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Camaradagem da caserna e conexão da Bíblia abriram o caminho do cofre da Saúde – por Carlos Wagner

Os erros cometidos e que resultaram na morte de milhares pelo coronavírus

Os erros cometidos no governo de Jair Bolsonaro resultaram na morte de muitas pessoas pela Covid-19 (Foto Reprodução)

Não foi uma pergunta. Mas uma provocação que recebi de um jovem repórter do interior do Mato Grosso do Sul. Ele começou a conversa lembrando que o PT e o PSDB tiveram os seus companheiros dentro do Ministério da Saúde. Portanto, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) pode ter os seus, no caso os militares da ativa, reserva e reformados, concluiu e perguntou: “Ok?”. Como todo o repórter de rádio, ele resumiu tudo em poucas palavras. Respondi: “Deixe-me explicar”. Por quê? É sobre isso que vamos conversar. Vamos aos fatos.

O governo do presidente Bolsonaro é diferente de todos os outros que ocuparam o cargo anteriormente porque a escala de valores é outra e foi determinada pelo poder de contágio e letalidade da Covid-19. Uma realidade jamais vista no Brasil e no mundo. Nos governos do PT e do PSDB, os rolos se davam na disputa política, no desempenho da economia, nos casos de polícia e em outras áreas.

O atual governo assumiu em 2019 e até o início de 2020 os problemas enfrentados pela administração Bolsonaro eram idênticos aos dos outros presidentes. Em março de 2020, quando a pandemia foi declarada pela Organização Mundial da Saúde (OMS), tudo mudou. O desempenho dos governos passou a ser avaliado pela sua política de combate ao vírus.

Desde então, diariamente, nos lares brasileiros e dos outros países ao redor do planeta, o número de mortos pelo vírus assumiu a manchete dos noticiários noturnos de TV e não saiu mais de lá. Bolsonaro fracassou na sua política de combate à pandemia porque transformou o seu negacionismo em relação ao poder de contágio e letalidade do vírus em política do governo.

E quando surgiu a solução contra o vírus, a vacina, o governo Bolsonaro deixou de comprar as doses quando lhe foram oferecidas e até hoje o país está vacinando a sua população a conta-gotas. O Brasil está entre os países com o maior número de mortos pelo vírus, 560 mil. Pelo menos 300 mil pessoas poderiam ter sido salvas se o governo tivesse feito a coisa certa.

Lembrei ao meu jovem colega. E acrescentei. Evidentemente que, obedecida a lei, o presidente da República pode colocar dentro do Ministério da Saúde quem for do seu interesse. Mas a pergunta que estão fazendo a Bolsonaro não foi feita para os outros presidentes porque a situação não existia. Querem saber qual é a responsabilidade das pessoas colocadas para trabalhar na Saúde pelas mortes causadas pela Covid.

Não é por outro motivo que a Comissão Parlamentar de Inquérito da Covid-19 do Senado, a CPI da Covid, investiga qual é a responsabilidade da militarização do Ministério da Saúde na lambança que se tornou a pasta. Os senadores já descobriram a estrutura do “modus operandi” de como foram abertos os caminhos rumo ao cofre da Saúde por empresas de militares e pastores evangélicos que fizeram lobby tentando vender vacinas que não tinham.

Aqui lembro a minha resposta ao jovem repórter lá no início do texto quando fui perguntado se Bolsonaro pode colocar “os seus” no governo como fizeram o PSDB e o PT. Respondi: “Deixe-me explicar?” A explicação é a que escrevi. A militarização do governo feita pelo presidente Bolsonaro é a principal responsável pelos 560 mil mortos.

Por quê? Ele só colocou nos postos-chaves do Ministério da Saúde pessoas que concordassem com seu negacionismo em relação ao vírus, como o ex-ministro da Saúde e general da ativa do Exército Eduardo Pazuello – há matérias na internet. Portanto, a resposta à pergunta feita pelo colega radialista é que a discussão agora é quem são os responsáveis pelas mortes.

Aqui um bastidor da nossa conversa. Sempre viajei muito pelo interior do Brasil fazendo reportagens e dessa forma estabeleci uma rede de contatos nas redações, principalmente das emissoras de rádio, muito boa e que faço questão de conservar.

Fazer jornalismo no interior não é fácil, especialmente nas pequenas cidades. Por quê? Geralmente a principal receita de anúncios vem da prefeitura municipal. O que significa um alinhamento automático do dono da rádio, ou do jornal, com quem ocupa a cadeira de prefeito, não interessa o partido.

Essa situação vem mudando. Mas de maneira lenta. Mais ainda: hoje a máquina de fake news do governo federal tem como um dos seus alvos as pequenas cidades do interior, principalmente as espalhadas pelas regiões de produção de soja, aves e suínos, os três principais esteios do agronegócio brasileiro. Portanto, habitadas pela classe média rural.

Dentro de uma realidade dessas, quanto mais bem informado o repórter estiver, melhor a chance que ele tem de não comprometer a qualidade do seu trabalho e com isso se manter relevante para o seu leitor ou ouvinte.

Arrematei a minha conversa com o jovem repórter do interior do Mato Grosso do Sul lembrando a ele que a disputa política nas cidades pequenas do interior do Brasil é feroz. E que até agora os problemas nacionais que eram o centro da política, como foi a Operação Lava Jato, em 2019, chegavam lá pelos noticiários nacionais e acabavam servindo de argumento nos palanques durante os discursos dos candidatos locais. Mas não se tinha um exemplo local.

Com a pandemia causada pela Covid é diferente. Todas as cidades do Brasil tiveram casos de pessoas mortas pelo vírus. Existem viúvas, viúvos, filhos que perderem seus pais e gente que chora a morte de amigos para o vírus. Essa situação nunca tinha acontecido antes.

E no meio dessa confusão foram descobertos militares usando os seus laços de amizade com os seus colegas de caserna e pastores empunhando a Bíblia para tentar tirar proveito da situação. Não tem como a máquina de fake news governamental varrer para baixo do tapete uma situação dessas. É simples assim, como diz o general Pazuello.

PARA LER A ÍNTEGRA, NO ORIGINAL, CLIQUE AQUI.

(*) O texto acima, reproduzido com autorização do autor, foi publicado originalmente no blog “Histórias Mal Contadas”, do jornalista Carlos Wagner.

SOBRE O AUTOR:  Carlos Wagner é repórter, graduado em Comunicação Social – habilitação em Jornalismo, pela UFRGS. Trabalhou como repórter investigativo no jornal Zero Hora de 1983 a 2014. Recebeu 38 prêmios de Jornalismo, entre eles, sete Prêmios Esso regionais. Tem 17 livros publicados, como “País Bandido”. Aos 67 anos, foi homenageado no 12º encontro da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI), em 2017, SP.

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