Contos

A criação de um conto ou o conto da Criação? – por Ianara Rodrigues de Alencar

Este é um conto que reconta, sem descontos, a história dos dias em que foram criados o céu e a terra…

Todo mundo sabe que, “no princípio, Deus criou o céu e a terra”. O que nem todo mundo sabe é que, no meio da criação, aconteceu um pequeno incidente… Como todo mundo também sabe, no início “a terra era sem forma e vazia” e Deus se movia por sobre ela. O que nem todo mundo sabe é que Deus se sentia muito só… Por isso, Ele resolveu criar as criaturas marinhas, as criaturas voadoras e os animais mamíferos. Para cada uma dessas criações, Deus disse: “bom, muito bom!” Contudo, Deus ainda se sentia muito só e continuava a sobrevoar a superfície da terra como se procurasse algo mais.

Certo dia, Deus pousou sobre a terra e, num momento de inspiração grandiosa, disse: “façamos o homem à nossa imagem e semelhança”! Até aqui, todo mundo sabe que Deus passou a formar o homem do barro e a soprar nele o seu espírito. O que ninguém sabe é que, nesse momento sublime, enquanto Deus moldava o homem, ele se distraiu um pouco, tão maravilhado que estava com sua obra-prima que não viu que após soprar nas suas narinas o fôlego da vida, nesse exato instante, um pequeno pedaço de barro descolou e caiu direto na água que Ele havia usado para moldar o primeiro homem.

A princípio, Deus não percebeu nada e disse para sua criação: “bom, muito bom!” Isso indicava que seu trabalho estava aprovado e concluído. Ora, eis que após o seu veredicto, Deus percebe algo se movendo sobre a água. Ele olha incrédulo para aquilo, coça a cabeça e diz: “o que eu fiz?” A criatura era diferente de tudo aquilo que havia sido criado até então. Ele custava a acreditar no que tinha acontecido e, logo que compreendeu, sua primeira preocupação foi descobrir que pedaço estaria faltando no homem que acabara de criar. Para sua decepção, ele descobre que a parte que havia se soltado era exatamente a da sapiência que, em sua língua original, significava “sabedoria divina”. Deus estava desolado, havia criado o homem à sua imagem mas, à sua semelhança… nem tanto.

O que fazer com a pequena criatura a quem tinha, involuntariamente, dado vida, pensava Deus. Segundo o “Manual de Regras do Bom Criador” nenhuma criação poderia ser desfeita pois a palavra de Deus, uma vez proferida, não volta atrás. Sendo assim, Deus resolveu dar um nome à criatura e imergi-la na água para que cessasse o fôlego de vida, de forma que ela não pudesse se multiplicar. E Deus assim o fez: “como vieste da sapiência que eu havia concedido ao homem, chamar-te-ei de sapiens” e tendo disso isso, mergulhou-o na água.

Para sua surpresa e espanto a criatura era perfeitamente adaptada à água e Deus não conseguiu o seu intento. E foi a partir dessa experiência que surgiu o termo “batismo” que significa “imersão” para remissão de pecado e pecado, por sua vez, significa “defeito”. Deus resolveu, então, tirá-lo da água e colocá-lo na terra para que, assim, finalmente, cessasse o fôlego de vida. E foi aí que Deus proferiu esta sentença pela primeira vez: “do pó vieste, ao pó retornarás”. E assim o fez. Mas, tão logo a criatura saiu da água passou a caminhar sobre a terra.

Deus, atônito, descobriu que havia criado uma espécie adaptada para viver tanto na água quanto na terra. E Ele não sabia mais o que fazer. Então, já aflito, resolveu consultar novamente o “Manual” e lá estava escrito: “nenhuma criação de Deus pode ser desfeita”. Depois de verificar todos os artigos, ele descobriu uma única exceção a essa regra: qualquer criação de Deus pode ser reincorporada por Ele pelo princípio: “vieste de Deus e a Deus retornarás”.

Pois bem, a única forma de fazer isso era, literalmente, engolindo a criatura. E Deus por diversas vezes tentou fazer isso mas, por mais que tentasse, não conseguia engolir a sua própria criação. Por não ter conseguido desfazer sua criação, Deus resolveu nomear essa espécie como “Anuro”, que em sua língua original significava “intenção de anular” e, para não dar pistas sobre a principal característica desse ser – a sapiência – Deus passa a chamá-lo simplesmente de “sapo”. E foi dessa incrível experiência divina que surgiu a expressão “sapo difícil de engolir”.

O principal conflito de Deus nessa questão era que ele já havia dito ao homem: “tende em sujeição todas as criaturas da terra” e isso, certamente, incluía também a sua última e mais nova criação – o sapo. E Deus mais uma vez coçava a cabeça e se perguntava: “como um ser com a sabedoria divina poderia ficar sujeito ao homem… e como alguém sem a sabedoria divina poderia ter em sujeição todas as criaturas da terra?” Deus estava desolado! Por isso, decidiu tirar um dia para descansar e pensar com calma sobre esse assunto. E assim o fez: no sétimo dia da criação, Deus descansou. E sumiu…

Enquanto isso, aqui na Terra, as coisas não iam nada bem. O homem, por não ter a sabedoria divina, andava agitado, impaciente e resmungava de tudo. Além disso, passou a perturbar a vida de todos os animais querendo sujeitá-los a si através da força. A criação inteira estava em polvorosa, com exceção do sapo que, por ter a sabedoria divina, estava perfeitamente harmonizado com tudo.

Quando Deus retornou do seu descanso, encontrou a Terra em total desarmonia e todos os animais reclamavam do homem (nessa época, os animais ainda falavam). Após ter pensado muito, Deus começou a trabalhar em um novo projeto que pudesse trazer de volta a harmonia na Terra. Ele decidiu, então, criar um ser perfeito, que pudesse ter, ao mesmo tempo, sabedoria divina, bondade, sensibilidade, paciência e inteligência. Este novo ser seria, finalmente, criado à sua imagem e semelhança; Deus chamou esse novo ser de “mulher”…

Para que seu projeto fosse perfeito, Deus resolveu utilizar um material menos ordinário do que o barro e procurou os mais preciosos elementos da natureza. E assim o fez. No entanto, para que o homem considerasse a mulher como um complemento de si mesmo e nunca entrasse em rivalidade com ela, Deus decide criar a mulher a partir de um pequeno pedaço dele.

Deus ainda não sabe, mas vai se arrepender profundamente dessa decisão…

Então, Ele fez o homem adormecer e retirou dele uma de suas costelas e, assim, criou a mulher. Esta sim tinha em sujeição de todas as criaturas da Terra, no entanto, ela nunca usava a força ou o poder pois, tudo o que ela queria, conquistava com seu amor e bondade. O homem, por sua vez, ficou muito feliz com sua companheira. E ele passou a chamar a mulher de Eva e ela passou a chamá-lo de Adão. E assim a harmonia voltou e a Terra se tornou um paraíso.

Mas não por muito tempo…

Enquanto isso, os sapos se multiplicavam rapidamente. Por terem a sabedoria divina, nunca se metiam em confusão e achavam que o mundo estava perfeito assim como Deus o criara. Acontece que um dia Eva engravidou e deu a luz a um filho que foi chamado de Caim. Foi nessa época que a sua relação com Adão começou a se deteriorar. Adão estava sempre ocupado com os assuntos administrativos do Paraíso e nunca tinha tempo para Eva e para seu filho. Eva começou a se sentir muito triste e sozinha. Ela ainda tentou discutir a relação para entender o que estava acontecendo; mas, sem ter nenhum resultado, um dia, ela desistiu.

Quando Caim ficou um pouco maior, Adão decidiu levá-lo em suas longas viagens para conhecer o território em que moravam. Eva se sentia cada vez mais insatisfeita e para se distrair um pouco, levou para casa um dos muitos sapos que habitavam a Terra. Logo, ela começou a se afeiçoar fortemente pela criaturinha tão diferente das demais e deu a ele o nome de Elohim. Ele se tornou o seu companheiro constante e, sempre que ela estava tristonha, encontrava alento em suas palavras, poucas mas sábias, e em seus olhos penetrantes e bondosos que pareciam lhe dizer tanta coisa.

Eva se sentia a cada vez mais carente. Certo dia, ela percebeu que o sapo Elohim a olhava como nunca o fizera antes. Sem pensar muito, ela o coloca em suas mãos e começa a acariciá-lo. Isso era o bastante para fazer a alma dele vibrar em êxtase. Naquele instante, Elohim só tinha olhos e coração. Eva, então, o beija com toda a ternura que possuía. De repente, não mais que de repente, algo extraordinário acontece: o sapo, por ser a criatura mais adaptável da terra se transforma…

Elohim transcendendo a si mesmo num fantástico e inexplicável processo de mutação se transforma em um ser com formas humanas, extremamente belo, sábio e… apaixonado. Era quase um homem exceto pelo fato de possuir a sabedoria divina que o tornava semelhante a Deus. A paixão foi fulminante para ambos. Elohim, no entanto, compreende que, por ser quase homem e quase-deus, esse encontro era impossível. Com uma dor a estraçalhar-lhe o peito, decide afastar-se para um lugar distante.

Eva estava perplexa com todos esses acontecimentos. Num segundo era a mulher mais feliz e amada de toda a criação. No outro, era apenas uma mulher abandonada e sem amor como sempre se sentira. Acontece que agora ela não estava disposta a abrir mão do seu amor sem pelo menos tentar lutar por seu ele. Inconformada com seu destino ela sai a procura de Elohim…

Depois de percorrer meio mundo, com uma persistência que só o amor pode sustentar, ela finalmente o encontra. Ele estava dormindo em sono profundo sobre a sombra de uma frondosa macieira. Eva deita ao seu lado e, assim como na primeira vez, começa a acariciá-lo. Elohim novamente entra em êxtase mas, desta vez, era o seu corpo que vibrava…

Eva também sente o seu corpo vibrar. Sem pensar muito nas conseqüências, ela decide lá mesmo fazer amor com ele. Logo, logo, com um furor silencioso, ela sente seu corpo estremecer de uma forma nunca antes concebida. Quando Elohim acorda do que ele pensava ter sido um sonho fantástico, ele vê Eva ao seu lado… Espantado e aturdido, ele não sabe mais o que é sonho e o que é realidade. Quando cai em si ele pergunta: Eva, o que fizeste? Ela, muito envergonhada, trata de se cobrir com folhas e se afasta dali.

Nesse mesmo dia, por acaso, Deus decide verificar como andava a sua criação. Quando pousa sobre Terra, pergunta a Adão: “onde está a mulher que te dei?” Adão dá as costas a Ele. Estava revoltado e amargurado e não fazia outra coisa senão culpar a Deus por ter sido abandonado pela sua companheira. Deus resolve sair à procura da mulher e quando a encontra quer saber onde estava e o que havia feito. Eva, tentando disfarçar, diz que, quando ouviu os passos de Deus pelo jardim, se escondeu por saber que estava nua. Deus pergunta, então: “quem te disse que estava nua? Por acaso desobedeceste aos meus mandamentos?” Eva não consegue responder… apenas chora.

Decepcionado com sua criação e com o rumo dos acontecimentos, Deus decidiu, então, expulsar todos do Paraíso e, para cada um deles, imputou uma pena diferente. Eva, por sua infidelidade a Adão, daria luz a filhos com muitas dores. Adão, por seu descaso e falta de cuidado com Eva, comeria pão do suor de seu rosto, com o trabalho de suas mãos. E decide também que o que Ele havia unido ninguém separaria; Eva teria que viver com Adão até o resto da sua vida. Quanto a Elohim, Deus ainda não havia decidido o que fazer e coçava a cabeça preocupado.

Por ser a criatura mais adaptável da Terra, Deus temia que ele um dia pudesse tomar a Sua forma divina e viesse a ser adorado pelos humanos que habitassem a Terra. Depois de muito pensar, Ele resolve transformá-lo, assim como a todos da sua espécie, numa horrenda criatura verde, pulante e pegajosa, de modo que, nunca mais, ninguém se sentisse tentado a beijá-lo e com isso pudessem transformá-lo novamente num ser metade humano, metade divino.
Elohim, acata prontamente a vontade divina, não que concordasse com ela mas porque sentia que a sua vida não fazia mais sentido sem Eva. Para ele não importava ter sido transformado numa criatura horrenda, a penalidade maior era ter conhecido o amor em sua plenitude e não poder vivê-lo. E assim ele se afastou de sua amada e de todos os humanos para sempre.

Para ter certeza de que nada daria errado, Deus decide também apagar da memória de todos, qualquer lembrança a respeito dessa história. Após pensar mais um pouco, Deus resolve também dar uma linguagem diferente a cada espécie que criou para que também elas nunca mais falassem disso. E assim o fez.

Acontece que, passados nove meses desse acontecimento, eis que Eva dá a luz a um filho… de Elohim. Deus fica preocupado com as consequências disso mas, logo descobre que esse filho, chamado Abel, trazia em si bondade e sabedoria divina, diferentemente de seu meio irmão Caim. Com o passar do tempo as diferenças entre eles e vão se tornando cada vez maior e por fim se torna uma rivalidade que vai até o limite máximo: Caim mata Abel e por isso é amaldiçoado por Deus e banido para uma terra distante.

Como Abel, nessa época, já havia tido um filho, Deus decide dar nomes diferentes à espécie gerada por cada um deles. À espécie de Caim, Ele dá o nome de “Homo Erectus”, por este ter se levantado contra Deus. À espécie de Abel, Ele dá o nome de “Homo Sapiens” que na língua original significava “homem com sabedoria divina”.

Por ter morrido cedo e ter deixado apenas um descendente, a prole de Abel, de seres amorosos e sábios, se tornaria bem menor que a de Caim. Este, mais tarde, infestaria a Terra de pessoas orgulhosas, maldosas, não tementes a Deus e sem espiritualidade. E o resto da história segue do jeito que vem sendo contada por séculos e séculos.

E esta é a história da criação e é daí que vem o mito do sapo que se transforma em príncipe que é contada até os dias de hoje e que habita a psique feminina desde sempre. E se você que acabou de ler este conto ainda tiver alguma dúvida se ele é um conto criado ou o conto da criação, é simples: é só procurar qualquer criatura verde, pulante e gosmenta da lagoa, dar-lhe um beijo na boca e aguardar a transformação…

Enquanto isso, Deus novamente coça a cabeça preocupado…

O conto
A criação de um conto ou o conto da Criação?, de Ianara Rodrigues de Alencar, de Fortaleza/CE, conquistou o 2º lugar na categoria Contos no 27º Concurso Literário Felippe D’Oliveira, em 2004. A publicação foi autorizada pela Secretaria Municipal de Cultura de Santa Maria. Crédito da imagem que abre a página: Angga Nugraha / Pixabay.

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