola (AQUI).

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2 Comentários

  1. Quem lembra da JBS? Basta fazer a pesquisa no Google ‘JBS desmatamento’.
    Resumo da ópera: Pode ser contra o governo Cavalão a vontade, não é um artigo no blog de Claudemir com P. que vai mudar alguma coisa. O busilis não é este, é utilizar informações a la Climagate (ou Climategate) e contaminar o debate do desmatamento e das mudanças climáticas com debates eleitorais transitorios. Quando falam em ‘cientista brasileiro’, o que vale para a grande maioria, lembro de Chico Anysio. Bento Carneiro, vampiro brasileiro. ‘Minha vingança será maligrina!’.

  2. Kuakuakuakua!
    ‘Um grupo de cientistas brasileiros’. Quem? Onde?
    ‘Um grupo de cientistas brasileiros estimou que entre 2021 e 2030 esse desflorestamento liberaria o equivalente a 13,12 gigatoneladas de carbono’. Entre 2021 e 2030 são 9 anos. Mesmo reeleito Cavalão não chega a 2030.
    ‘No ano passado, os Estados Unidos emitiram cerca de 5 gigatoneladas’. ‘Ninguém emite mais que a China, o país responsável por despejar 9,1 gigatoneladas em 2017’.
    Quem der uma olhada na Nature Climate Change vai descobrir que a Amazonia emite 1,1 Gigatonelada de CO2 por ano (em 9 anos seria 9,9). E absorve 1,2 Gigatonelada. A balança está desequilibrando. Não só desmatamento, El Niño também contribui.
    Brasil não tem cobertura de satélite decente. PF contrata uma empresa americana Planet Labs. Alás, contratação gerou protestos do INPE que afirmou ter o mesmo sistema. Cascata, uma coisa é uma imagem com resolução de meio metro e outra é resolução do tamanho de um campo de futebol.

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